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Alquimia: Ciência e mágica

Mística, intencionalmente confusa e com pretensões de fantasia: do caos medieval veio a química

Silvia Pacheco Haidar Publicado em 24/05/2019, às 15h00

Alquimia: a mãe da química moderna
Alquimia: a mãe da química moderna - Shutterstock

"Foi meu crime a alquimia traiçoeira”, geme uma alma no oitavo círculo do inferno, onde alquimistas são punidos com úlceras fétidas e enfermidades nauseantes. A cena está em A Divina Comédia, escrita pelo italiano Dante Alighieri no século 14. Mistura de doutrina filosófica com atividade laboratorial, a alquimia de modesta não tinha nada: seus praticantes queriam encontrar a pedra filosofal, objeto capaz de fornecer o elixir da vida eterna e transmutar metais como cobre em ouro puro.

Teve muita gente séria que correu atrás disso. É o caso de cientistas como Isaac Newton e Robert Boyle – a nomes como esses a química deve grande parte de sua existência. No entanto, não é de se espantar que uma técnica que prometia a vida eterna e, de quebra, muita riqueza tenha despertado o interesse de diversos vigaristas. Por isso, pipocavam charlatães no ramo. Foram esses falsificadores de moedas de ouro que contribuíram para a má fama que a profissão adquiriu. Aliás, é esse tipo de criminoso que vai parar no inferno do poeta Dante.

Mapa do Inferno de Dante, por Botticelli / Crédito: Reprodução

 

Em banho-maria

A alquimia atingiu seu ápice durante a época de Dante até o fim do Renascimento. Mas a técnica é muito, muito mais antiga: nasceu em Alexandria, cidade do Egito fundada em 332 a.C. por Alexandre, o Grande. Lá, a cultura helênica levada pelo rei da Macedônia encontrou a arte egípcia chamada kymiâ — a palavra significa preto, em referência ao solo das margens do Nilo. A kymiâ tinha um pé na feitiçaria porque, além da manipulação de metais, envolvia os processos químicos usados no embalsamamento dos mortos.

Todo o conhecimento da kymiâ era atribuído pelos egípcios a Thot, deus da sabedoria. Mas, quando os gregos se depararam com essa divindade, logo a identificaram com Hermes, o mensageiro e intérprete dos deuses. E foi assim que surgiu o termo hermético, que se refere às ciências ocultas, em especial à alquimia.

Os egípcios adotaram a teoria grega de que toda matéria é composta de quatro elementos básicos (terra, ar, água e fogo) em proporções diferentes e a aplicaram à metalurgia.

“Essa doutrina deixa implícita a possibilidade de transmutar os metais. Bastaria para isso mudar a proporção de cada elemento”, diz Robson Fernandes de Farias, professor de pós-graduação em Química da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e autor do livro História da Alquimia. Como algumas ligas de metal são douradas (por exemplo, a liga de cobre com zinco), ficava mais crível a possibilidade da transmutação.

Coisa rara na história da ciência, era grande a participação de mulheres na alquimia de Alexandria. Uma delas, que viveu no século 3 a.C., ficou conhecida como Maria, a Judia. Além de novos equipamentos de destilação, ela criou o hoje famoso banho-maria — método de aquecimento que ainda é usado em laboratórios de química, sem falar nas cozinhas. Os escritos dela foram conservados por Zózimo de Panópolis, que viveu seis séculos depois e, inspirado neles, desenvolveu catalisadores e procedimentos de filtração.

Apesar do avanço das técnicas utilizadas, a alquimia estava com os dias contados. Em 296, o imperador romano Diocleciano ordenou que todos os textos alquímicos fossem queimados. Ele temia que a produção de ouro fosse bem-sucedida e arruinasse a economia já agonizante do império.

Toth / Crédito: Reprodução

 

Em 330, Constantino transferiu a capital para Constantinopla (atual Istambul) e declarou o cristianismo a religião oficial. Começaram então os problemas para os seguidores de uma seita cristã, o nestorianismo. Eles viam em Jesus uma natureza divina e outra humana, em uma época em que aqueles que duvidassem da igualdade de Jesus com Deus passavam a ser considerados hereges. Alguns nestorianos eram alquimistas e, para fugir das perseguições, seguiram para a Pérsia (atual Irã). Lá, encontraram os seguidores do zoroastrismo, religião surgida no século 12 a.C., que ficaram impressionados com a alquimia e a desenvolveram ainda mais.

Só por Alá

Foram os árabes que colocaram o prefixo al, equivalente aos nossos artigos a e o, na palavra kymiâ, cunhando o termo alquimia. Mas essa está longe de ser a única contribuição dos muçulmanos. O Alcorão, livro sagrado do islamismo, pregava que os estudos científicos eram um dos caminhos para desvendar a vontade de Alá. Logo, a alquimia começou a atrair os melhores cérebros árabes. O maior deles deu uma ajuda e tanto à precária ciência da época.

