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Adolf Eichmann: Há 58 anos começava o julgamento de um dos nazistas mais procurados do mundo

Conheça os bastidores do julgamento que a filósofa Hannah Arendt testemunhou para escrever o livro “Eichmann em Jerusalém – Um Relato Sobre a Banalidade do Mal”

Fabiano Onça Publicado em 11/04/2019, às 07h00

Adolf Eichmann
Reprodução

Quando o criminoso de guerra Adolf Eichmann foi sequestrado por um comando israelense num subúrbio de Buenos Aires, em 1961, o mundo viu-se diante de um fato inédito. Israel, um estado criado em grande parte por vítimas do holocausto, havia tomado para si a tarefa de prender, julgar e condenar Eichmann, num dramático ato de justiçamento histórico que culminou com sua morte por enforcamento, em junho de 1962.

A revista americana New Yorker convocou a filósofa alemã Hannah Arendt, ela própria uma vítima do nazismo, para cobrir o evento. O resultado foi reunido no livro Eichmann em Jerusalém – Um Relato Sobre a Banalidade do Mal.

O que Arendt faz é uma demolição do processo. Primeiro, ela expôs as intenções políticas de David Ben Gurion, o primeiro premiê da história de Israel, ao promover o julgamento. Segundo a filósofa, Gurion tinha o interesse de manter viva a memória do holocausto, e essa estratégia criava um terrível constrangimento para a corte: como esperar um julgamento justo, se o resultado já estava definido?

Em seguida, a filósofa analisa o próprio acusado, que foi um dos maiores responsáveis por organizar a logística dos campos de extermínio. Afastando-se da imagem do carrasco sanguinário, ela mostra que ele era um burocrata medíocre, que só queria fazer seu serviço bem feito. Finalmente, Arendt demonstra que, em países cuja população se opôs de forma decidida às deportações, os nazistas fizeram vista grossa – como na Dinamarca, onde o rei ameaçou ser o primeiro a utilizar a estrela de David no ombro. Ou seja, havia como lutar e resistir, coisa que muitos Conselhos Judaicos não fizeram.

É só no fim do livro que Arendt dá seu próprio veredicto para Eichmann. Para ela, o único motivo pelo qual ele deveria ir para a forca é porque, ao obedecer a uma ideologia que se julgava no direito de dizer quem deveria ou não habitar o mundo, ele também dava o direito à humanidade de não querer partilhar a Terra com ele.

Quanto ao fato de apenas “obedecer ordens”, fica a última lição da filósofa. Para ela, “política não é jardim-da-infância; em política, obediência e apoio são a mesma coisa”.