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Apollo 11: O grande passo da humanidade

Há exatos 50 anos, o homem pisava na lua após uma viagem que, por pouco, não terminou em tragédia

Alexandre Carvalho Publicado em 19/07/2019, às 10h35

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- Reprodução

O destino ordenou que os homens que foram à Lua para explorá-la em paz tenham de permanecer na Lua para descansar em paz.” Assim começava o discurso de Nixon, que era uma peça de gestão de crise. Estava preparado para o caso de uma tragédia envolvendo os astronautas que viajariam ao espaço, em julho de 1969, com uma missão histórica: serem os primeiros homens a colocar os pés em solo lunar. Antes do pronunciamento, o presidente telefonaria para cada uma das viúvas e expressaria suas condolências.

A preparação para um luto de dimensão nacional não era exagero. Um relatório em poder da NASA relacionava ocorrências que poderiam levar à morte dos astronautas durante a missão: “quebra do veículo espacial”, “falha do sistema de propulsão”, “colisão violenta contra a superfície da Lua”, entre outras. Michael Collins, o astronauta que ficaria a bordo do módulo de comando e serviço, permanecendo na órbita da Lua enquanto seus dois companheiros trabalhavam na superfície lunar, foi treinado em 18 variações de procedimentos de emergência.

Um deles tratava das manobras que o piloto deveria fazer para retornar à Terra caso fosse obrigado a deixar seus colegas na Lua – para morrer. Collins desenvolveu tiques nervosos nos dois olhos, preocupado com esse risco. Décadas após a missão, ele recordaria o que pensava na época: “Se eles falharem na subida da superfície, ou se baterem contra ela, eu não vou cometer suicídio; vou voltar para casa imediatamente, mas serei um homem marcado pelo resto da vida. E eu sei disso”.

Neil Armstrong, o líder da missão, escolhido para ser o primeiro a pisar na Lua, reconhecia os riscos, mas era mais otimista. Calculava em 90% as chances de voltar à Terra vivo, e de 50% a possibilidade de ele e seu colega Buzz Aldrin fazerem a alunissagem (pouso na Lua) com sucesso. Afinal, a NASA tinha sido obsessiva quanto a cada detalhe da missão, e os três viajantes estavam mais que prontos para a tarefa.

Armstrong e Aldrin treinaram por quase dois anos num simulador do Eagle (“águia”), o módulo lunar, enquanto Collins passou 400 horas simulando as manobras que faria ao  redor da Lua. O treinamento repetitivo tinha outra consequência que inflamava a boa disposição de Armstrong: era um antídoto contra o medo.

“O medo levava ao pânico, o que levava a cometer erros”, explica James Donovan, autor de Shoot for the Moon, obra que conta a jornada da Apollo 11, como era chamada a missão rumo à Lua. “Treinando para excluir o medo, você diminuía a zero as chances de um lapso numa situação de vida ou morte.”

Fato é que os astronautas do fim dos anos 1960 odiavam a palavra e evitavam de todo modo ter de usá-la. Quando questionados sobre os temores naturais em uma missão sem precedentes, eles preferiam o eufemismo Apreensão. E o que não faltava era motivo para ficar apreensivo.

O programa espacial que tinha como meta colocar astronautas caminhando sobre a Lua – antes que os soviéticos o fizessem – já começara de modo trágico: um incêndio na cabine durante um ensaio de lançamento matara a tripulação da Apollo 1, apenas dois anos antes. Mesmo com todo o aprendizado que as falhas trouxeram à NASA nesse intervalo, houve momentos em que tudo parecera estar por um fio.

Michael Collins sozinho em órbita na Lua / Crédito: Reprodução

 

Principalmente a partir do momento em que o Eagle, levando Armstrong e Aldrin, se separou do módulo de comando e serviço. Foi quando Collins ficou sozinho, dando voltas na Lua – às vezes, até sem comunicação com a base terrestre. “Desde Adão, nenhum outro ser humano conheceu tamanha solidão quanto a de Mike Collins ao longo dos 47 minutos de cada volta à Lua”, foi dito à época.

Enquanto isso, seus dois colegas de voo enfrentavam as incertezas de uma descida jamais feita a um outro mundo. Uma viagem ao desconhecido, que por pouco não foi abortada em plena execução – nem terminou com um motivo real para que Nixon lesse seu discurso fúnebre.

Flexões no Espaço

“Nós escolhemos ir à Lua nesta década não porque seja fácil, mas porque é difícil”, previu o presidente John Kennedy, discursando no Texas, em 1962. “E só se os EUA ocuparem uma posição de proeminência poderemos ajudar a decidir se esse novo oceano será de paz ou um novo teatro de guerra.” A missão assumida por Armstrong, Aldrin e Collins daria conta de cumprir com essa determinação, e no prazo previsto por Kennedy – que, assassinado em 1963, não teve a chance de ver a evolução de seu programa espacial.

Mas a expedição de julho de 1969 não foi a primeira a chegar perto da Lua. Em dezembro de 1968, a Apollo 8 já tinha orbitado o astro, e a Apollo 10, em maio, chegou a sobrevoar a superfície a apenas 15 km. Mas pousar era inédito. E envolvia procedimentos nunca feitos fora de um simulador. A chegada até a órbita lunar havia sido um passeio mais tranquilo do que os astronautas poderiam imaginar.

