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Animais na Guerra: Parceiros, guerreiros ou vítimas?

Animais estão ao lado da humanidade há milênios. Já decidiram guerras, mas também estão entre suas maiores baixas

Fábio Marton Publicado em 11/08/2019, às 08h00

Cavalaria
Crédito: Reprodução

A Guerra do Peloponeso, entre as cidades-estado gregas, não impediu que os soldados de Corinto faltassem à celebração a Dionísio, o deus do vinho, em uma animada noite de verão do século 5 a.C. Enquanto a guarda dormia profundamente sob o efeito do álcool, o Exército de Atenas resolveu atacar de surpresa. Mas deparou-se com um imprevisto: 50 cães, bem sóbrios, caíram furiosamente sobre os invasores.

Os animais causaram várias baixas, porém foram sendo dizimados até sobrar apenas um deles, que conseguiu fugir para dentro dos muros da cidade. Em breve, ainda que de ressaca, toda a infantaria coríntia estava a postos e os atenienses foram derrotados. O sobrevivente tornou-se o primeiro cão heróico da História. Foi feita uma estátua dele, e ele ganhou uma coleira de prata, onde se lia: Sorter, defensor e salvador de Corinto.

Animais foram e são parte dos conflitos humanos. "Desde os primórdios, as pessoas usavam na guerra tudo o que estivesse à mão", afirma o coronel da reserva e historiador Luiz Alencar Araripe, coautor de História da Guerra. Assim como instrumentos de caça e agricultura deram origem às primeiras armas — porretes, lanças e flechas —, os animais domesticados foram logo recrutados para as batalhas, numa saga não menos trágica do que a dos próprios combatentes bípedes.

O precursor da fauna nas trincheiras foi o cachorro, afirma Michael G. Lemish em War Dogs: A History of Loyalty and Heroism (Cães de Guerra: Uma História de Lealdade e Heroísmoa), citando a ligação pré-histórica entre seres humanos e caninos.

Muitos povos usaram cães como armas. Em 101, tropas do Império Romano foram surpreendidas pelos teutônicos na batalha de Vercellae, que lançaram contra eles cães usando armaduras. Os romanos venceram e adotaram esses cachorros enormes, dos quais descendem hoje raças como fila, mastim napolitano e rottweiler.

Nas conquistas espanholas da América, cães foram atiçados para cima dos nativos. Mas o uso de armas de fogo já havia tornado esses animais de ataque obsoletos. Napoleão chegou a usá-los como guarda (e, reza a lenda, teria sido salvo pelo cachorro de um pescador ao cair no mar, em 1815, enquanto tentava fugir da ilha de Elba).

Na Primeira Guerra, eles serviram para puxar carga, carregar mensagens e buscar soldados feridos no front, mas sua função principal era apenas a de mascote. Foi só durante a Segunda Guerra que começaram a se formar grupos especializados em treinamento de cães, com o estabelecimento do K-9 Corps ("regimento canino") no Exército americano.

O heroísmo nem sempre era recompensado. Cachorros viraram cobaias para medicamentos desenvolvidos com urgência durante o conflito. A política então era trazer os animais de volta. No entanto, dos 5 mil cães que participaram da Guerra do Vietnã, menos de 200 retornaram a casa. Todos os demais foram abandonados ou mortos pelos próprios americanos tão logo se tornaram inúteis — se feridos em combate, por exemplo.

A União Soviética também cometia suas atrocidades. Na Segunda Guerra, o Exército Vermelho ensinou cães a procurar comida debaixo de tanques. Amarrava bombas aos bichos para explodirem sob os veículos alemães, mas o programa foi cancelado porque os animais não diferenciavam tanques alemães de soviéticos.

Mamíferos camicases

Bat Bomb / Crédito: Wikimedia Commons

Nessa mesma época, os Estados Unidos testavam sua arma secreta mais bizarra: a bat bomb. Um pequeno artefato incendiário era preso ao rabo de morcegos da espécie Tadarida brasiliensis. Por sua tendência a procurar abrigo durante o dia, nas áreas urbanas o animal costuma se esconder em casas e prédios. Os morcegos seriam lançados de aviões, dentro de cápsulas com 40 animais, cada uma, que abririam um paraquedas a 300 m de altura e então liberariam a carga viva.

Os artefatos incendiários tinham um timer para permitir que os animais se escondessem no forro da residência de um desavisado antes de explodir. Em 1944, o projeto foi abortado em detrimento da bomba atômica. A tecnologia nuclear salvou os morcegos, mas quase pôs a perder outro bicho. Em 1962, a Marinha americana iniciou sua pesquisa com mamíferos marinhos. Um dos treinadores do programa, Michael Greenwood, desertou em 1977, denunciando à imprensa um plano para colocar explosivos atômicos em orcas e fazê-las atacar navios e portos inimigos.

