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Uma viagem infernal: A insana jornada da família real portuguesa até o Brasil

Após embarcar no cais de Belém, em 1807, a nobreza enfrentou uma alimentação precária, ratos e diversas trocas de embarcações

André Luis Mansur Publicado em 30/03/2020, às 16h12 - Atualizado em 03/09/2021, às 10h00

Pintura da família real portuguesa embarcando no cais de Belém, em 1807
Pintura da família real portuguesa embarcando no cais de Belém, em 1807 - Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Há cerca de 200 anos, a ideia de atravessar o oceano em um barco à vela era praticamente insana. Isso porque, naquela época, cruzar o Atlântico era um desafio repleto de perigos. Principalmente levando em conta que os navios usados na mudança da corte portuguesa para o Brasil, em meados de 1807, eram verdadeiras “latas-velhas” — desconfortáveis, vulneráveis no caso de combate e carentes de reparos.

Ainda naquele 29 de novembro, dia da partida de Lisboa, a esquadra portuguesa — composta por 19 navios — encontrou-se com a frota britânica que a escoltaria até o Brasil — outras 13 embarcações.

Essa deve ter sido uma cena monumental, de ficar gravada para o resto da vida na memória de quem a testemunhou: 32 barcos de guerra, mais uns 30 navios mercantes, preparando-se para a travessia oceânica.

Às três horas da tarde, o comandante da Armada britânica, Sidney Smith, ordenou uma salva de 21 tiros de canhão. Estava marcado o início da penosa jornada da família real em direção à colônia.

Perrengue

Algo entre 10 mil e 15 mil portugueses — cerca de 5% da população do país — estavam embarcados naqueles navios. Na maioria, era gente importante, muito afeiçoada aos luxos da nobreza. Mas as condições a bordo não eram nada agradáveis. A água era escassa, de má qualidade. E a comida não passava de carne salgada e biscoitos.

Em pouco tempo, o mantimento já estava contaminado por vermes. Animais vivos também foram embarcados, para garantir um pouco de leite, ovos e alguma carne fresca que pudesse ser servida aos passageiros mais chiques. Portanto, dá para supor que as condições de higiene estavam longe do aceitável.

Carlota Joaquina / Crédito: Wikimedia Commons

 

No Afonso de Albuquerque, navio em que viajava Carlota Joaquina, uma infestação de piolhos obrigaria todas as mulheres — incluindo a princesa — a raspar o cabelo. Ratos eram abundantes nas embarcações, o que só aumentava o risco de uma epidemia. Por causa da alimentação precária, distúrbios intestinais tornaram-se comuns. Para os nobres portugueses em fuga, a situação não poderia ser mais constrangedora.

Dom João e sua mãe, a rainha Maria I, estavam no navio Príncipe Real — acompanhados de Pedro e Miguel, os dois filhos do príncipe regente com Carlota. Quatro das seis filhas do casal viajavam com a mãe, no Alfonso de Albuquerque. E as outras duas filhas seguiam no Rainha de Portugal. Ainda havia uma tia e uma cunhada de dom João, embarcadas no navio Príncipe do Brasil.

Navegação arriscada 

No dia 8 de dezembro, perto da ilha da Madeira, uma violenta tempestade fez estragos consideráveis. Na esquadra portuguesa, mastros foram quebrados e velas, rasgadas. A péssima condição de visibilidade obrigou as embarcações a parar, sobretudo porque aquela era uma área de navegação arriscada, cheia de rochedos submersos.

A frota dispersou-se e uma parte dela seguiu direto para o Rio de Janeiro. Alguns navios britânicos já tinham voltado para a Europa, a fim de reforçar o cerco à Lisboa, invadida por tropas de Napoleão.

Quando as esquadras alcançaram a linha do equador, novo imprevisto: uma calmaria tornou a frear o avanço, submetendo passageiros a dias de sol escaldante. Casos de insolação e desidratação multiplicaram-se. Até que a calmaria se foi, a viagem seguiu e 1807 chegou ao fim — uma triste passagem de ano para a corte portuguesa.

Cajus e Pitangas

Depois de tanta carne seca e biscoito, imagine qual não foi a alegria de dom João e sua comitiva ao avistar, já bem perto da costa brasileira, um pequeno barco não identificado. Era o Três Corações, um bergantim enviado por Caetano Pinto de Miranda, então governador de Pernambuco, para dar as boas-vindas à Coroa portuguesa.

Dentro dele, um carregamento de frutas tropicais, como cajus e pitangas, e muitos recipientes com refresco. Aquele certamente foi um momento de glória — dom João e seus asseclas tirariam a barriga da miséria.

Àquela altura, o príncipe regente já havia determinado que o destino da frota seria Salvador, e não o Rio de Janeiro. Em 23 de janeiro de 1808, 55 longos dias depois de zarpar de Lisboa, a comitiva finalmente desembarcou na Bahia, para uma escala que duraria pouco mais de um mês.

Estavam todos cansados e debilitados. Mas o primeiro desafio tinha sido superado: o oceano Atlântico, agora, protegeria a corte da fúria de Napoleão.


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