O lançamento do Saturno V, no dia 16 de julho, o foguete que os levou ao espaço, havia sido um sucesso absoluto, televisionado para 33 países. Só nos EUA, 26 milhões de pessoas acompanharam com ansiedade a contagem regressiva e aplaudiram quando o foguete ascendeu numa trajetória vertical, antes que, a 200 quilômetros da superfície da Terra, a maior parte da estrutura grandiosa fosse solta, voando em direção ao Sol.

O que restava era uma espaçonave bem menor, atravessando calma calmamente o espaço à Lua – uma viagem de três dias. Nesse período, os astronautas desfrutaram da parte mais calma da viagem, contemplando a imagem deslumbrante da Terra (redonda, como eles puderam conferir) de um ponto de vista privilegiado.

Quando estavam já a 12 mil quilômetros do planeta, viajando a quase 31 mil km/h, a tensão havia dado lugar a uma alegria de meninos que invadem uma floresta desconhecida. “Pela primeira vez desde que deixara a órbita da Terra e se dirigira para a Lua, Neil pôde relaxar”, conta Jay Barbree, o biógrafo de Armstrong.

Nessa breve descontração, os astronautas brincaram com os efeitos da gravidade, tiraram seus trajes espaciais pressurizados e ouviram música: Barbra Streisand, Peggy Lee, Blood, Sweat & Tears... Também fizeram filmes de si mesmos, transmitidos para o pessoal de controle em Houston: “Montaram um programa de TV improvisado, com o chef Mike preparando um ensopado, Buzz fazendo flexões e Neil se exibindo de cabeça para baixo”, conta Barbree.

O clima só ficou tenso no dia 19, quando a espaçonave entrou na órbita lunar. Era um momento que exigia precisão de comandos – qualquer excesso de velocidade poderia fazer com que a gravidade da Lua os mandasse de volta à Terra ou, pior, colocá-los em rota de colisão com a superfície do astro. Mas a precisão dos comandos não deixou que nada saísse do previsto, e os astronautas puderam fazer 20 órbitas lunares.

Até que, ao meio-dia de 20 de julho de 1969, um domingo, Neil Armstrong e Buzz Aldrin deixaram seu colega e entraram de vez no módulo lunar. Desacoplaram do restante da aeronave, que os esperaria de volta da Lua e, pouco depois, receberam uma autorização especial de Houston.

Armstrong, Aldrin e Michael Collins em um photoshoot feito pela NASA /
Crédito: Wikimedia Commons

 

“Eagle, você está pronto para acender seu motor de descida.” E a nave começou a descer por aquele céu escuro, com o computador monitorando a desaceleração, julgando a altura em cada momento e confirmando se o ângulo de voo estava correto. A gravidade lunar, bem menor que a da Terra, permitiria um caminho suave até o pouso. Só que não foi bem assim.

Pouso de cinema

De repente, uma luz de alarme iluminou o rosto dos dois astronautas: “erro 1202”. Isso queria dizer que o computador de bordo estava sobrecarregado – e poderia entrar em pane. De fato, Buzz Aldrin executara tantos sistemas de orientação de voo ao mesmo tempo que o computador talvez não desse conta. Era hora de fazer escolhas. E escolhas rápidas.

Em Houston, os especialistas não tinham tempo para uma avaliação minuciosa. O que lhes deu embasamento para a resposta foi o fato de que, apesar da sobrecarga, tudo estava funcionando perfeitamente bem no Eagle. E estavam tão perto... “Nenhum dano. Prossiga”, determinou o comando em terra.

Ali já era Neil Armstrong quem pilotava o módulo lunar. E então novos sustos surgiram. Um ligeiro erro de navegação e uma velocidade de descida um pouco maior fizeram com que a espaçonave ultrapassasse em 5 quilômetros o local pretendido para o pouso. Era preciso, então, buscar outra área favorável, razoavelmente plana e sem grandes rochas ao redor. Mas o momento não permitia ser muito seletivo: o combustível para a descida estava no finzinho.

Se o motor consumisse sua última gota antes da hora, eles cairiam. Em Houston, o diretor de voo Gene Kranz quis lembrar isso em um tom de voz que fosse de alerta, mas que tivesse o cuidado de não apavorar todo o comando num momento tão delicado: “É melhor lembrar Neil de que não há postos de gasolina na Lua”.

Na superfície acidentada que estava logo à sua frente, Buzz notou uma cratera maior que um campo de futebol. Poderia ser uma opção interessante, um lugar para descobertas científicas, mas Armstrong percebeu que havia trechos íngremes perigosos no lugar – se alunissassem em uma inclinação, talvez o Eagle nunca conseguisse subir de volta.