O americano revelou também que golfinhos estavam sendo treinados para atacar mergulhadores com um arpão que injeta gás carbônico na vítima. Em tese, isso a faria boiar até a superfície, mas, na prática, a arma era letal e tão escabrosa quanto parece.

As acusações de Greenwood nunca foram reconhecidas pelas Forças Armadas dos EUA. Oficialmente, golfinhos e leões-marinhos são empregados apenas na detecção — ao encontrarem uma mina ou mergulhador, ativam um sino no barco e recebem dispositivos localizadores para prender ao elemento detectado. No Iraque, em 2003, um grupo de 140 animais foi usado para identificar mais de 100 minas no porto de Umm Qasr. O governo americano não menciona nenhuma baixa entre esses mamíferos marinhos.

A doença como arma

A peste de Ashdod, Nicolas Poussin, 1631 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Autora de Animais nas Guerras: A Força do Exército dos Bichos nas Grandes Batalhas, Priscila Gorzoni afirma que, na pesquisa para seu livro, o que mais a impressionou foi a importância dos insetos nas batalhas: "Não como armas, mas o quanto eles mudaram a história". O principal matador é o pernilongo Anopheles, transmissor da malária.

A doença é apontada por alguns como a causa da queda do Império Romano, mas também impediu Roma de ser conquistada. Em 410, Alarico, o Visigodo, morreu de malária após saquear a cidade. Em 452, os hunos de Átila resolveram dar meia-volta por causa da epidemia. Em 536, o imperador bizantino Belisário evitou reconquistar a capital pelo mesmo motivo.

Outra doença, porém, foi usada deliberadamente como uma arma biológica: a peste bubônica, transmitida pela pulga. A praga começou na China, em 1334. Três anos depois, os mongóis atiraram corpos infectados sobre os muros da cidade genovesa de Caffa (na atual Ucrânia). Os genoveses fugiram em pânico para a Itália, iniciando a epidemia que dizimaria um terço da Europa. Séculos depois, em 1940, a força aérea do Japão imperial atacou a cidade chinesa de Ningbo com urnas de cerâmica repletas de pulgas contaminadas pela peste. O estrago provocado por armas biológicas japonesas na Segunda Guerra é estimado entre cerca de 400 e 580 mil vítimas.

Nem todos os bichos entram na guerra para matar. Os pombos-correio, capazes de voar até 1,8 mil km e voltar infalivelmente a seu pombal, já levavam mensagens no Egito antigo e foram decisivos até a Primeira Guerra, quando o rádio ainda era precário. Foi pombo que levou aos ingleses a notícia da derrota de Napoleão na Batalha de Waterloo, em 1815.

Os reis da guerra

Batalha de Gaugamela / Crédito: Wikimedia Commons

 

São os cavalos as maiores vítimas e algozes das guerras. Embora não se saiba ao certo quando foram domesticados, acredita-se que, perto de 2000 a.C., já puxassem carroças e arados em regiões da Rússia e do Cazaquistão. Isso levou à sua primeira função: charretes de guerra, como as bigas, que usavam principalmente arqueiros para atacar, com lanças para combate próximo.

As bigas tornaram-se obsoletas quando raças fortes o suficiente para carregar sozinhas um cavaleiro foram desenvolvidas. Em 331 a.C., as tropas de Alexandre, o Grande, enfrentaram bigas persas na batalha de Gaugamela. Elas tinham lâminas presas às rodas e causavam muito medo na infantaria, mas eram difíceis de manobrar e foram derrotadas pela agilidade dos cavaleiros e soldados do general macedônio.

A cavalaria teve sua idade de ouro após a adoção do estribo pelos europeus no século 9. As invasões mongóis, no século 11, tinham a cavalaria armada com flechas como seu principal trunfo. Muito antes, no século 5, os hunos usufruíram do mesmo recurso. No entanto, já no século 15, tropas organizadas com piques, grandes lanças de até 7 m de comprimento, tornaram as cargas heroicas de cavalaria inúteis. O equinos retornaram às funções auxiliares de reconhecimento, flanco e perseguição.

Durante a Primeira Guerra, tanques deram o golpe final à cavalaria, mas havia um precedente: o elefante. A partir do século 16, o animal inclusive levava pequenos canhões. É muito difícil matar um elefante e, além disso, ele luta sozinho: ao encontrar uma tropa adiante, o animal costuma atacar com sua imensa força. Foram empregados na Europa e Ásia ostensivamente.

Em 218 a.C., o general catarginês Aníbal Barca atravessou os Alpes com 37 elefantes, que trucidaram os romanos. No entanto, mesmo na Antiguidade, já se conhecia o ponto fraco do animal: seu instinto. Para Gorzoni, os elefantes só funcionavam mesmo contra povos que não os tinham visto antes, como os romanos dos primeiros combates.

