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Ann Mitchell, a extraordinária mulher que ajudou a decodificar as mensagens dos nazistas

Ao longo de dois anos, a matemática que estudou na Universidade de Oxford num período em que poucas mulheres cursavam o ensino superior, atuou desenvolvendo fórmulas

Giovanna Gomes Publicado em 28/01/2021, às 12h01

Ann Mitchell na Universidade de Oxford em 1943
Ann Mitchell na Universidade de Oxford em 1943 - Divulgação

O britânico Alan Turingfoi um grande gênio da computação que, durante o período da Segunda Guerra Mundial, criou uma máquina que decodificava mensagens com coordenadas de ataques enviadas pelos alemães, assim monitorando cada passo dos inimigos.

Contudo, ele não revolucionou o mundo sozinho. Havia uma equipe com ele, incluindo mulheres. Uma delas era a também britânica Ann Mitchell, que desempenhou um importantíssimo papel na época, elaborando fórmulas para que as máquinas pudessem decodificar mensagens. 

Mitchell morreu recentemente em Edimburgo, na Escócia, no dia 11 de maio de 2020, de covid-19. Ela tinha 97 anos e, conforme declarou um de seus filhos, teve complicações por já estar com a saúde frágil antes da contaminação.

Ann Mitchell, no ano de 2014 / Crédito: Divulgação / Jane Barlow

 

Mulher determinada

Desde o início de sua carreira, Mitchell teve de enfrentar o machismo, que era muito forte à sua época. Era início do século 20 e poucas mulheres tinham oportunidade de estudar na universidade. Contudo, aquela jovem nascida na cidade de Oxford em 19 de novembro de 1922 sabia o que queria e não se importou com opiniões alheias. 

Até mesmo a diretora da escola primária onde Ann estudava tentou desqualificar sua escolha, dizendo-lhe que matemática não era uma ciência para mulheres.

Entretanto, seus pais a apoiaram e, quando foi aceita na Universidade de Oxford para cursar o que tanto sonhava, em 1940, entrou para a História como uma das apenas 5 mulheres de toda a instituição.

Mansão Bletchley Park, na Inglaterra / Crédito: Wikimedia Commons

 

Novos passos

Ann Mitchell  concluiu a graduação no ano de 1943 e no mesmo ano passou a trabalhar na mansão Bletchley Park, onde era realizada a decodificação das mensagens de guerra dos alemães. Lá, atuavam em torno de 10 mil pessoas, sendo três quartos desse número composto por mulheres.

Enquanto grande parte delas desempenhava funções mais fabris, Mitchell lidava diretamente com a decodificação, buscando fórmulas matemáticas para que as máquinas entendessem as mensagens.

Ela passou quase 2 anos trabalhando com a equipe em segredo. Mesmo passando 9 horas por dia, durante 6 dias por semana na mansão, sua família nunca soube de sua atuação durante a guerra. Mais tarde, o marido de Mitchell, com quem ela se casou em 1948, também ficou durante anos totalmente alheio do trabalho desenvolvido por ela.

Ann Mitchell com seu marido Angus / Crédito: Divulgação / Arquivo Pessoal

 

O futuro

Após a guerra, Ann passou a realizar pesquisas importantes sobre os impactos do divórcio na vida dos filhos de um casal, tanto que seus estudos ajudaram alterar a legislação escocesa em relação ao tema.

Além disso, Mitchell estudou Políticas Sociais e fez mestrado em Filosofia na Universidade de Edimburgo, onde passou a atuar como pesquisadora no início da década de 1980.

Somente na década de 1970 que seus feitos vieram à tona, época em que as atividades ocorridas em Bletchley Park se tornaram de conhecimento geral.

No ano de 2015, sete décadas após a realização de seu trabalho, seus feitos foram contados no livro The Bletchley Girls, da historiadora Tessa Dunlop.