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Antes de ‘Bonequinha de Luxo’: Como Audrey Hepburn ajudou a resistência holandesa na 2ª Guerra

Depois que a Alemanha nazista invadiu seu pais, Hepburn encontrou um jeito de ajudar seu povo e ainda expressar sua arte, mesmo tendo pouco mais de 10 anos

Fabio Previdelli Publicado em 25/05/2021, às 15h52

A atriz Audrey Hepburn
A atriz Audrey Hepburn - Paramount-photo/Wikimedia Commons

Pouco depois da Holanda ser dominada pela Alemanha nazista, durante a Segunda Guerra, a Câmara de Cultura Holandesa foi fundada em 1941. Segundo explica o portal holandês Jaar van Verzet, que reúne um material histórico sobre o período, todos os artistas, de fotógrafo a músicos, tiveram que fazer uma inscrição caso quisessem continuar exercendo suas profissões.  

Obviamente, judeus não poderiam se tornaram membros. Com a recusa de muitos artistas, eles perderam seus rendimentos e tiveram que encontrar outra maneira para angariar recursos. Neste momento é formado a Resistência dos Artistas, uma forma alternativa deles continuarem a trabalhar.  

Assim, secretamente, apresentações clandestinas eram organizadas nas casas das pessoas em suas salas de estar dentro de um círculo fechado de ouvintes. Essas apresentações domésticas ficaram conhecidas como “zwarte avonden”, ou “noites negras” — o nome se dá porque os anfitriões eram forçados a ‘escurecer’ suas janelas para não serem descobertos pelo inimigo. Os eventos se espalharam pela Holanda entre o final de 1942 e o início de 1943, e continuaram até o final da Guerra.  

Câmara de Cultura Holandesa/ Crédito: NIOD Institute for War, Holocaust and Genocide Studies

 

Com isso, músicos, atores, poetas e muitos outros viajaram pela Holanda para realizar palestras e apresentações. A rede de resistência de artistas performáticos era um meio deles receberem um “salário” por seu trabalho.

Entre os artistas que participaram do ciclo, destaca-se Audrey Hepburn, que tinha pouco mais de 10 anos. Mais tarde, ela se tornaria uma lenda em Hollywood, ficando marcada para sempre por seu papel em “Bonequinha de Luxo” (1961). 

Família pro-fascismo 

Audrey Hepburn nasceu na Bélgica em 1929, em uma família de classe alta. Segundo explica matéria da revista Time, seu pai trabalhava com finanças, e sua mãe, a baronesa Ella van Heemstra, era uma nobre holandesa. Os dois se separaram pouco depois, em 1935, quando sua família se mudou para Londres. 

Durante alguns anos, Hepburn passou a estudar em uma escola particular em Dover, na Inglaterra, o que lhe ajudou a desenvolver bem seu inglês. Quando a Guerra estourou, sua mãe achou que a melhor saída era voltar para a Holanda e assim fez em dezembro de 1939, quando a jovem ainda tinha 10 anos.  

Apesar do título de baronesa, o New York Post relembra que Ella não possuía tanta riqueza assim, afinal, a casa de sua família, onde passaram a morar com o avô de Audrey, ela alugada. “Minha mãe não tinha um centavo”, disse Hepburn certa vez em uma entrevista, como lembra o Time. “Meus pais se divorciaram quando eu tinha 10 anos, meu pai desapareceu e tudo mais. Mas não tínhamos dinheiro algum”. 

Para conseguir se sustentar, sua mãe conseguiu um emprego como vendedora de móveis, o que permitiu que ela e Hepburn se mudassem para um modesto apartamento em Arhnhem, que fica ao leste da Holanda.  

Segundo Robert Matzen, autor de “Dutch Girl: Audrey Hepburn e a Segunda Guerra Mundial”, Van Heemstra, inicialmente, apoiava os nazistas, tanto que, certa vez, escreveu em um boletim nacional-socialista: “Bem, Adolf Hitler pode se orgulhar do renascimento deste grande país e do rejuvenescimento do espírito alemão”. 

A baronesa Ella Van Heemstra ao lado de sua filha Audrey Hepburn/ Crédito: Acervo de Robert Matzen

 

Porém, as coisas começaram a mudar quando, em maio de 1940, as tropas nazistas invadiram a Holanda e ocuparam rapidamente diversas cidades e vilas.  

“Nos primeiros meses, não sabíamos exatamente o que tinha acontecido... Acabei indo normalmente para a escola”, disse Hepburn segundo o New York Post. “Nas escolas, as crianças aprenderam suas lições de aritmética com problemas como este: 'Se 1.000 bombardeiros ingleses atacarem Berlim e 900 forem abatidos, quantos voltarão para a Inglaterra?'”. 

