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Antes de tomar meio mundo à força, Hitler conquistou a confiança de militares, industriais e do povo

Quem apoiou Hitler? Quem aceitou o Terceiro Reich? Quem tolerou as políticas do novo governante da Alemanha?

Celso Miranda — ED. 21, maio de 2005 Publicado em 21/11/2021, às 12h00

Hitler induziu diversas pessoas a seguirem sua linha de raciocínio
Hitler induziu diversas pessoas a seguirem sua linha de raciocínio - Getty Images

Algumas pessoas, entre 1923 e 1945, amaram Adolf Hitler, o homem que liderou a Alemanha numa guerra contra o mundo, que desejou eliminar os judeus da face da Terra, que julgava que os mais fracos não eram dignos de respirar o mesmo ar que ele, que não hesitou em exterminar concorrentes e até antigos amigos que considerava não serem mais úteis. Hoje, Hitler não parece digno de amor. Mas ele o teve.

Nesta reportagem não trataremos de discutir se ele mereceu esse sentimento, se as pessoas que o amavam sabiam das dimensões destrutivas de seu caráter, ou se podiam prever o mal que suas políticas desencadeariam.

Trataremos, antes disso, de discutir que, para fazer o que fez, para chegar ao poder e para exercê-lo, Hitler precisou ser amado, respeitado e admirado. E essa talvez seja a face mais perturbadora de sua biografia. Tanto é assim que hoje, 60 anos após o suicídio de Hitler, esse tem sido o enfoque cada vez mais utilizado por pesquisadores, em trabalhos sobre o nazismo.

É o caso de 'A Queda' (Der Untergang), biografia escrita pelo historiador alemão Joachim Fest, em 2002, que agora chega em versão cinematográfica ao Brasil. Não é preciso quebrar muito a cabeça para entender por que o filme que retrata os últimos dias de Hitler causou tanta polêmica no seu país de origem.

Fotografia de Adolf Hitler / Crédito: Getty Images

 

O homem que surge na tela não chega nem perto do monstro assassino que povoa a imaginação das pessoas. É um sujeito doente, frágil e envelhecido, que adora chocolates. Os delírios de grandeza e acessos de fúria aparecem de vez em quando, mas ele também é capaz de gestos de delicadeza e ternura com sua secretária, Traudl Junge (cujas memórias também serviram aos roteiristas do filme), com a namorada Eva Braun, a quem toma como esposa pouco antes de morrer, e com sua cadela, Blondi.

“Demasiado humano”, reclamou o popular jornal alemão Bild. O Die Zeit, um semanário mais classudo, tranquilizou: “O filme não pode ser acusado de promover qualquer fascinação mórbida ou colocar o nazismo em molduras de um épico”.

Num artigo no Der Tagesspiegel, o historiador alemão Wilfried Nippel, da Universidade Humboldt, em Berlim, escreveu que “a Alemanha que seguia e venerava Hitler, as milhares de pessoas que aplaudiam seus discursos antissemitas em praça pública, desapareceram do texto de Fest”. O americano The New York Times também criticou: “Ele almoça. Senta-se. Treme. Mas e daí? Todos somos humanos, mas a maioria de nós não ajuda a catalisar o assassinato de 50 milhões de pessoas”.

Brigas à parte, o fato é que 'A Queda' toca num ponto que permanece polêmico entre os historiadores: Hitler foi um homem comum, banal até, que de uma infância pobre conquistou a admiração da imensa maioria do povo alemão e chegou ao poder.

Estátua de cera de Hitler no Madame Tussauds, em Berlim, Alemanha / Crédito: Getty Images

 

Mas para que a história de como isso foi possível seja contada é preciso voltar no tempo para além dos anos que nos separam de sua morte num esconderijo em Berlim. Nenhuma grande glória ou tragédia parecia estar à espera do pequeno Adolf, nascido em 1889, na cidadezinha austríaca de Braunau, perto da fronteira com a Alemanha.

Desde cedo, o menino era mimado pela mãe, Klara, e surrado pelo pai, Alois, funcionário da alfândega. Os colegas de escola lembravam-se de um moleque teimoso, preguiçoso e não muito brilhante. Ao chegar à adolescência, Adolf dizia saber exatamente o que queria da vida: tornar-se pintor.