Ao serem atingidos, é comum que eles se desesperem e fujam, atropelando tudo pelo caminho — como eram postos na linha de frente, isso significava esmagar quase todo o exército. Por isso, era comum aos condutores levarem consigo uma estaca e um martelo. Caso seu animal saísse do controle, ele mesmo se encarregava de matá-lo com um golpe na medula espinhal.

Apoio tático

Mesmo depois de a cavalaria perder sua importância, os cavalos continuaram a servir como animais de carga em combate, dividindo essa função com mulas, bois e camelos (e mesmo com elefantes).

Segundo Alencar Araripe, na Segunda Guerra, quando os brasileiros derrotaram a 148ª Divisão da Wehrmacht na Itália, em 1945, foram capturados 6 mil soldados, mil carros e, para a surpresa dos pracinhas, 4 mil cavalos. A Alemanha não tinha muito combustível, por isso (especialmente no fim do conflito) usava a tração animal para a artilharia. No total, 2,75 milhões de cavalos serviram ao Exército nazista.

Em 2001, no Afeganistão, os cavalos mais uma vez mostraram estar longe da aposentadoria. Com animais emprestados pela Aliança do Norte, soldados americanos apontaram a posição de combatentes do Talibã para facilitar a atuação de seus caças e bombardeiros. Quando os talibãs começaram a fugir, foram perseguidos pelos americanos e afegãos em seus cavalos, no que foi chamada pela imprensa como a primeira carga de cavalaria do século 21.

A mobilização da sociedade em defesa dos animais é cada vez maior. Em 2004, um memorial foi inaugurado em Londres para homenagear todos os bichos que lutaram pela Inglaterra e pelos aliados. Entre os ativistas, a esperança está na tecnologia. "A guerra é sempre ruim, mas abusar de animais é ainda muito pior", diz Priscila Gorzoni. "Talvez as máquinas possam substituí-los, e assim uma parte da loucura acabe".

Morcego brasileiro

Crédito: Wikimedia Commons

Como o nome indica, o morcego camicase Tadarida brasiliensis é encontrado no Brasil, mas também em toda a América, chegando ao Texas, de onde seriam recrutados. É uma espécie insetívora e muito abundante, que tem a cauda solta, não incorporada à asa, como em outras espécies — por isso a infame ideia de amarrar bombas em seu rabo.

Sargento Stubby

Crédito: Wikimedia Commons

Em 1918, um mestiço de buldogue foi contrabandeado como mascote para a 102ª infantaria americana. Após ser atingido por gás venenoso e granadas, aprendeu a identificar o som da artilharia e o cheiro do gás antes dos soldados, salvando muitas vidas. Stubby foi promovido a sargento pelo oficial do grupo, mas mais tarde a decisão foi revertida por superiores.

Veneno útil

A peçonha de animais já foi usada inúmeras vezes como arma. Da secreção da pele de sapos coletada por índios e aplicada na ponta de flechas e zarabatanas às cobras estrategicamente amontoadas por vietcongues em armadilhas para soldados americanos, na Guerra do Vietnã.

Cher Ami

Crédito: Wikimedia Commons

Em 2 de outubro de 1918, um batalhão do Exército americano se perdeu e foi cercado pelos alemães. Um pombo francês chamado Cher Ami foi solto com um pedido de socorro. Cruzando as linhas alemãs, apesar de ter levado um tiro no peito, perdido um olho e com uma perna ferida, levou sua mensagem. Os alemães foram repelidos, e os 194 sobreviventes, resgatados.

Babieca

Crédito: Wikimedia Commons

 

Babieca, o garanhão branco de Rodrigo Dias Vivar, El Cid, está tão cercado de lendas quanto o próprio cavaleiro do século 11. A mais famosa delas é sobre sua última batalha. Morto no dia anterior, o corpo de El Cid foi amarrado sobre Babieca, e o cavalo o levou à frente das tropas, assustando os inimigos e inspirando os soldados. Assim, o garanhão foi o único animal conhecido a cumprir as funções de general.

Suleiman

Nascido no Sri Lanka em 1540, Suleiman (ou Salomão) foi dado de presente ao rei português João III. Nascido entre elefantes de guerra, serviu à paz: como medida diplomática, o monarca repassou o presente ao príncipe austríaco Maximiliano II. A história é contada por José Saramago em Viagem do Elefante.


Saiba Mais

Animais nas Guerras: A Força do Exército dos Bichos nas Grandes Batalhas, Priscila Gorzoni, ed. Matrix, 2010.

Animals in War, Jilly Cooper, Corgi Books, 2000.