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Eremita do deserto congelado: a surpreendente saga de Agafia Lykova

Refugiada por perseguição de czares e comunistas russos, Agafia só viu outro humano, que não fosse de sua família, aos 35 anos — quando foi descoberta por um grupo de geólogos

Wallacy Ferrari Publicado em 21/08/2020, às 10h00

Agafia Lykova em documentário de 2014
Agafia Lykova em documentário de 2014 - Divulgação/ YouTube/ RT Documentary

A morte de Kennedy, a chegada do homem a Lua, o surgimento dos Beatles e de Elvis Presley; Agafia Lykova não viu nada disso. Apesar de nascida em 1944, não viu a história do mundo ser moldada até 1978, quando um grupo de geólogos descobriu ela, junto a sua família, por acaso, durante uma exploração de helicóptero em uma floresta congelada, na cordilheira Abakan, na Sibéria, Rússia.

Vivendo a 1.050m de altitude em uma região montanhosa, não havia nenhum registro de vida humana no local, que ficava a 250 km da cidade mais próxima. Agafia, que até seus 35 anos, nunca havia visto outro humano que não fosse de sua família, falava um russo lento e quase incompreensível, porém, suas habilidades na cozinha, caça, leitura e costura era apurada graças aos hábitos do isolamento.

Agafia Lykova / Crédito: Divulgação/ YouTube/ RT Documentary

 

O afastamento da sociedade se deu pelas crenças religiosas da família, que, crentes nos ritos e liturgia mais antigos da Igreja Ortodoxa Russa, foram perseguidos por czares e pelo regime comunista da Rússia. Desde 1936, seus pais, Karp e Akulina, decidiram fugir após uma patrulha bolchevique atirar em um tio de Agafia.

Em condições intensas, Agafia e seu irmão Dmitriy foram criados sem acesso a escola ou hospital. Os primeiros anos de seus pais foram de dificuldade extrema devido a falta de prática na vida florestal, tendo de comer o couro de seus sapatos em ocasiões de necessidade. Porém, quando Agafia nasceu, já estavam isolados há 8 anos e puderam ensiná-la as práticar de sobrevivência.

Quando recebeu a equipe de pesquisadores em sua residência pela primeira vez, buscou acolhe-los no frio intenso. Com surpresa, a equipe continuou acompanhando e revisitando Agafia em busca de respostas sobre como foi possível sua sobrevivência apesar do isolamento. Agafia, por sua vez, se surpreendia com os artefatos que acompanhavam os geólogos — um rádio para escuta e transmissão de dados e um televisor portátil.

Agafia Lykova com um peixe na mão / Crédito: Divulgação/ YouTube/ RT Documentary

 

A descoberta foi amplamente coberta na imprensa científica mundial, fazendo, em 1980, Agafia ser convidada a conhecer a sociedade exterior a convite do governo soviético.  No tour, pôde, pela primeira vez, ver carros, aviões e dinheiro, porém, ficou bestificada ao ver um belíssimo cavalo que compunha da cavalaria militar.

Desde então, melhorou sua pronuncia na língua russa e começou a ter acesso a outros livros além dos religiosos, porém, preferiu retornar a floresta, onde reside até hoje, aos 75 anos, saindo somente para ir ao pronto socorro quando necessário e recebendo religiosos para conversar sobre a liturgia antiga de sua religião. Preferiu se manter onde nasceu e sabe viver.


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