Tentou matricular-se duas vezes na Academia de Artes de Viena e não foi aceito. A essa altura órfão de pai e mãe, vivia em pequenos albergues da capital da Áustria. Segundo o historiador britânico Ian Kershaw, da Universidade de Sheffield, foi para escapar do serviço militar que Hitler se mudou para Munique, no sul da Alemanha, em 1913.

A ironia é que apenas um ano depois, alemães e austríacos entraram lado a lado na Primeira Guerra Mundial, e ele se alistou no Exército alemão. “Tudo indica que Hitler tinha se tornado um adepto do pangermanismo, comum na época dos dois lados da fronteira”, diz Kershaw.

A ideia era que os povos de língua e cultura alemã deveriam se unir e, com a guerra, assumir o papel de principal potência europeia. “A guerra mudou o destino de Hitler”, afirma o historiador americano John Lukacs, autor de 'O Hitler da História'.

Hitler discursa na celebração May Day, no estádio Olímpico / Crédito: Getty Images

 

Ele serviu na França e na Bélgica como mensageiro, posição perigosa que exigia que ele enfrentasse fogo inimigo mesmo quando seus companheiros permaneciam protegidos numa trincheira. Sua folha de serviço foi exemplar, mas nunca foi promovido além de cabo. Citado duas vezes por coragem em ação, recebeu a Cruz de Ferro de primeira classe, uma distinção raramente concedida a não oficiais.

Segundo Lukacs, nas horas vagas, ele pintava e escrevia poesia. “Era um solitário, um sonhador, um idealista. A rendição da Alemanha, em 1918, foi um duro golpe nesses sonhos.” Em sua auto-biografia, Hitler reconheceu a importância que a derrota na guerra teve para seu futuro. “Foi então que eu decidi entrar na política”, escreveu em 'Mein Kampf' (Minha Luta), publicado em 1925.

A decisão, no entanto, foi bem mais casual do que o relato faz pensar. “Foi a política que encontrou Hitler, e não o contrário”, afirma Kershaw. Sem profissão, nem perspectivas, ele aceitou uma missão dada pelos seus superiores no Exército: doutrinar os colegas, e, entre os militares, Hitler difundiu a ideia de que o fracasso da Alemanha na guerra deveu-se a judeus e comunistas que haviam traído os interesses patrióticos.

Não temos a medida de quanto daquilo era sua própria interpretação da ideologia pangermânica e quanto era influência de outros companheiros de trincheiras. O certo é que, em 1919, nas primeiras reuniões do grupo que se transformaria no Partido Nazista, era comum ele tomar a palavra e encantar seus ouvintes: “Eu sabia falar”, escreveu em 'Mein Kampf'. E o que ele dizia era que duas sombras pairavam sobre a Alemanha.

Berlim durantes as Olimpíadas em 1936 / Crédito: Fortepan/Lőrincze Judit via Wikimedia Commons

 

Os judeus, que tinham tanto lucrado com a guerra quanto manipulado a rendição do país em benefício próprio, e os bolcheviques, que se organizavam no caos econômico e pregavam a submissão do país a uma ideologia alienígena. Só quando fossem dominados esses inimigos internos a Alemanha estaria pronta para se erguer.

Nos conturbados anos 1920, as palavras de Hitler soavam como uma sonata para violinos de Brahms. “Derrotada e humilhada pelo Tratado de Versalhes, a Alemanha ansiava por retomar seu orgulho. Hitler prometia uma Alemanha grande e forte outra vez”, escreve Ian Kershaw em 'Hitler — Um Perfil do Poder'.

Mas os nazistas ainda não estavam com essa bola toda em 1923, e depois de uma pífia tentativa de tomar o poder à força, Hitler acabou em cana. Considerado pouco mais que um baderneiro, ele ficou alguns meses na prisão, onde aproveitou o tempo para dar os últimos retoques no já citado 'Mein Kampf'. Em 1924, ele e sua turma estavam de volta.

Em maio, na primeira vez que disputou uma eleição, o Partido Nazista obteve apenas 32 cadeiras para o Reichstag, o Parlamento alemão, que era dominado por 102 membros do Partido Social-Democrata e 95 do Partido Nacionalista. Até os comunistas tinham mais espaço: 37. No entanto, conforme crescia a crise econômica a situação se inverteu.

