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Afinal, por que Elizabeth I é conhecida como Rainha Virgem?

O ícone da virgindade, como elemento essencial da figura pública da filha de Henrique VIII, possibilitou o fortalecimento de sua imagem. Entenda!

André Nogueira Publicado em 23/06/2020, às 13h01

Elizabeth I
Elizabeth I - Getty Images

O reinado de Elizabeth I foi marcado por um nível significativo de conciliação interna, assim como a fundamentação completa das bases do anglicanismo como religião central da sociedade e do poder ingleses.

Filha do trágico rei Henrique VIII, ela governou por 45 anos, sendo uma monarca de importante sucesso político. Seu mandato criou a chamada Era Elisabetana, em que a cultura floresceu a nível continental e a influência mundial da Inglaterra se endureceu.

Elizabeth ficou conhecida na Historia pela alcunha de Rainha Virgem, uma fama relevante na legitimação, inclusive religiosa, de seu poder, marcando as últimas décadas de seu reinado, que foram caracterizados pela tentativa de recuperação de sua popularidade, afetada por uma série de erros administrativos que criaram deficiências econômicas e militares no país. O chamado Culto à Virgindade foi um dado importante da manutenção de seu poder.

A origem dessa fama coincide com o momento que culminaria mais tarde com a noção de Nacionalidade Inglesa, que significa a formação de uma identidade cultural e política a partir, inclusive, da regência da Coroa. As políticas culturais, o culto à rainha e a estabilidade sólida de Elizabeth I foram essenciais para isso.

A celebração da noção de virgindade da rainha foi construída à medida que Elizabeth envelhecia. Se ela era virgem ou não, não há resposta concreta, mas também pouco significa: a alcunha é baseada numa fama e numa representação da realidade, pautada na manutenção da credibilidade do trono. A âncora desse argumento era o fato de que a monarca nunca se casou, então socialmente era declarada como nunca tendo praticado o sexo.

Os retratos de Elizabeth sempre passavam uma ideia de pudor / Crédito: Wikimedia Commons

 

Solteira, Elizabeth então pautou sua propaganda de poder na ideia da Rainha Virgem, o que sugeria uma relação imagética clara com a figura da Virgem Maria, mãe da figura mais relevante de culto civil da sociedade tradicionalista (além da autoridade regular do rei), Jesus Cristo. Isso, portanto, proferia uma ideia de que Elizabeth não era uma mulher comum, e próxima da vida doméstica das famílias cristãs.

Essa campanha foi acompanhada por movimentos literários e das artes plásticas. Quadros, poesias, cantos e celebrações retratavam a rainha a partir da característica da virgindade, ou mesmo como uma espécie de deusa, a colocando numa posição de superioridade ética.

Isso trabalhava em benefício da proposta religiosa da Igreja da Inglaterra, criada por Henrique VIII, em que rei ou rainha assumia o papel do papa como contato primário com a força divina.

Elizabeth foi alvo desse movimento, tendo mais de uma vez reiterado essa imagem como forma de virtude a ser mantida como legado do Trono. Em 1559, por exemplo, em fala à Câmara dos Comuns, era teria expressado: "E, no final, isso será suficiente para mim, que uma pedra de mármore declare que uma rainha, reinando em tal época, viveu e morreu virgem". Na posição política da rainha, esse fundamento era o mais central.

Representação de Virgem Maria / Crédito: Getty Images

 

Claro que essa lógica também partia de uma problemática de nível social: associando o trono inglês à figura masculina, a sociedade patriarcal britânica via na mulher um papel social ligado aos bastidores, à manutenção, à subserviência, não a posição de liderança. A campanha de Elizabeth foi uma arma de apelo ao conservadorismo vigente, na tentativa de legitimar seu poder que desviava certos padrões.

Com o fim do reinado da soberana e a construção da imagem dela nos séculos seguintes, poetas, escritores e pintores deram maior lastro e grande continuidade à representação de Elizabeth a partir do ícone da virgindade.

A exaltação à memória da monarca tinha como pilar fundamental a imagem da Rainha Virgem, o que foi essencial para a formação da figura como uma das mais centrais da memória dos ingleses.


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