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Agressões, abandono e solidão: a triste e inspiradora saga de Mary Ellen Wilson

Quando ainda era bebê, a pequena foi adotada ilegalmente por seu suposto pai biológico. Daquele dia em diante, sua vida virou um misto de frieza e crueldade

Pamela Malva Publicado em 11/05/2020, às 13h30

Foto de Mary Ellen Wilson aos 10 anos
Foto de Mary Ellen Wilson aos 10 anos - Wikimedia Commons

Por anos, os Estados Unidos não detinham quaisquer órgãos que protegessem os direitos das crianças do país. Por esse motivo, centenas de meninos e meninas norte-americanos ficaram desamparados.

Em meados de 1860, por exemplo, uma das única instituições que cuidava de casos de agressões em Nova York era o Departamento de instituições de caridade. Foi esse o órgão que recebeu o caso de Mary Ellen Wilson.

Abandonada, esquecida e adotada por desconhecidos, a menina foi alvo de agressões covardes que cessaram apenas quando Etta Angell Wheeler resolveu ajudar. Daquele dia em diante, a trajetória da menina virou uma saga frenética e, de certa forma, inspiradora.

Mary Ellen quando ainda era criança / Crédito: Divulgação

 

Uma menininha sonhadora

Mary Ellen Wilson nasceu em março de 1864, no bairro de Hell’s Kitchen, em Manhattan. Natural de Nova York, então, a menina cresceu com pais trabalhadores que buscavam as melhores oportunidades na gigantesca cidade.

Durante a Guerra Civil, entretanto, seu pai, Thomas, faleceu. Sozinha, a mãe de Mary Ellen, Francis, teve de encontrar formas de se sustentar. O dinheiro, apesar de ajudar, era curto e não cobria os gastos da criação da menina.

Assim, Francis tomou a única decisão que estava ao seu alcance: entregou Mary Ellen a Mary Score, a trabalhadora de uma creche. A mãe da menina, contudo, já não conseguia visitá-la, muito menos pagar os gastos de Score.

Dessa forma, Mary Ellen, com quase dois anos, foi entregue ao Departamento de instituições de caridade de Nova York. O órgão, por sua vez, encontrou Thomas McCormack, um homem que dizia ser pai biológico da menina.

Foto de Mary Ellen aos 10 anos, cheia de hematomas / Crédito: Wikimedia Commons

O começo do pesadelo

Casado com Mary Connolly, Thomas conseguiu a guarda de Mary Ellen em um processo ilegal, sem documentos ou recibos adequados. A única coisa que os McCormacks eram obrigados a fazer era apresentar anualmente um depoimento sobre os cuidados prestados à Mary Ellen — o que foi feito apenas duas vezes.

Pouco tempo depois da adoção, todavia, Thomas McCormack morreu e a jovem menina ficou sob os cuidados de Mary Connolly. A viúva casou-se com Francis Connolly e mudou-se para um apartamento, com Mary Ellen à tiracolo.

Foi no novo endereço que as agressões começaram. Vizinhos passaram a ouvir gritos e reclamações de maus-tratos por parte de Mary Ellen. Desesperados, os moradores pediram ajuda de Etta Angell Wheeler, uma missionária metodista.

A fim de solucionar a questão, Etta buscou uma forma de entrar na casa de Mary Connolly. Uma vez dentro do apartamento, a mulher encontrou a pequena Mary Ellen coberta por hematomas, desnutrida e com claras evidências de negligência.

Um anjo disfarçado

Aterrorizada pela situação, Etta começou a procurar por medidas legais que pudessem ser tomadas. Sem quaisquer órgãos que pudessem cuidar do caso, a missionária contatou Henry Bergh, um defensor do direito dos animais, criador da Sociedade Americana de Prevenção a Crueldade Contra os Animais.

Com o testemunho dos vizinhos em mãos, Etta e Henry moveram um processo contra Mary Connolly, buscando salvar Mary Ellen das crueldades da mãe adotiva. Aos 10 anos, a menina foi tirada da casa onde morava e o julgamento começou.

O caso foi levado à Suprema Corte do Estado de Nova Iorque, em 1874. Em seu próprio testemunho, a menina confirmou que era espancada regularmente. A pequena não era alimentada, era forçada a dormir no chão e ficava sozinha com frequência, além de ser proibida de sair de casa.

Mary Ellen já mais velha / Crédito: Divulgação

 

Na corte, Mary Ellen emocionou à todos quando disse não saber quantos anos tinha. “Mamma tinha o hábito de dar chicotadas e bater-me quase todos os dias”, narrou a menina. “Ela já me cortou com uma tesoura, não tenho lembrança de ter sido beijada por qualquer um. Ela nunca me acariciou ou me mimou.”

Após o deprimente e cirúrgico testemunho da criança, Mary Connolly foi condenada à um ano de cárcere privado. Como resposta ao caso cruel, a Sociedade de Nova York para a Prevenção da Crueldade contra as Crianças — primeira do gênero — foi criada.

Com a condenação da mãe adotiva, Mary Ellen foi enviada para um lar juvenil e acabou sendo adotada por Etta Wheeler. Aos 24 anos, a jovem se casou, teve dois filhos e decidiu, em homenagem à sua própria história, adotar uma menina órfã. Mary Ellen morreu apenas aos 92 anos, em 1956.


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