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Albert Dittrich: A saga do espião da KGB que desistiu de sua vida secreta para morar nos EUA

Após uma década vivendo como Jack Barsky, Dittrich foi chamado de volta pela KGB, mas achou uma maneira de permanecer nos EUA; mesmo que isso pudesse significar perder sua vida

Fabio Previdelli Publicado em 29/05/2021, às 11h00

Albert Dittrich, o ex-espião da KGB
Albert Dittrich, o ex-espião da KGB - Divulgação/ Arquivo Pessoal

Discretos e essenciais, espiões sempre tiveram um papel importante dentro das estratégias de governos. Ao longo da história tivemos nomes importantes, como Eddie Chapman, que investigou as tropas de Hitler; Virginia Hall, que libertou os franceses dos nazistas; ou Anthony Blunt, que atuou como curador de arte da família real britânica. Isso sem falarmos sobre a polêmica em volta da figura de Mata Hari.  

Como explica matéria da BBC, a União Soviética, por exemplo, já mantinha os chamados agentes “ilegais” (isto é, por viverem sob identidades falsas) na Europa desde 1919. Além deles, havia também os agentes “residentes”, diplomatas que viviam legalmente em outras nações, mas que tinham uma função dupla.  

Na Segunda Guerra, também, há os “grandes ilegais”, que ajudaram os Aliados a vencerem os nazistas, através do compartilhamento de informações privilegiadas. Foi após o conflito, aliás, que os soviéticos, mais precisamente os chefes da KGB, decidiram que era fundamental manter pessoas infiltradas em território americano para prevenir caso houvesse outra Guerra. 

Entre elas estava Albert Dittrich, que viveu sob o nome de Jack Barsky. Após uma década de espionagem, Albert cansou de sua vida de espião, desejando ser para sempre Jack, mas seus planos não saíram muito bem como imaginou.  

Da Alemanha Oriental ao serviço secreto 

Na década de 1970, Dittrich estava prestes a se tornar professor de química de uma universidade da Alemanha Oriental quando a KGB lhe chamou. Como relembra o The Guardian, Albert foi enviado para Moscou, onde receberia um treinamento para “se comportar como um americano”. 

Dittrich com sua mãe em Moscou/ Crédito: Arquivo Pessoal

 

Sua missão no meio dos “inimigos capitalistas” era simples, mas não significa que seria fácil: teria ‘apenas’ que se infiltrar na elite americana, descobrir tudo o que pudera sobre eles, principalmente de políticos.  

Assim, aos 29 anos, em 1978, chegou em Nova York com a identidade do canadense William Dyson. Após um ano construindo sua identidade americana, Dyson saiu de cena. Surgia Jack Barksy.

Mais confiante e com um inglês afiado, Jack seguia a narrativa do jovem interiorano que vivia na fazenda, mas que, de repente, decidiu viver uma intensa vida nova iorquina. 

Em Manhattan, desfrutou de tudo o que precisava para se camuflar cada vez mais entre os americanos, além de uma carteirinha da biblioteca, também tirou carta de motorista e, até mesmo, conseguiu sua seguridade social — documento indispensável para conseguir trabalhar.  

Entre um trabalho e outro, nada muito rentável, afinal, não tinha registro escolar para certificar sua escolaridade, como aponta a BBC, Jack enviava transmissões de rádio para seus superiores, além de correspondências secretas, grafadas com tinta invisível. Nesse meio tempo também colocava escutas em parques da cidade.  

Sua vida, no entanto, tinha laços muito fortes na Alemanha, onde deixara sua esposa Gerlinde e seu filho Matthias. A cada dois anos ele os visitava, mantendo sempre a história que estava atolado em seu trabalho no Cazaquistão. Ninguém desconfiava de nada.  

Apesar de seguir os passos da KGB à risca, a agência soviética se incomodava com o fato dele não ter conseguido um passaporte em seu novo nome, afinal, teria que dispor diversos dados de um passado que não existiu. Se fizesse, seria facilmente desmascarado. Isso não era interessante.  

