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Matérias / Emmett Till

Mulher que acusou Emmett Till, jovem negro linchado em 1955, se considera 'vítima'

Carolyn Bryant, acusadora de Emmett Till, escreve sobre o caso em livro de memórias não publicado

Redação Publicado em 24/07/2022, às 12h57 - Atualizado às 13h05

Emmett Till e Carolyn Bryant, em fotografias - Divulgação/YouTube/CBS Mornings / Divulgação/Youtube/ABC11
Emmett Till e Carolyn Bryant, em fotografias - Divulgação/YouTube/CBS Mornings / Divulgação/Youtube/ABC11

No verão de 1955, o jovem Emmett Louis Till, que tinha 14 anos, passou as férias com seu tio na cidade de Money, no Mississippi. No entanto, antes de partir sua mãe havia lhe entregado um anel e o alertou de que Chicago — onde viviam — era muito diferente do Mississippi, onde havia ainda grande separação entre pessoas negras e brancas, e sobre locais que poderiam frequentar.

Por exemplo, as estatísticas de linchamento nos Estados Unidos começaram a ser coletadas em 1882. Desde então, mais de 500 afro-americanos morreram dessa forma somente no Mississippi, até aquele momento.

No dia 24 de agosto daquele ano, no entanto, ele e o primo, CurtisJones, fugiram da igreja na qual o tio-avô, Mose-Wright, estava pregando, e se juntaram a alguns garotos locais para irem ao mercado Bryant comprar doces. A mercearia pertencia ao casal Roy e Carolyn Bryant, mas no momento apenas a mulher estava na loja.

Emmett Till, jovem negro assassinado em 1955, no Mississippi
Emmett Till, jovem negro assassinado em 1955, no Mississippi, Estados Unidos / Divulgação/YouTube/CBS Mornings

Carolyn, depois que os garotos foram embora da loja, afirmou que Emmett teria assobiado para ela e que, quando saiu, se despediu de um jeito "despojado demais". A informação teria se espalhado entre os moradores da cidade, e rapidamente chegou aos ouvidos de Roy Bryant, um homem violento e impaciente.

*Nos próximos parágrafos, o texto pode apresentar informações sensíveis para muitas pessoas!!

O assassinato do jovem Emmett Till ocorreu no dia 28 de agosto daquele ano, apenas 4 dias depois de ele ter ido à mercearia comprar doces. Roy Bryant e seu irmão, J. W. Milam, pegaram o carro e, junto de Carolyn, foram 'ensinar uma lição' ao garoto.

Quando o encontraram, sequestraram-no e o levaram a uma cidade vizinha, onde o jovem foi morto friamente, sofrendo com espancamentos. Com as agressões até mesmo seu saltou da órbita e estava sem alguns dentes. Em seguida, jogaram o corpo de Emmett em um rio, e ele foi encontrado três dias depois — completamente desfigurado, só pôde ser reconhecido graças ao anel que o jovem recebeu de sua mãe antes da viagem.

Assim, os dois homens foram acusados pelo desaparecimento e morte do menino de 14 anos, e foram presos no início de setembro de 1955. No entanto, ainda naquele mesmo mês o júri absolveu os acusados, após uma sessão de apenas uma hora, o que gerou grande revolta entre os cidadãos negros, e provocou um aumento significativo do Movimento pelos Direitos Civis, especialmente entre os jovens.

A história de Carolyn

Depois de 60 anos do crime brutal ocorrido com Emmett Till, Carolyn Bryant reapareceu na mídia, e alegou que a história que ela havia contado em 1955, sobre o garoto ter se insinuado para ela, era mentira, como revela o autor Timothy Tyson no livro 'O Sangue de Emmett Till'.

Aos 72 anos na época, Carolyn admitiu que havia inventado seu testemunho mas, convenientemente, também afirmou não se lembrar de mais detalhes daquela tarde em que teve contato com Emmett.

Livro de memórias

Recentemente, em "I Am More Than a Wolf Whistle: The Story of Carolyn Bryant Donham", um livro de memórias não publicado, escrito pela própria Carolyn, a mulher chamou a si mesmo de "vítima", no acontecimento envolvendo Emmett Till. No entanto, advogados e membros da família Till apontam que o livro está cheio de imprecisões, conforme divulgado pelo The Washington Post. 

Desde o primeiro dia, Carolyn Bryant mentiu neste caso", disse Jill Collen Jefferson, advogada de direitos civis que acompanhou os desdobramentos do episódio cruel, conforme repercutido pelo The Washington Post. "E suas mentiras agora se acumularam ao ponto de podermos ver claramente as contradições, inclusive nas memórias", acrescentou.

Segundo Carolyn no livro, a última vez que ela teria visto Emmett vivo foi quando ele tinha sido arrastado para sua cozinha por seu marido, exigindo que ela o identificasse.

Na situação, ela teria negado ser o garoto que estavam procurando, e torcia para que ele apenas fosse levado de volta para casa, em segurança. No entanto, outro detalhe sobre seu livro, é que ela volta a acusar o garoto. Dessa vez, ela alega que ele havia agarrado sua cintura.

Fotografia de Carolyn Bryant, na época do assassinato de Emmett Till
Fotografia de Carolyn Bryant, na época do assassinato de Emmett Till / Divulgação/YouTube/WTHR

Meu marido, Roy Bryant, seu irmão, J.W. Milam, e um grupo de outros homens torturaram e mataram aquele jovem. O horror que aconteceu naquela noite mudou minha vida e meu país para sempre", escreveu Carolyn em seu livro, se isentando da culpa pela morte de Emmett Till.

Jill Collen Jefferson, por sua vez, argumentou que Carolyn ainda poderia ser acusada de homicídio culposo, caso ela soubesse que suas ações poderiam prejudicar Emmett. "E há poucas dúvidas de que ela sabia", acrescenta, já que no livro a mulher alega que seu marido tinha um "pavio curto" e que "poderia querer machucar o garoto", como informado pelo The Washington Post.

Eu sempre me senti como uma vítima, assim como Emmett", acrescenta Carolyn no livro. "Ele entrou em nossa loja e colocou as mãos em mim sem provocação. Eu acho que ele deveria ter sido morto por fazer isso? Absolutamente, inequivocamente, não! Nós dois pagamos um preço por isso, sim, nós pagamos. Ele pagou caro com a perda de sua vida. Paguei caro com uma vida alterada", concluiu.

Ela ainda concluiu que espera que o livro mude a forma como ela é vista aos olhos de quem vê a história hoje em dia. "Não sou uma mulher má", escreveu. "Eu não desejei nenhum mal a Emmett e não pude evitar que o mal chegasse a ele, já que eu não sabia o que estava planejado para ele."

Cynthia Deitle, que já atuou como chefe de unidade da divisão de direitos civis no FBI, também deu seu relato, repercutido pelo veículo internacional. Ela acredita que nunca é tarde para a acusadora dizer a verdade: 'Ela os destruiu'. Em seguida, Cynthia enfatiza que 'não é tarde demais para ela fazer o que é certo e dizer a verdade para a polícia e a família de Emmett. É o mínimo que ela poderia fazer'.

O The Washington Post também revela desdobramentos do caso. À Associated Press, o escritório do procurador-geral do Mississippi revelou que não tem a intenção de abrir um processo contra a acusadora: "Não há novas evidências para reabrir o caso", enfatiza Michelle Williams, atual chefe de gabinete de Lynn Fitch, procuradora-geral.