A dança e o assassinato de seu tio 

Para fugir de toda a confusão que ocorria ao seu redor, Audrey achou uma saída: a dança. Após ter sido apresentada ao balé na Inglaterra, acabou decidindo que queria se tornar uma bailarina profissional e, em 1940, se matriculou em uma escola especializada com um famoso professor de dança. Foi amor à primeira vista.  

Porém, o choque de realidade se quebrou com força em 1942, quando seu tio Otto van Limburg Stirum foi perseguido e preso. Ele e outros quatro foram levados para uma floresta, amarrados a uma estaca e baleados, relata o New York Post. 

Assim, ela e sua mãe se mudaram para a pequena vila de Velp. Com a tragédia, Ella se arrependeu fortemente de ter apoiado o nazismo e buscou de toda maneira dar suporte e ajudar à resistência. No verão de 1944, Hepburn começou a trabalhar como voluntária para o Dr. Hendrik Visser 't Hooft.  

Líder anti-alemão, o médico ajudou a Audrey a formar seus laços com a resistência. Além disso, como explica a Time, o hospital onde ele trabalhava era o centro da resistência na área, com médicos ajudando a falsificar documentos de identidade para ajudar os escondidos. 

Cartaz com apresentações teatrais alemãs na Holanda em outubro de 1943/ Crédito: NIOD Institute for War, Holocaust and Genocide Studies

 

Assim, Hepburn encontrou na dança uma maneira de contribuir, se apresentando em eventos noturnos ilegais, apenas para convidados, destinados a arrecadar dinheiro para a resistência e sua própria sobrevivência.

“Guardas foram postados do lado de fora para nos avisar quando os alemães se aproximavam”, declarou Audrey mais tarde sobre suas participações nas ‘Noites Negras’, como aponta matéria do New York Post. “O melhor público que já tive não fez um único som no final da minha performance”. 

De bailarina à mensageira 

Além de suas apresentações, Matzen também recorda que a bailarina chegou a entregar um jornal da resistência e suprimentos para um posto que cuidava de aviadores aliados que haviam sido abatidos na Holanda. 

“Enfiei-os nas minhas meias de lã nos sapatos de madeira, subi na bicicleta e entreguei-os”, recorda o Time de uma fala de Audrey. Pelo fato dela falar inglês e de ainda ser muito jovem, poucos desconfiariam dela.  

Além disso, segundo Robert relata em seu livro, o filho de Hepburn, Luca Dotti, relembra que sua mãe sempre lhe contava de quando sua família chegou a abrigar um piloto inglês que fora abatido. 

“Minha mãe me disse que era emocionante para ela  era arriscado, ele era um estranho de uniforme, um salvador e, portanto, um cavaleiro e herói”, recorda Dotti no livro. “Então eu aprendi sobre a lei alemã que se você fosse pego escondendo um inimigo, toda a família seria levada embora”. 

Retrato de Audrey Hepburn em seus tempos de bailarina/ Crédito: Acervo de Robert Matzen

 

Por sorte, isso nunca chegou a acontecer. Luca, entretanto, não sabe dizer quanto tempo o combatente ficou lá e o que aconteceu com ele. Ao certo, diz que o piloto nunca foi descoberto pelos alemães.  

Além de todo o abalo psicológico, o Time lembra que a guerra ainda causou diversos danos em sua família, que teve de lutar contra a falta de energia, de alimentos e até mesmo de calor durante o inverno rigoroso entre 1944 e 1945.  

O New York Post relata que Audrey ficava três dias sem comer, e durante meses o café da manhã foi água quente e uma fatia de pão feito de feijão com caldo e uma batata para o almoço.

A essa altura, ela, como a maioria dos jovens holandeses, já estava sofrendo de sintomas de desnutrição, mas ainda assim dançava. “Eu fui capaz de me apresentar e foi de alguma forma que pude dar algum tipo de contribuição”, cita em trecho resgatado pelo Time.  

“De fato, participei de vários concertos para arrecadar dinheiro para o movimento de resistência holandesa. Eu dançava em recitais ou em danças sozinhas. Eu tinha um amigo que tocava piano e minha mãe fazia as fantasias. Foram tentativas muito amadoras, mas mesmo assim, naquela época, quando havia muito pouca animação, divertia as pessoas e lhes dava a oportunidade de se reunir e passar uma tarde agradável ouvindo música e vendo minhas humildes tentativas. Os recitais eram realizados em casas com janelas e portas fechadas e ninguém sabia que estavam acontecendo. Posteriormente, o dinheiro foi coletado e entregue à Resistência”, recorda.  

Na primavera de 1945, sua cidade finalmente foi libertada pelas tropas aliadas. Após a Guerra, Audrey Hepburn continuou a dançar e encontrou outras maneiras de ganhar dinheiro, incluindo a modelagem. Em 1953, ela chegou ao estrelato depois de seu papel em “Férias em Roma”. Anos depois, ficaria imortalizada em Hollywood por seu papel em “Bonequinha de Luxo”.


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