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Amílcar Cabral, o teórico marxista que inspirou a obra de Paulo Freire

“Ambos acreditavam na ideia de que os processos revolucionários eram educativos”, afirma autor da biografia do pernambucano

Isabela Barreiros Publicado em 05/03/2020, às 15h58

O revolucionário guineense Amílcar Cabral
O revolucionário guineense Amílcar Cabral - Wikimedia Commons

“Amílcar defendia: ‘A luta de libertação é um fato cultural e um fator de cultura. ’ Paulo reforçava: ‘Há uma unidade indissolúvel entre a revolução e a educação, que é tão grande que, quando citamos a primeira, estamos a dizer a segunda, e quando falamos em educação revolucionária, logo é a revolução’”, explica o professor e pesquisador Sérgio Haddad, autor da biografia O educador: um perfil de Paulo Freire.

Amílcar Cabral nasceu na Guiné-Bissau, em 12 de setembro de 1924, mas, ao conseguir uma bolsa em Lisboa, mudou-se para Portugal para estudar agronomia. Formou-se engenheiro agrônomo, e, pouco tempo depois, desenvolveu um novo censo da área rural do país, o que o ajudou a conhecer de maneira mais profunda a vida dos moradores no campo.

Ainda na Europa, entrou em contato com as ideologias que estavam florescendo naquele território e em outros locais do mundo: o marxismo. A experiência no mundo rural também o ajudou a consolidar os ideais vistos de maneira — ainda — teórica no antigo continente.

“O mergulho na realidade do país, somado à formação teórica e ao seu envolvimento com lideranças e grupos africanos e europeus de orientação notadamente marxista, fez dele um dos mais importantes e reconhecidos líderes da história da libertação dos países africanos”, afirma Haddad.

Crédito: WIkimedia Commons

 

A vida acadêmica tornou o guineense ainda mais envolvido com as questões coloniais e sociais de seu povo. Foi a partir daí que decidiu se colocar totalmente na luta pela independência de seu país.

Em 1956, foi cofundador e passou a ser a princiapal liderança do Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAIGC). Tornou-se ainda um dos mais importantes líderes políticos e marxistas na revolução, que foi idealizada e pavimentada principalmente por ele.

A revolução protagonizada pela Guiné-Bissau e por Cabo Verde deu-se via luta armada. O processo ainda inspirou vários países vizinhos, que também passaram a lutar por sua independência. Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe são algumas das colônias que organizaram confrontos para conseguir autonomia entre os anos de 1973 e 1975.

No entanto, Amílcar não conseguiu ver seu objetivo ser concretizado em vida. Foi assassinado no dia 20 de janeiro de 1973, por dois membros do próprio partido que ajudou a fundar, o PAIGC. “Se alguém me há de fazer mal, é quem está aqui entre nós. Ninguém mais pode estragar o PAIGC, só nós próprios”, profetizou o revolucionário antes de morrer.

Em 24 de setembro de 1973, a independência de Guiné-Bissau foi proclamada, poucos meses depois da execução do teórico marxista. Seu irmão, Luís Cabral, foi nomeado o primeiro presidente do país.

O pensamento de Amílcar, porém, permanece importante principalmente no continente africano. Ao lado de Thomas Sankara e Patrice Lumumba, por exemplo, segue entre os mais importantes líderes políticos da região.

Paulo Freire / Crédito: WIkimedia Commons

 

Quando o país obteve sua autonomia, um intenso processo de alfabetização foi iniciado pelo novo governo. O educador pernambucano Paulo Freire foi convidado para auxiliar e organizar o processo — e o guineense chamou a atenção do pedagogo devido a suas reflexões acerca da revolução em harmonia com a educação.

De acordo com Haddad: “Paulo [Freire], mesmo sem tê-lo conhecido pessoalmente, era um admirador de sua obra e prática política. Ambos acreditavam na ideia de que os processos revolucionários eram educativos”.

Nomeado de “Pedagogo da Revolução” por Freire, o agrônomo acreditava que a educação era a principal arma da própria libertação. Somente por meio dela seria possível formar uma população com consciência política — que ultrapassaria somente a conquista formal de uma independência do colonialismo português.

Ela seria ainda uma estratégia para o desenvolvimento de uma sociedade livre de subjugação humana, provavelmente sob os moldes de Karl Marx, ao remover os obstáculos que promovem a ignorância e o preconceito.


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Desafios contemporâneos da África: o Legado de Amílcar Cabral, Carlos Lopes (2013) - https://amzn.to/2PO8D1k

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