Parte da elite alemã, que sempre apoiou os sociais-democratas, viu em Hitler uma opção para deter as greves, passeatas e agitações populares”, diz Lukacs.
Adolf Hitler com membros do partido nazista / Crédito: Getty Images

 

Nesse momento, além do apoio de industriais e empresários, Hitler passou a contar com o apoio do Partido do Centro, que reunia os católicos alemães e que oscilava entre a social-democracia e o nacionalismo.

“Quando o comunismo, inimigo maior da Igreja Católica e dos sistemas econômico e social apoiados por ela chegou ao poder na Rússia, cresceu a hostilidade da Igreja contra a esquerda e os movimentos sindicais na Alemanha. Por isso não foi surpresa que o Partido do Centro se integrasse à luta contra o bolchevismo pregada em Roma pelo papa e em Berlim por Hitler”, afirmou o historiador Percy Schramm, autor de alguns dos primeiros textos alemães sobre o nazismo no pós-guerra.

Os comícios do Partido Nazista passaram a ser grandes eventos de massa. “A primeira vez que vi Hitler foi numa foto de um cartaz que dizia: ‘Pão e paz para a Alemanha’”, disse Gertrude Heiss, que trabalhava numa pequena livraria em Munique, citada pelo historiador Eric Hobsbawm em 'A Era dos Extremos'.

Mas não foi só com palavras e propaganda que Hitler conquistou o coração do povo alemão. “Sei que a afirmação pode soar chocante, mas ele pode ter sido o líder revolucionário mais popular na história do mundo moderno”, diz Lukacs. “É claro que esse processo foi gradual e recebeu uma baita ajuda da repressão que Hitler e suas organizações paramilitares instauraram desde sua subida ao poder.”

Hitler durante um de seus discursos / Crédito: Getty Images

 

Criadas por Hitler a partir das estruturas militares dissolvidas pelo Tratado de Versalhes, milícias como a SA e a SS tinham a missão de intimidar toda e qualquer concorrência, dissolvendo na pancada comícios e manifestações comunistas, empastelando jornais e depredando casas e estabelecimentos comerciais de judeus. Mas o buraco em que a Alemanha se encontrava era ainda mais embaixo.

Depois da crise gerada pela quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, hiperinflação, desemprego e falências radicalizaram a crise, e os alemães resolveram dar uma chance aos nazistas. Em 1932, menos de dez anos depois de sua primeira eleição, eles conseguiram 37,3% das cadeiras no Parlamento, tornando-se o maior partido o país.

Em seguida, em 1933, Hitler foi escolhido chanceler pelo presidente Hindenburg. Instalados no centro do poder, os nazistas reformaram todo o sistema político do país para dar a Hitler poderes ditatoriais. Em julho de 1933, o Partido Nazista já era oficialmente o único legalizado na Alemanha e, em agosto de 1934, com a morte de Hindenburg, Hitler acumulou o cargo de presidente.

No cenário internacional, o novo ditador singrava mares arriscados, mas não exatamente bravios. Os conservadores estavam no poder na Grã-Bretanha, por exemplo, onde o risco do trabalhismo de inspiração socialista tornava um pouco mais palatável o prato que ele oferecia. Além disso, a Grande Depressão americana levou ao que Hobsbawm chamou de “abalo da democracia representativa”.

Adolf Hitler saudando seus membros, cercado por símbolos nazistas / Crédito: Getty Images

 

Na década de 1930, num efeito cascata, as democracias liberais cederam espaço a governos de inspiração fascista com rapidez assustadora. Na Itália, Espanha e Portugal, na América Latina, na África e no Oriente Médio, Hitler ganhou, quando não admiradores declarados, como foi o caso de Getúlio Vargas, pelo menos interlocutores poderosos. Nem todos foram na conversa de Hitler, é claro.

No mundo inteiro, movimentos antifascistas pressionaram seus governos a se oporem ao avanço das políticas nazistas. Uma das primeiras pesquisas de opinião realizadas no mundo (a técnica nasceu nos Estados Unidos justamente na década de 1930) perguntou ao povo norte-americano, em janeiro de 1939, quem ele queria que ganhasse se começasse uma guerra entre União Soviética e Alemanha: 83% foi a favor de uma vitória comunista, contra 17% de uma alemã.