Os serviços de Jack 

Enquanto espião, como aponta o Guardian, Barksy era responsável por identificar possíveis recrutas para a KGB, e também por mantê-los informado sobre como os americanos viam situações que poderiam aumentar a tensão entre os dois países.  

Além disso, ele também foi enviado para perseguir um desertor e também fez um pouco de espionagem industrial, compartilhando informações sobre softwares e afins da empresa onde trabalhava: a Met Life. 

Barsky (quarto à direita) com seus colegas de trabalho da Met Life/ Crédito: Arquivo Pessoal

 

Por fato de não ter conseguido passaporte e também por não conseguir frequentar o círculo social de seus alvos. A KGB achou melhor que ele seguisse pelo chamado “Plano B”, com ele se formando na faculdade o e subindo na ordem social gradualmente. Assim, foi o melhor aluno de sua turma de Ciências da Computação.  

Nesse ponto, parece ter caído no que muitos chamam de choque de realidade. Com uma vida considerada ‘normal’, começou a duvidar se os americanos eram realmente aquelas figuras sangrentas que haviam lhe pintado. 

Apesar de jamais poder mostrar simpatia por seus ‘inimigos’, acabou estabelecendo um elo muito maior nas Américas. A KGB não sabia, mas Jack havia mão só se casado com uma imigrante ilegal da Guina, como também teve uma filha com ela, diz a BBC, que revela que entre suas duas ‘famílias’ acabara preferindo a que formou nos EUA. 

A volta? 

Porém, em 1988, uma década depois de começar sua jornada como espião, passou a viver uma sina: a KGB havia pedido seu retorno ao país, mas ele não desejava isso. Porém, contrariar os soviéticos lhe causaria, quase que certamente, sua vida.  

Com isso, encontrou uma solução, abusou da visão que a KGB tinha dos norte-americanos. Os comunistas acreditam, segundo a BBC, que a cultura “permissiva” dos EUA lhe tornavam mais propícios a adquirirem doenças, como a AIDS. Assim, temiam que a União Soviética fosse tomada pela enfermidade.  

Com isso em mente, o espião ‘convertido’ escreveu em uma carta secreta, dizendo que era portador da doença e que não voltaria antes de estar completamente curado, explica matéria o jornal britânico. Por um tempo, isso acabou dando certo. 

Mas sua máscara caiu em 1992, depois do fim da URSS, quando o arquivista Vasili Nikitich Mitrokhin revelou uma série de arquivos confidenciais, entre eles a real identidade de Jack. Os 72 meses seguintes foram marcados pela perseguição da FBI ao agora conhecido Albert Dittrich

Com escutas em sua casa, o serviço de inteligência americana descobriu toda a verdade depois que ele discutiu com sua esposa. "Estávamos na cozinha de casa, e eu tentava salvar nosso casamento, explicando o tamanho do sacrifício que tinha feito para ficar com Chelsea [sua filha] e com ela”, recorda à BBC. 

“Então, disse: 'aliás, quer saber o que eu fiz? Eu sou alemão. Trabalhava para a KGB. Eles me disseram para voltar para casa, mas eu fiquei aqui com vocês, e isso foi muito perigoso para mim. Esse foi o meu sacrifício'." 

Barsky com Matthias (segundo à esquerda), seu filho alemão, e Chelsea e Jessie, seu filho e filha americanos em 2015/ Crédito: Arquivo Pessoal

 

Apesar do segredo revelado, Albert ou Jack, chame-o como quiser, sofreu as duras penas de sua confissão: além do divórcio, foi capturado pelos agentes do FBI em um pedágio na Pensilvânia.

Após passar por uma incansável sessão no detector de mentiras, conta que deu ao agente especial Joe Reilly todas as informações que dispunha. Em troca, ganhou ajuda para receber um passaporte e viver como um autêntico cidadão do país.  

Atualmente, com 71 anos, Jack Barsky, como aponta a BBC, está casado pela terceira vez, relação a qual teve como fruto mais uma filha. Apesar de preferir ficar nos Estados Unidos, se reconciliou com seu filho Matthias, mas não com sua ex-esposa. Mesmo assim, se diz feliz. "Finalmente posso viver a vida que sempre quis. Tenho muita sorte."


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