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Agotes: os intocáveis da Idade Média

Os agotes remontam uma misteriosa origem e foram socialmente desprezados ao longo de toda a sua existência, vivendo em uma espécie de "apartheid" medieval

Giovanna de Matteo Publicado em 24/11/2020, às 07h25

Povos no vale de Baztán
Povos no vale de Baztán - Divulgação/Youtube

Os agotes faziam parte de um grupo étnico e social. Acredita-se que eles eram descendentes dos habitantes dos vales de Baztán e Roncal em Navarra, Guipúzcoa, no País Basco francês, região ocidental de França, e em alguns municípios de Aragão, no norte da Espanha.

A primeira documentação sobre esse grupo data por volta do ano 1288, quando alguns estudiosos tentam aplicar hipóteses sobre o surgimento da descendência agote. Nesse primeiro caso, surgem algumas teorias que afirmam que os agotes eram descendentes dos visigodos. Isso por que no dialeto do Occitano Béarnais, o termo 'cas gots', que pode ser traduzido como "cães góticos", daria origem a palavra 'cagots', nome derivado que se referia aos agotes.

Já em meados do século 19, o geógrafo e historiador espanhol Julio Altadill, declara que agote significa "confinado por doença bucal", sendo que 'Bozate', um bairro da cidade de Arizkun, no município do vale de Baztán, significa "confinado por afonia" ou "confinamento de afônicos".

Outras teorias ainda remontam diferentes origens para os agotes. Uma delas é que eles seriam muçulmanos que nunca saíram do sul da França, por terem sido obrigados à conversão depois de serem derrotados por Carlos Martel, fundador da dinastia carolíngia. Nesse caso, 'cagot' significaria "caçadores de godos".

Entretanto, investigações mais recentes também propõem que eles poderiam ter sido uma descendência formada a partir de criminosos que tornaram-se refugiados nos Pirinéus Inferiores.

Independente de sua misteriosa e controversa origem, os agotes foram caracterizados pela forma como eram vistos pelos outros povos, sendo eles um grupo minoritário socialmente desprezado, que sofreu diversas discriminações ao longo de sua existência.

Na maioria dos documentos, eles são descritos como feitiçeiros, quase como monstros perigosos que tinham uma cauda nas costas, e sem lóbulos de orelha. Eles viviam em uma espécie de "apartheid" medieval, onde eram proibidos de semisturarem com outras pessoas, além de que existiam crenças que os proibiam de tocar em alimentos, animais, peixes, lenhas ou então pisar descalços na grama, pois o seu toque resultaria no apodrecimento daquilo que entrou em contato com um agote.

Para o escritor Toti Martínez de Lecea, "os agotes eram simples pré-cristãos que foram retirados da comunidade simplesmente porque não se tornaram cristãos", resistindo às práticas catequizantes para seguir suas tradições pagãs. O pesquisador também revela que a Igreja Católica foi uma grande disseminadora do preconceito contra os agotes, pois os definia como "leprosos espirituais", por se recusarem a pagar uma espécie de imposto que lhes daria o perdão e a salvação.

É conhecido também alguns documentos eclesiásticos de Arizkun e Elizondo que expõem como a Igreja libertou os agotes do inferno em troca de grandes quantias de dinheiro. Nos arquivos fforam documentadas as relações dos agotes com o clero e a nobreza, e como o conflito entre eles levou à um esgotamento desse povo contra a Igreja, por serem tratados de forma diferenciada. 

Agotes em meados de 1900 / Crédito: Creative Commons

 

No geral, em todos os aspectos cotidianos, os agotes tinham limitações: eles só podiam casar entre si, viviam fora dos centros habitados, eram obrigados usarem roupas que os demarcassem, e a tocar uma campainha toda vez que andassem pela área, para que os não-agotes não chegassem perto. Na igreja, eles sentavam em um lugar separado, e quando batizados tinham uma fonte batismal diferente.

O ódio aos agotes era transmitido entre as gerações. Suas características anatômicas eram criticadas, e acreditava-se que eles podiam transmitir lepra. Eles eram considerados rabugentos, orgulhosos e arrogantes, e tinham fama de cretinos. Além disso, eles eram subjugados como homossexuais e pagãos feiticeiros, que praticavam zoofilia.

Agotes em meados de 1900 / Crédito: Creative Commons

 

Finalmente, em 1817, uma lei aboliu a discriminação contra os agotes e garantiu à eles direitos iguais, que eram aprovados em toda área de Navarra. No entanto, o preconceito ainda persistiu entre os povoados. 

Somente 50 anos depois do decreto que algumas mudanças começaram a ocorrer. Houve então o bloqueio da entrada especial da Igreja que fora preparada para os agotes na cidade de Arizkun. O cemitério que também era separado, foi transferido para o local comum onde todas as pessoas eram enterradas, sendo esses os dois últimos vestígios registrados de discriminação contra os agotes.


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