Mas Hitler não era louco e sabia manter um verniz diplomático, embora suas ações não fossem nada amistosas. Em 1935, ele “revogou” o Tratado de Versalhes, reinstituindo o serviço militar obrigatório na Alemanha e reorganizando a Marinha e a Força Aérea.

Mesmo quando seu discurso se tornou evidentemente belicoso, passando a reivindicar a reintegração de territórios tomados da Alemanha na Primeira Guerra, as potências europeias permaneceram imobilizadas pelo receio de um novo conflito. “Não havia, na década de 1930, um político capaz de defender na França ou na Inglaterra a necessidade de uma nova guerra contra a Alemanha”, escreve Hobsbawm.

Ernst Röhm reunido ao exército SA / Crédito: Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

 

Com isso Hitler teve tempo para executar as manobras militares que levaram o mundo à guerra. Reocupou a Renânia, região na fronteira com a França, e invadiu a Áustria, onde foi recebido como herói. Em 1938, conseguiu que Inglaterra e França lhe cedessem a região dos Sudetos, na Tchecoslováquia, onde a maioria da população era de origem alemã e, em 1939, tomou a Polônia.

No início, a guerra só aumentou a popularidade de Hitler. Afinal, ele prometera uma vitória rápida, e o mundo viu tchecos, poloneses e franceses se renderem, um a um, à superioridade germânica. Hitler acompanhava pessoalmente as operações e capitalizava cada vitória nos campos de batalha.

A maioria do povo alemão acompanhava as batalhas pelo rádio e pelo cinema. Neles, os soldados alemães sempre venciam e Hitler sempre estava a liderá-los”, afirma o historiador americano Stephen Ambrose no livro 'O Dia D'.

Embora esse seja um tema delicado até hoje, a maioria do povo alemão apoiou Hitler e participou dos esforços de guerra. Em 1943, quando 100 mil soldados alquebrados pelo frio, pela fome e pela artilharia soviética se renderam em Stalingrado, nenhum analista militar tinha dúvida de que o sonho de Hitler estava fadado ao fracasso.

No entanto, poucos resolveram abandonar o barco. Pelo contrário, a derrota no gelo foi utilizada por Joseph Goebbels, ministro da Propaganda, para reforçar o culto ao führer. Num discurso em Berlim, ele pediu a todos que seguissem seu líder até o fim.

Her doctor, como era chamado por Hitler, declamou os versos do poeta alemão Theodor Körner: “Agora, erguemo-nos todos e que a tempestade se abata sobre nós”. A cena está descrita no diário de Goebbels, citado por Ian Kershaw no livro 'Hitler 1936-1945: Nêmesis'. Segundo ele, o público composto em grande parte por veteranos de guerra respondeu em coro: “O führer comanda, nós obedecemos”. Assim se fez.

Eva Braun e Hitler posando para foto com seus cachorros / Crédito: Wikimedia Commons

 

Ainda que a guerra passasse a se mostrar cada vez mais desesperada, a aura de respeito e poder que Hitler criara em torno de si permaneceu. O povo alemão culpava os outros chefes nazis- tas e os generais pelas derrotas. No final de 1944, Hitler foi acuado em Berlim. A guerra estava perdida e lhe restava pouco tempo.

Em 1945, já no bunker, numa discussão com um grupo seleto de colaboradores, falou-se pela primeira vez de sua morte. Segundo o historiador Joachim Fest, Hitler não quis fugir. O argumento de Albert Speer, um dos ideólogos do nazismo e amigo de Hitler, foi decisivo para que ele ficasse. “No grand finale, o artista principal tem de estar no palco”, teria dito o conselheiro.

Curvado, mal conseguindo andar, Hitler passou seus últimos dias trancado, isolado do mundo. De lá, soube da capitulação de alguns de seus principais líderes militares, como Himmler e Göring. Acusou-os de traição, mas não pôde fazer nada.

Comemorou com um banquete seu último aniversário, em 20 de abril. Sua mão esquerda tremia como sintoma do mal de Parkinson. Pouco antes de se matar, Hitler casou-se com Eva Braun e ordenou um último gesto de carinho para com sua cadela Blondi: pediu que ela fosse morta também.


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