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O apelo à boa vida nos vídeos do Estado Islâmico

O material de recrutamento não trata apenas de religião e guerra. Também promete uma vida muçulmana com qualidade e conforto comuns ao Ocidente

Anna Leander Publicado em 08/12/2018, às 13h00

 Imagem de propaganda do Estado Islâmico
Imagem de propaganda do Estado Islâmico - Reprodução

Como parte de um amplo projeto multidisciplinar do Conselho Nórdico que investiga tecnologias de segurança e valores sociais (NordSteva), busquei compreender como funciona hoje a política virtual e de que maneira ela exige que repensemos nossos conceitos de política, em geral, e de democracia, em particular. Nesse contexto, planejava engajar temas debatidos e que envolvem grande espectro de pensadores, incluindo teóricos políticos, como Pierre Rosanvallon e Sheldon Wolin; geógrafos, como Nigel Thrift ou Louise Amoore; etnógrafos, como Rebecca Stein e Daniel Miller; e mesmo teóricos da mídia, como Katherine Hayles ou Jodi Dean.

Optei por fazer esse debate a partir de baixo, olhando para questões tangíveis que auxiliassem minha reflexão. Acabei escolhendo os vídeos de recrutamento do Estado Islâmico. Inicialmente, publiquei uma discussão sobre o funcionamento e a política desses vídeos no artigo intitulado Digital/Commercial Invisibility: The Politics of Daesh Recruitment Videos (Invisibilidade Digital/Comercial: “A Política dos Vídeos de Recrutamento do Estado Islâmico”).

Me surpreendeu o fato de que, para muitos desses vídeos, o foco está em transmitir uma imagem da vida junto ao Estado Islâmico como boa e normal do ponto de vista de possíveis recrutas ocidentais. Essa descoberta frustrou minhas expectativas de encontrar predominantemente os temas das aventuras militares, da Jihad contra o Ocidente e das virtudes de um estilo de vida muçulmano. Não quero negar a existência de vídeos que de fato se concentram nesses temas.

No entanto, encontrei uma infinidade de outros que apelam para questões como a possibilidade de fazer compras no mercado, usar transporte público, jogar futebol, ouvir música ou conseguir assistência médica adequada. Esses vídeos estão construindo um Estado virtual – um tipo de Estado no qual os recrutas podem viver uma boa vida, para além da guerra. Eles prometem uma vida muçulmana com qualidade e conforto comuns ao Ocidente.

Um excelente exemplo desse apelo aparece no vídeo em que o médico pediatra Tareq Kamleh, autodenominado Abu Yusuf, recruta, na Austrália, muçulmanos com experiência na área de saúde para se juntarem ao Estado Islâmico. O médico aparece caminhando entre as incubadoras de uma maternidade, falando inglês e usando expressões árabes que mesmo um muçulmano não praticante entenderia.

Recrutas do Estado Islâmico Reprodução

Sua mensagem principal visa convocar outros a seguir sua liderança, somando-se ao Estado Islâmico em seus esforços para construir um sistema de saúde operacional. Abu Yusuf insiste, ainda, que é um dever de qualquer muçulmano fazer isso. No vídeo, o médico enfatiza que a falta em sua ala não é de remédios ou equipamentos, mas de médicos e enfermeiros qualificados. Não há qualquer vestígio de violência no vídeo, nenhuma diferença radical com relação ao Ocidente.

O que há, por sua vez, é uma promessa declarada de uma vida muçulmana moral e ética em uma comunidade muçulmana. A vida que Abu Yusuf descreve é marcada pela normalidade, inclusive no sistema de saúde. Essa mensagem é, claro, importante, uma vez que os potenciais recrutas visados pelo Estado Islâmico e por outras organizações radicais são convidados a deixar seus países para trás. Assim, é essencial transmitir uma imagem positiva daquilo que podem esperar.

 A centralidade dessa mensagem não foi ignorada pelas agências que lutam contra o recrutamento online. De fato, as políticas contra a radicalização rotineiramente envolvem a publicação de informações e imagens sobre a violência do Estado Islâmico, além de enfatizarem o imenso estresse emocional gerado pela decisão de juntar--se ao grupo. E essa tendência apenas aumentou desde que escrevi o artigo. Basta observar qualquer um dos sites oficiais contra a radicalização, como o Stop-Jihadism, do governo francês.

O destino de Abu Yusuf na rede é representativo a esse respeito. Já existe, hoje, um grande número de vídeos que mostram o médico defendendo a violência e a Jihad, nos quais aparece armado e com uniforme de caça do Estado Islâmico, além de histórias destinadas a desacreditar sua pessoa e seu apelo. Estas incluem passagens de um suposto diário em que Abu Yusuf descreve detalhadamente seu desencantamento com o Estado Islâmico, além de acusações que vão desde casamentos ilegais até acusações de “perversão sexual”. Sua morte violenta também é descrita em detalhes. Manipulados ou não, a história que esses vídeos contam é a da impossibilidade de viver junto ao Estado Islâmico.

Uma importante pergunta a ser feita na presente conjuntura é, portanto, uma que não fiz no artigo para o projeto NordSteva: quais as consequências dessa disputa virtual sobre o que é normalidade? Quais são as implicações dos esforços das organizações muçulmanas radicais para mostrar que também podem oferecer uma vida normal e das organizações contra radicalização que negam essa possibilidade? Estaria a insistência na ausência de normalidade no âmbito do Estado Islâmico (e de outros grupos radicais) conseguindo impedir o recrutamento? Ou ela também pode ser contraproducente?

Vale questionar se essa insistência estaria contribuindo para o aprofundamento da divisão entre os recrutados e aqueles que tentam combater o recrutamento. Em caso afirmativo, quais são as consequências desse embate na busca por dialogar com potenciais recrutas e, portanto, impedir sua radicalização? É importante questionar até que ponto esse crescente abismo entre as retóricas está criando um terreno fértil para interação. Ou, ainda, até que ponto a mútua recusa em reconhecer a possibilidade de normalidade do outro estaria contribuindo para criar a imagem não apenas de um inimigo mas de um inimigo com o qual não é possível negociar, e que deve, portanto, ser eliminado?

Quando outras formas de comunicação são negadas, a violência parece ser a opção óbvia. Atéque ponto, portanto, esse abismo que separa o Ocidente dos radicais está dificultando as tentativas de combate à radicalização e de reintegração? E, finalmente, como a disputa sobre a normalidade e a ruptura que ela gera está sendo questionada, invertida ou distorcida por ambos os lados?

Essa é uma longa lista de perguntas – ou apenas curiosidades – que emerge ao revisitarmos um aspecto específico desta pesquisa. Ainda que muitos possam se incomodar com a falta de respostas, eu acredito que isso representa a importância premente desta, bem como um convite para seu engajamento e continuidade.