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"Anjo Negro": os mistérios de Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Vargas

Conterrâneo de Getúlio, foi acusado de corrupção, favoritismo e participação no atentado contra Lacerda que matou o major Rubens Vaz

André Nogueira Publicado em 12/05/2020, às 09h46

Fortunato em depoimento em 1954
Fortunato em depoimento em 1954 - Arquivo do Estado de São Paulo

Conterrâneo de Getúlio Vargas e João Goulart, Gregório Fortunato foi uma das peças centrais da crise que se instaurou no Rio de Janeiro em 1954, momento permeado de tentativas de golpe, oposição ferrenha e pressões da República do Galeão – como ficou conhecida a Base Aérea Militar que investigou, com poderes excessivos, o atentado contra Rubens Vaz – que culminaram no suicídio do presidente. O gaúcho, conhecido como Anjo Negro, era chefe da segurança pessoal de Getúlio.

Nascido em 1900, na cidade fronteiriça de São Borja (o que, certamente, atraiu os olhares de Vargas), Gregório era filho de um casal de escravos alforriados, Damião e Ana de Bairro. Originalmente pobre, ele trabalhava como vaqueiro e peão nos campos de estâncias locais, na região marcada pela produção extensiva de gado.

Fortunato começou a se aproximar dos Vargas em 1932, quando, integrando o Corpo Auxiliar de São Borja (força militar de segurança), partiu em batalha contra os revoltosos da revolta iniciada em São Paulo. Combatendo núcleos integralistas sob comando de Benjamin Vargas, irmão de Getúlio, sua tropa foi vitoriosa.

Gregório era confidente de Vargas / Crédito: Divulgação

 

Então, Benjamin criou uma unidade de proteção ao então presidente, ao recrutar vinte homens para formarem sua guarda pessoal. Aquelas pessoas eram de estrita confiança de Getúlio, e Gregório, por conta de uma maior aproximação, em que criou um laço de fidelidade importante com o trabalhista, chegou ao cargo de chefe da guarda enquanto Vargas estava no poder.

Com o retorno de Vargas ao governo em 1950, por voto popular, a guarda foi reestabelecido, com Fortunato como chefe. Aproveitando a transição do poder, a UDN, comandada por Carlos Lacerda e representando interesses do empresariado e de setores antivarguistas das Forças Armadas, iniciou uma campanha de difamação contra Gregório.

A Tribuna da Imprensa, jornal do udenista, associava o chefe da guarda ao clientelismo e o colocou como símbolo de corrupção, criando boatos de que ele subia internamente no Governo Federal em cargos imaginários.

Atentado da Rua Toneleros / Crédito: Wikimedia Commons

 

Gregório voltou aos holofotes após o Atentado da Rua Tonelero, em agosto de 1954, quando um homem armado tentou assassinar Lacerda, o dando um tiro no pé e matando, acidentalmente, o major Rubens Vaz, da Aeronáutica. O ataque ao líder da oposição foi atribuído ao chefe da guarda, e Lacerda transformou o caso num escândalo midiático - levando um tiro, ele passou a andar de muletas com um gesso que passava a altura do joelho.

Como o assassinado era militar, as investigações do crime passaram a ser responsabilidade da Base Aérea da Ilha do Governador, que, como os militares iniciaram a integrar a linha de frente da oposição, passou a abusar dos poderes de pressionamento contra a presidência, divulgando notas precipitadas e realizando conduções abusivas.

O período ficou conhecido como República do Galeão. Foi realizada uma operação de busca e apreensão na casa de Fortunato, o que revelou documentos suspeitos que foram induzidos como provas de corrupção.

Sem conhecimento de Getúlio, Gregório teria comprado duas propriedades de Manuel Sarmanho Vargas, filho do presidente, num valor de 4 milhões de cruzeiros, o que abalou o Chefe de Estado de maneira profunda. Ficou claro nas investigações que o núcleo interno do governo estava envolvido com atos suspeitos, mas nada ligava Getúlio aos crimes.  Mesmo assim, isso foi usado pela UDN para acusar o presidente de corrupção.

A Base Aérea do Galeão ainda ordenou a prisão de familiares de Getúlio e uma investigação profunda, que gerou uma gigantesca crise política e uma tentativa de golpe contra o presidente (rebatida com um suicídio que mobilizou milhões em favor da memória do trabalhismo). As investigações continuaram até 1956, quando Gregório foi condenado a 25 anos de prisão pelo comando do atentado.

Fortunato foi levado à prisão Frei Caneca, no Rio de Janeiro, onde passou o resto da vida. Os presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart, em seus respectivos mandatos, reduziram a pena de Gregório. Porém, o antigo aliado de Vargas passou apenas seis anos naquele local: em outubro de 1962, ele foi assassinado no interior da cela.

Crédito: Wikimedia Commons

 

Segundo análises historiográficas, o mais provável é que o atentado contra a vida de Gregório Fortunato pelo também detento Feliciano Emiliano Damas foi uma queima de arquivo, por conta das informações privilegiadas que o antigo chefe da guarda do presidente tinha.

Gregório passou o tempo na cadeia escrevendo um caderno de notas com possíveis dados relevantes sobre o governo de Vargas e o atentado de 1954, mas logo após sua morte, o material simplesmente sumiu.


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