Diferentemente dos colegas, Avicena (980-1037) duvidava da transmutação do ouro: preferiu focar suas pesquisas na medicina, defendendo que remédios minerais e químicos eram mais eficientes que os feitos à base de ervas. O sujeito fez uma lista de substâncias químicas, descrevendo as indicações e efeitos. Essa farmacopeia foi levada para a Europa durante as Cruzadas, a partir do século 12, e aceita como obra padrão até o fim da Idade Média.

Enquanto a alquimia pegava fogo no Oriente, na Europa as coisas eram diferentes. Os mouros já ocupavam a península Ibérica desde o século 8, mas, mais de 400 anos depois, o povo europeu ainda não conhecia a prática. Os intelectuais da Europa medieval, em sua maioria, ficavam dentro de mosteiros, sem contato com os invasores árabes. Foi só quando chegaram ao Oriente Médio, com as Cruzadas, que os europeus foram apresentados à alquimia.

Apesar do desenvolvimento tardio, o estereótipo de alquimista que povoa nossa imaginação é responsabilidade da Europa medieval: um homem barbudo e sujo de fumaça, plantado em frente ao forno e cercado por frascos e livros.

Nessa época, a alquimia confundia-se com o conceito cristão de salvação. “Se você imaginar uma pessoa que se aperfeiçoa, ela atinge a salvação. É mais ou menos o mesmo processo com os metais: quando eles se livram das impurezas, tornam-se ouro”, diz Arthur Greenberg, professor de Química da Universidade de New Hampshire, nos Estados Unidos, e autor do livro From Alchemy to Chemistry in Picture and Story, referindo-se ao pensamento da época.

Foi também na Idade Média que a simbologia alquímica fortaleceu-se. Para despistar os impostores e evitar perseguições políticas, os alquimistas criaram uma linguagem simbólica. Assim, apenas os iniciados na técnica seriam capazes de decifrar os livros. Estes, quando não eram repletos só de desenhos, explicavam nos textos os experimentos por meio de metáforas.

Símbolos elementares da alquimia / Crédito: Reprodução

 

Se um documento alquímico mostrasse, por exemplo, um leão verde mordendo o sol dentro de um castanheiro oco, queria dizer que houve uma reação entre o sulfato ferroso e o ouro dentro do forno. Outras figuras tarimbadas nas obras de alquimia são o ouroboros (serpente que morde o próprio rabo e simboliza a unidade da matéria), a salamandra (símbolo do fogo), o lobo (do antimônio) e o homem e a mulher (ou rei e rainha, representando a união do enxofre com o mercúrio).

Alquimistas religiosos

Embora a alquimia não fosse bem vista pela Igreja Católica, uma vez que entraram em contato com ela, vários religiosos viraram alquimistas. Um deles foi São Tomás de Aquino (1225-1274), italiano que chegou até a dizer que produziu um ouro puríssimo a partir de enxofre e cobre (história, claro, nunca comprovada).

Outro religioso, o monge Roger Bacon (1214-1294), foi exemplo de uma ambiguidade comum na alquimia: a mistura de ideias fantásticas com pensamento científico. Ele previu a existência de barcos a vapor, submarinos e até aviões, antecedendo algumas ideias de Leonardo da Vinci em 200 anos.

Mas Bacon também se envolveu com a alquimia a ponto de declarar que havia criado um homem mecânico, com a cabeça de latão. O monge disse que, certa noite, enquanto dormia, o boneco começou a falar com ele e, em seguida, se despedaçou no chão.

São Tomás de Aquino / Crédito: Wikimedia Commons

 

Um dos maiores nomes da alquimia foi o suíço Philippus Aureolus Theophrastus Bombast von Hohenheim (1493-1541), ou apenas Paracelso – maior do que Celso, em referência ao famoso médico romano do século 1. Como bem se vê, a modéstia não era seu forte. Polêmico e beberrão, ele falava que a alquimia deveria se preocupar em produzir remédios e esquecer a história da transmutação do ouro.

Paracelso defendia o uso de substâncias tóxicas, como o mercúrio e o arsênico, para a cura de praticamente todas as doenças e dizia que veneno se combatia com veneno. Mas o suíço também se aventurou no lado místico da alquimia. Certa vez, falou que havia encontrado a fórmula do elixir da longa vida e que viveria para sempre. Acabou morrendo por causa da queda que sofreu em uma taberna, bêbado.

Décadas depois da morte de Paracelso, o filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626) indicou o caminho derradeiro da alquimia. Bacon disse que, se algum dia uma ciência genuína emergisse da alquimia, ela seria baseada nas experiências laboratoriais dos alquimistas. “A ideia de Bacon é verdadeira. Os alquimistas produziram instrumentos, como frascos de vidro e de argila, e poderosos reagentes, como o ácido sulfúrico, o ácido clorídrico e o ácido nítrico”, afirma Greenberg.