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Adolf Eichmann: psicopata e assassino compulsivo ou medíocre perpetrador da banalidade do mal?

Para Eichmann, a morte de 6 milhões de judeus constituía preço razoável para aplacar seu ego inflado

Gabriel Waldman, autor e sobrevivente de duas guerras Publicado em 02/06/2020, às 10h28

Eichmann após a captura
Eichmann após a captura - Domínio Público

Ao se defrontar com o réu Adolf Eichmann atrás do painel de vidro no tribunal de Jerusalém, Hanna Arendt sentia a vertigem da decepção.

Aguardava pelo menos um “anjo da morte”, um gênio do mal, mas encontrou um homúnculo inexpressivo, um burocrata carimbador diligente de documentos sem responsabilidade, sem remorso, cumprindo cegamente ordens de seus superiores. Surge então sua teoria da “Banalidade do Mal”.

A comunidade judaica da época rejeitou essa interpretação. Muitos (alguns até hoje) achavam que a palavra banalidade relativizava a dimensão do crime e seria um convite para absolver ou diminuir a pena de Eichmann. Nada mais errado. Em nenhum momento ela solicitou leniência, questionava apenas a motivação do crime.

Outros condenavam Arendt por dessacralizar as vítimas – sendo vítimas de um emissário de Lúcifer, honrava e dava grandeza moral a elas; mortas por um mero burocrata, de certa forma diminuía sua estatura de mártires. Já que é bem mais fácil odiar Lúcifer do que um contador manipulando números e horários de trens.

Hoje, a “banalidade do mal” é relutantemente aceita no vocabulário do Holocausto. Seus apologistas ressaltam ainda que é um grito de cautela salutar de que não é necessário aguardar nenhum Hitler ou Lúcifer brandindo espada flamejante para que o Holocausto se repita e que os Eichmanns de hoje perambulem pacificamente pelas ruas aguardando serenamente uma nova oportunidade. E, depois, tem aquele pensamento incômodo roendo-nos por dentro: “O que teria feito eu nas mesmas circunstâncias?”.

Impõe-se a tolerância zero, portanto. Pena que a realidade seja indiferente às nossas teorias filosóficas. Vejamos como a banalidade do mal se sustenta diante dos fatos históricos referentes ao Holocausto e em especial diante de Eichmann: a questão do genocídio judaico foi discutida e resolvida em janeiro de 1942 na Conferência de Wannsee por líderes nazistas de segundo escalão, inclusive Eichmann.

O primeiro escalão (Hitler, Goring etc.) já havia decidido em princípio e as matanças já estavam em curso, porém de forma desorganizada. Em Wannsee, os 15 participantes convocados por Heidrich (tenente de Himmler, chefe da SS) tinham por incumbência criar um plano abrangente de como a “solução final” deveria ser executada em ordem, com eficiência e disciplina germânica.

As secretárias presentes elaboraram uma ata no final da reunião e uma das cópias sobreviveu à guerra, nos dando uma ideia do clima e do conteúdo que prevalecia, além da participação e do comportamento de cada um dos presentes.

O encontro foi filmado com atores profissionais depois da guerra, mas os diálogos
são reproduzidos fielmente conforme as atas. E, entre os aspectos que se ressaltam, está a extrema civilidade do encontro. Regado a conhaque, não há nem sinal de ordens do Führer nem ameaças ou imposições. Mesmo as ocasionais críticas são respondidas com deferência e respeito. Foi dito, por exemplo: “Temos de achar jeito mais humano. No inverno russo, as crianças chegam aos campos com as nádegas congeladas nos assentos do vagão. Ao tirá-las à força, pedaços de pele e mesmo carne ficam presos. As crianças saem gritando de dor e sangrando. Péssimo efeito sobre os soldados”.

Heidrich responde: “Louvo seu sentimento humano. Entretanto, eles não são humanos, apenas judeus. Mesmo assim vou tomar providências”. O clima geral lembra uma reunião de confraria de criadores de gado planejando quantas cabeças mandar a qual matadouro, quando e como organizar o transporte. É de arrepiar.

Ao assistir ao filme da conferência pela internet, a expectativa sobre os participantes é a de um comportamento similar ao de Eichmann em Jerusalém: contadores diligentes compilando números e horários sem qualquer responsabilidade pelo que representam (a banalidade do mal). Em vez disso, há participantes opinativos e assertivos, cuja questão não era mais se o genocídio deveria ser perpetrado, mas sim como proceder de forma mais eficiente.

O objetivo do advogado de defesa de Eichmann, Dr. Gervatius, era evitar a pena de morte a seu cliente. E como fazer isso de forma minimamente aceitável pela promotoria e juízes? A primeira opção seria alegar a inimputabilidade mental e psíquica do réu, pela qual (caso aceita) o cliente seria acometido a um instituto.

O advogado, porém, sabia que o réu seria desmascarado por médicos que a promotoria convocaria para avaliar suas condições mentais. Sobrou, então, a única alternativa: a de posicionar Eichmann como um mero autômato, transmissor de ordens, sem matar e sem nunca ter visto alguém morrer.

Um subalterno cumprindo ordens e nada mais. Essa alternativa, aliás, foi utilizada nos Julgamentos de Nuremberg; porém, naquela ocasião, os réus eram do primeiro escalão do nazismo e só podiam atribuir culpa a Hitler, o único acima deles. Não funcionou: as costas de Hitler eram largas, mas não o suficiente para carregar todas as culpas do nazismo.

Agora o julgamento envolvia o terceiro escalão, portanto havia mais gente a quem atribuir a culpa. Eichmann desempenhou com credibilidade seu papel de robô, mas acabou enrolado por seu comportamento totalmente diverso daquele que apresentou em Wannsee, onde participou inclusive do planejamento da matança.

Ficou clara a fragilidade da arquitetura jurídica apresentada pela defesa. E ele foi condenado à morte e executado. Afinal, quem foi o verdadeiro Eichmann? Um psicopata e assassino compulsivo ou um medíocre perpetrador da banalidade do mal? Parece-me que nem um nem outro.

Um de seus hábitos recorrentes no julgamento consistia em ressaltar sua intimidade com pessoas influentes e conhecidas pelo grande público. Ora, galgar posições na escala social, acrescida pelo inato antissemitismo, explica muito de seu caráter predominante.

Para Eichmann, a morte de 6 milhões constituía preço razoável para aplacar seu ego inflado. E isso nos induz a outra pergunta: quem não gosta de sociabilizar com poderosos? No entanto, sempre há um preço a pagar: seja moral, pecuniário ou de submissão. Aceitando a premissa, discute-se apenas a ousadia do preço que Eichmann achava razoável. A semente do mal está disseminada como o coronavírus: por todo lugar e entre todos nós.


Gabriel Waldman é judeu, autor de três livros e sobrevivente de duas guerras