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Apollo 17: A última viagem à Lua

Em 1972, o governo americano fechou a torneira do orçamento para viagens lunares

Fernando Badô Publicado em 19/11/2018, às 09h00

Lançamento da Apollo 17, em 7 de dezembro de 1972
Lançamento da Apollo 17, em 7 de dezembro de 1972 - Wikimedia Commons

A rede de televisão americana CBS recebia ligações indignadas de telespectadores. Eles se queixavam da interrupção da exibição do seriado I Love Lucy. Era 11 de dezembro de 1972, e a CBS transmitia a chegada à Lua da Apollo 17 - a última viagem do ser humano ao satélite. Os telespectadores preferiam a reprise de uma série gravada havia 12 anos.

Apenas 3 anos antes, em 20 de julho de 1969, o mundo inteiro se colava à TV para assistir à transmissão ao vivo da caminhada lunar da Apollo 11. Era a conclusão épica da corrida espacial, uma rivalidade pacífica, meio científica, meio propagandística, entre União Soviética e Estados Unidos, começada com o lançamento do satélite soviético Sputnik 1, em 1957. A Apollo 12 chegou à Lua em 19 de novembro de 1969, apenas 4 meses depois da viagem inaugural. O satélite continuava um deserto cinza, mas agora o público contava a empolgante novidade de um pouso mais preciso.

O astronauta Eugene Cernan Wikimedia Commons

O governo americano, que sabia da importância da propaganda, notou que o entusiasmo do público não duraria. Em fevereiro de 1970, a Nasa recebeu as primeiras recomendações para reduzir seus gastos. A coisa não ficou melhor quando a missão da Apollo 13 quase acabou em desastre, sem nem chegar a pousar na Lua, em abril do mesmo ano. A Nasa encolheu o orçamento em 500 milhões de dólares, em 1970, e mesmo assim recebeu 100 milhões de dólares a menos do que pediu (3,5 bilhões de dólares, em valores da época). Até o fim daquele ano, 3 missões foram canceladas. A partir da Apollo 15 (julho de 1971), o foco passou a ser mais pesquisa científica que propaganda, com o uso do jipe lunar e missões de maior duração, em média de 3 dias em solo lunar.

O tripulantes da Apollo 17: Harrison Schmitt, Ronald Evans e Eugene Cernan Wikimedia Commons

A Apollo 17 passou 3 dias, 2 horas e 59 minutos no satélite, a mais longa das missões. Em 13 de dezembro, Harrison Schmitt e o piloto Eugene Cernan passaram 7 horas e 15 minutos fora do módulo, na mais longa caminhada lunar. Fizeram medições de gravidade e coletaram 66 kg de pedras. No dia seguinte, decolaram, tornando-se os últimos humanos a pisar na Lua. A Nasa prosseguiu com a atual fase da Era Espacial. Lançou o Skylab em 1973, juntou astronautas americanos e soviéticos no projeto Apollo-Soyuz de 1975 e lançou o ônibus espacial em 1981 (o programa acabou no ano passado, depois de 3 acidentes). O fim das missões lunares foi melancólico. Depois de apenas 3 anos, o público estava cansado do espetáculo. E quem pagava a conta percebeu que o custo era alto demais para a quantidade de pedras recolhidas.

A Apollo 17 foi a única a levar um cientista de verdade para o espaço. Os astronautas realizaram vários experimentos e trouxeram muito material na missão mais longa de todas. O público já não dava a mínima e a Nasa partiu para projetos mais modestos.