Matérias » Coluna

Mary del Priore: Antes da lei das palmadas

Em nome das boas maneiras, até os castigos físicos eram incentivados

Mary Del Priore Publicado em 05/11/2018, às 12h00 - Atualizado às 13h42

As vítimas da agressão doméstica
As vítimas da agressão doméstica - Ilustração/Hafaell

No passado colonial, a tarefa mais importante para os pais era a doutrinação cristã dos filhos. Segundo os educadores da época eles tinham que estabelecer com sua prole uma relação de "entretenimento honesto, educação e bom exemplo". O padre João Filipe Bettendorf, por exemplo, escrevia no século 17 que seriam considerados grandes pecadores os pais e mães, padrinhos ou madrinhas que não se aplicassem em ensinar o catecismo aos seus filhos ou afilhados.

Desde pequeninas, as crianças deviam aprender a rezar o Padre-Nosso e a Ave-Maria, beijando o chão, para lembrar-se da existência do inferno. Depois de 7 anos, deviam rezar um rosário pela manhã, um à noite, outro ao deitar. Não deviam comer, nem beber, sem rezar uma Ave-Maria em louvor à mãe do Senhor.

A educação das meninas devia evitar que elas se tornassem "um instrumento do demônio" - como dizia um padre da época. Por isso mesmo deveriam seguir regras particulares que lhes dariam certos "divertimentos e a certos pecados ocultos". Já um manual pedagógico de 1783 recomendava às mães que amassem "o retiro de sua casa e a ocupação", pois apenas o trabalho e o enclausuramento serviriam como remédio para o seu temperamento desregrado. As mães deveriam, também, conservar as meninas em sua companhia, evitando o contato com outras meninas "que lhes ensinem o que nunca devem saber sobre os meninos"! Deveriam ensinar-lhes a falar pouco, com discrição e apenas sobre assuntos "úteis e honestos".

Não podiam vestir-se para agradar os rapazes, nem ler "romances, nem comédias, nem poesias perigosas onde se pintam as paixões com representações imodestas". Dançar seria considerado "indigníssimo", pois a dança é um "laço do Demônio do qual raramente se sai tão puro quanto se entra". A mãe que conduzisse sua filha a espetáculos, como a ópera ou o teatro, a estaria "conduzindo a um precipício". Era, ainda, considerado um defeito gravíssimo uma menina olhar fixamente um homem. A preocupação em preservar a pureza da jovem relacionava-se com a preocupação em torná-la um "bom partido", sobretudo se pertencesse à elite senhorial. Mantendo-a alheia a toda informação que o teatro ou a leitura pudesse trazer, a família garantia seu comportamento submisso ao pai, e, mais tarde, ao esposo.

Cabia, também, aos pais corrigir os filhos. Os castigos físicos eram mesmo incentivados: bolos, beliscões e palmadas, assim como surras de açoite e vara de marmelo eram comuns. Acreditava-se que os castigos físicos eram uma forma legítima e eficiente de educar as crianças. Uma quadrinha do século 18 revela que tal forma de educação não só era usual como até "acertada":

Para que anda com carrancas?

Satisfaça a sua ira

dê nessas mãos, nessas costas

dê que assim só me ensina...

Mas não eram só os pequenos que sofriam com castigos físicos. Os escravos eram constantemente açoitados e as mulheres desobedientes corriam sério risco de apanhar de seus maridos e companheiros. A lei os autorizava a puni-las fisicamente, "se merecessem"... Bater era sinal da força do caráter paterno. Desconfiava-se de pais que "estremeciam" sobre os filhos. Isso era coisa de mulher. D. Francisco Manoel de Melo, cronista dos costumes portugueses que andou pelo Brasil Colônia, gostava de dizer em 1651 que "não é coisa pertinente a um homem ser ama nem berço de seus filhos". Além de rigorosos, os pais podiam ser extremamente violentos com a mulher e os filhos. Nos arquivos encontram-se documentos relatando o sofrimento de mulheres maltratadas pelos companheiros, cujas crueldades estendiam-se às crianças.

Certa Maria Rosa de Camargo queixava-se em 1765 que seu marido lhe causava "a tal extremo sevícias que até lhe falta com alimento... proibindo-lhe que o faça para comer" saindo normalmente de casa sem deixar nada para ela ou sua filha comerem. Angélica Maria de Assunção, em 1782, afirmava que seu marido "nunca lhe dera, nem à sua filha, um metro de pano que fosse... e andava a suplicante e sua filha nuas". E, pior, fora espancada diante do olhar aterrorizado da pequena "com um pau, machucando-a (o marido) pela barriga, estando a suplicante pejada... e não satisfeito do injusto procedimento a mandou, depois de maltratada, lavar roupa no Rio Tietê".

Vitoriana Monteiro denunciava, em 1789, as pancadas que recebia de seu marido, Paulo Ferreira, um preto liberto, pancadas, aliás, que estendia "aos filhos ainda de menor". Em Morro Grande, outro pai de família temido "costumava embebedar-se, e por razão de tal bebedeira dava má vida à mulher e aos filhos, rogando pragas a si mesmo e dizendo que o diabo o levasse em "corpo e alma".

Não era fácil ser criança. Muitas delas, aterradas, recebiam chibatadas e pancadas, ou eram proibidas de comer. As mulheres, por sua vez, tinham que se sujeitar à vontade e ordens de maridos nem sempre carinhosos. Essa era uma das facetas do universo familiar na época colonial.


Por Mary Del Priore

Doutora em história social com pós-doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales, vencedora do Prêmio Jabuti e autora de Histórias Íntimas - Sexualidade e Erotismo na História do Brasil.