Com o pouco tempo que lhe restava, tinha de evitar a cratera e pousar imediatamente. Foi aí que sua experiência de piloto de testes da Aeronáutica fez a diferença. Identificado um local, os pequenos foguetes impulsionadores de altitude mantiveram o Eagle alinhado durante a parte final da descida. Buzz observava o radar de pouso, enquanto Neil conduzia o módulo lunar para longe de pedregulhos. Com um detalhe: só restavam mais 60 segundos de combustível.

No Controle da Missão, na Terra, um silêncio de pedra. Não havia mais o que eles pudessem dizer para ajudar os homens lá em cima. Muitos prenderam a respiração. Até que, na superfície de um mundo alienígena, uma luz indicando contato acendeu na cabine. Segundos de tensão insuportável separaram esse sinal do som da voz de Neil Armstrong, ressoando a 384 mil km de distância: “Houston, aqui é a Base Tranquilidade. O Eagle pousou”.

24 de julho de 1964: Nixon cumprimenta os astronautas na unidade de quarentena após o regresso / Crédito: Reprodução

 

Desolação magnífica

A NASA divulgou que os astronautas tirariam algumas horas para descansar e, talvez, dormir. Mas a primeira população da Lua, composta de duas pessoas, não tinha tempo a perder. Passaram as próximas horas se preparando para o momento mais esperado: a abertura da escotilha.

Finalmente, com imagens registradas por uma câmera de TV de baixa qualidade, Armstrong deslocou seu corpo para fora do módulo lunar e descobriu que a escada que o conduziria ao chão da Lua terminava a 1 metro de altura em relação ao solo. Era preciso dar um pequeno pulo para descer – algo que pode ser simples em 99,99% das situações, mas não para quem está vestindo trajes pressurizados, de 160 quilos.

Além do desafio da descida, o primeiro homem na Lua precisava se certificar de que conseguiria voltar à escada com outro pulo, sem danos ao exoesqueleto que o mantinha vivo no espaço. Conseguiu. E foi nesse exato instante que proferiu uma das frases mais marcantes da história. Declaração na qual ele teve o cuidado de abrigar o mundo inteiro, o nosso mundo. “Este é um pequeno passo para o homem... Um grande salto para a humanidade.”

Surgiam então pegadas de um ser vivo no solo da Lua – as primeiras daquele mundo inóspito de 4,4 bilhões de anos. E Armstrong tinha muito o que fazer naquele satélite sem vida, sem vento, sem verde, onde tudo era levemente marrom e cinza no chão e preto no céu. A ele juntou-se Aldrin, 20 minutos depois, brincando que teria o cuidado de não trancar a escotilha de um modo que os dois não pudessem voltar ao módulo lunar.

Mas o bom humor logo deu lugar à emoção, quando Buzz finalmente contemplou, sem o filtro da janela do Eagle, a paisagem do satélite natural da Terra: “Desolação magnífica”, definiu. Em meio às atividades que tinham a executar, os dois receberam um telefonema de um outro planeta – algo que, ainda hoje, parece coisa de ficção científica.

Era o próprio presidente Nixon, que os cumprimentava pelo feito histórico: “Por causa do que fizeram, os céus tornaram-se parte do nosso mundo. E, quando vocês falam conosco do Mar da Tranquilidade, nos inspiram a redobrar nossos esforços para trazer paz para
a Terra”. Falou tão bonito que nem parecia o mesmo homem que insistia na Guerra do Vietnã e cairia pelo escândalo de Watergate.

Neil Armstrong e Buzz Aldrin implantaramum sismógrafo movido a energia solar para detectar tremores na Lua e um refletor a laser para ajudar os cientistas a medir a distância em qualquer momento entre o satélite e a Terra. Também coletaram amostras do solo lunar e de pedras, tiraram muitas fotos de tudo – inclusive deles mesmos – e desfraldaram a bandeira americana, endurecida com arame para que parecesse voar naquele ambiente sem nem uma brisa.

Antes que voltassem ao módulo que os levaria com sucesso de volta à órbita da Lua e à companhia de Michael Collins, rumo ao planeta azul, Neil Armstrong conseguiu, por um breve momento, deixar Buzz se ocupando dos experimentos e se distanciou para explorar sozinho aquele miniuniverso. Foi quando encontrou uma pequena cratera, não maior que uma casa de tamanho médio.

Na hora, chamou-a mentalmente de “Cratera de Muffie”. Era esse o apelido de sua filhinha Karen, que morrera aos 2 anos com um tumor no cérebro. Segundo seu biógrafo, naquele momento o astronauta imaginou que a pequena adoraria deslizar para dentro da cratera, e quase fez isso por ela – se não houvesse o risco de não conseguir voltar.

Foi também na sua breve solidão selenita que Neil Armstrong, um herói da humanidade, refletiu que um dia os recursos naturais da Terra se esgotariam pela avidez do homem, que sabotaríamos nossa própria capacidade de nos sustentar e que, para sobreviver a esse instinto de autodestruição, a única saída seria encontrar novas casas no Universo – novos mundos habitáveis.

Depois de Armstrong, mais 11 “Colombos” deixaram suas pegadas em solo lunar, todos do programa espacial americano. Desde a Apollo 17, porém, em 1972, nunca mais houve homem ou mulher sonhando acordados sobre o arenoso chão da Lua.