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A saga do teórico marxista Amílcar Cabral

Natural de Guiné-Bissau, o pensador acreditava que "os processos revolucionários eram educativos", segundo biógrafo

Isabela Barreiros Publicado em 19/09/2021, às 09h00 - Atualizado às 15h23

Amílcar Cabral ao lado de Fidel Castro
Amílcar Cabral ao lado de Fidel Castro - Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Na biografia 'O educador: um perfil de Paulo Freire', o professor e pesquisador Sérgio Haddad faz questão de analisar as semelhanças entre os discursos de Amílcar Cabral, um teórico marxista, e o educador pernambucano PauloFreire.

Amílcar defendia: ‘A luta de libertação é um fato cultural e um fator de cultura’. Paulo reforçava: ‘Há uma unidade indissolúvel entre a revolução e a educação, que é tão grande que, quando citamos a primeira, estamos a dizer a segunda, e quando falamos em educação revolucionária, logo é a revolução’”, narra a obra.

Amílcar Cabral nasceu na Guiné-Bissau, em 12 de setembro de 1924, mas, ao conseguir uma bolsa em Lisboa, mudou-se para Portugal para estudar. Formou-se engenheiro agrônomo, e, pouco tempo depois, desenvolveu um novo censo da área rural do país, o que o ajudou a conhecer de maneira mais profunda a vida dos moradores no campo.

Ainda na Europa, entrou em contato com as ideologias que floresciam naquele território e em outros locais do mundo: o marxismo. A experiência no mundo rural também o ajudou a consolidar os ideais vistos de maneira — ainda — teórica no antigo continente.

“O mergulho na realidade do país, somado à formação teórica e ao seu envolvimento com lideranças e grupos africanos e europeus de orientação notadamente marxista, fez dele um dos mais importantes e reconhecidos líderes da história da libertação dos países africanos”, afirma Haddad.

Fotografia de Amílcar Cabral / Crédito: Domínio Público/ Creative Commons/ WIkimedia Commons

 

A vida acadêmica tornou o guineense ainda mais envolvido com as questões coloniais e sociais de seu povo. Foi a partir daí que decidiu se colocar totalmente na luta pela independência de seu país.

Em 1956, foi cofundador e passou a ser a princiapal liderança do Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAIGC). Tornou-se ainda um dos mais importantes líderes políticos e marxistas na revolução, que foi idealizada e pavimentada principalmente por ele.

A revolução protagonizada pela Guiné-Bissau e por Cabo Verde deu-se via luta armada. O processo ainda inspirou vários países vizinhos, que também passaram a lutar por sua independência. Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe são algumas das colônias que organizaram confrontos para conseguir autonomia entre os anos de 1973 e 1975.

No entanto, Amílcar não conseguiu ver seu objetivo ser concretizado em vida. Foi assassinado no dia 20 de janeiro de 1973, por dois membros do próprio partido que ajudou a fundar, o PAIGC. “Se alguém me há de fazer mal, é quem está aqui entre nós. Ninguém mais pode estragar o PAIGC, só nós próprios”, profetizou antes de morrer.

Em 24 de setembro de 1973, a independência de Guiné-Bissau foi proclamada, poucos meses depois da execução do teórico. Seu irmão, Luís Cabral, foi nomeado o primeiro presidente do país.

O pensamento de Amílcar, porém, permanece importante principalmente no continente africano. Ao lado de Thomas Sankara e Patrice Lumumba, por exemplo, segue entre os mais importantes líderes políticos da região.

O revolucionário guineense Amílcar Cabral / Crédito: Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

Quando o país obteve sua autonomia, um intenso processo de alfabetização foi iniciado pelo novo governo. O educador pernambucano Paulo Freire foi convidado para auxiliar e organizar o processo — e o guineense chamou a atenção do pedagogo devido a suas reflexões acerca da revolução em harmonia com a educação.

De acordo com Haddad: “Paulo [Freire], mesmo sem tê-lo conhecido pessoalmente, era um admirador de sua obra e prática política. Ambos acreditavam na ideia de que os processos revolucionários eram educativos”.

Nomeado de “Pedagogo da Revolução” por Freire, o agrônomo acreditava que a educação era a principal arma da própria libertação. Somente por meio dela seria possível formar uma população com consciência política — que ultrapassaria somente a conquista formal de uma independência do colonialismo português.


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