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Apóstola dos apóstolos: conheça os enigmas de Maria Madalena

Recentes descobertas acrescentam novos matizes à discípula de Jesus, que teria sido rica e influente

Raphaela de Campos Mello Publicado em 21/06/2020, às 06h00

Pintura de Maria Madalena por Tintoretto
Pintura de Maria Madalena por Tintoretto - Wikimedia Commons

Andava de cidade em cidade, e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus; os doze iam com ele. E algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios, Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, e Suzana, além de muitas outras que o serviam com seus bens.”

O evangelista Lucas situa Maria Madalena entre as seguidoras de Jesus, tão discípulas quanto os homens que o rodearam na célebre Santa Ceia. Dentre todos, Madalena fora escolhida como a primeira testemunha da ressurreição do Salvador e a encarregada de dar a boa nova aos seus companheiros, como relata o evangelista João. Ela – e não outro personagem – fora destinada a vivenciar um evento dessa magnitude. Passagem, no mínimo, intrigante.

“Os evangelhos são unânimes em afirmar que Maria Madalena permaneceu firme, com outras mulheres, junto à cruz, durante a crucificação e depois no sepultamento. Já os discípulos, que tinham acompanhado Jesus até Jerusalém, sentiram medo e tiveram outros comportamentos: um traiu, outro negou e os outros fugiram”, lembra Ivone Brandão de Oliveira, mestre em teologia dogmática e ciências da religião e docente do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Unisal).

Tardou, mas o reconhecimento se formalizou após milênios de deturpações. Em 2016, a Igreja Católica consagrou Maria Madalena como evangelista. Sua celebração, comemorada em 22 de julho, foi elevada à categoria de festa litúrgica. O papa Francisco ainda resgatou o título de Apostola apostolorum – Apóstola dos apóstolos, termo cunhado pela primeira comunidade cristã.

“O papa certamente queria resgatar a imagem da mulher de fé, servidora da Igreja nascente, corajosa e fiel ao amor que é mais forte do que a morte, apóstola da esperança, como tantas mulheres”, opina Ivone. Mas por que o rótulo da prostituta arrependida teria se colado à pele de Madalena com tanta veemência, ofuscando sua relevância para o Cristianismo?

Segundo Wilma Steagall De Tommaso, doutora em ciências da religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e pesquisadora do Núcleo de Estudos em Mística e Santidade (Nemes), da mesma universidade, a imagem de Madalena foi moldada e remodelada ao longo dos séculos da história da cristandade.

Nenhum personagem bíblico sofreu tantas transformações e interpretações como ela. “Sua imagem começou a ser deturpada a partir do século 18 e culminou no século 19, quando, na Inglaterra, por exemplo, o nome Madalena tinha a conotação de prostituta. Em épocas anteriores, isso jamais aconteceu”, assegura a estudiosa.

Maria Madalena e Jesus Cristo / Crédito: Wikimedia Commons

 

Na Idade Média, por exemplo, ela era venerada, sendo retratada na pintura por séculos como uma mulher nobre, com finas vestes, penteados e joias. Após o Concílio de Trento, no século 16, tornou-se a “heroína” da Contrarreforma. “Foi, então, despojada das ricas vestes para ser exemplo de arrependimento, confissão e penitência, em oposição à doutrina protestante”, explica.

 

Novas pistas

Recentemente, a norte-americana Jennifer Ristine, diretora do Instituto Madalena e autora de Mary Magdalene: Insights from Ancient Magdala (Maria Madalena: Percepções da Antiga Magdala), lançou luzes sobre a condição histórica de Maria de Magdala, nascida nesse povoado próspero, atual Migdal, em Israel. Em 2009, os Legionários de Cristo compraram um terreno e descobriram o norte do povoado, onde encontraram uma sinagoga do século 1, uma representação do Templo de Jerusalém em pedra, banhos de purificação ritual, residências e um porto.

Com base nesses achados, a pesquisa da norte-americana confirma o que o evangelista Lucas já havia informado: que Madalena servia a Jesus com seus bens. Era, portanto, uma mulher rica.

Wilma concorda. Para ela, é evidente que Madalena ocupava uma posição social e econômica privilegiada, assim como as demais seguidoras de Jesus elencadas por Lucas. “Elas patrocinavam as viagens do grupo, eram provavelmente filhas ou viúvas herdeiras”, define, embora Madalena seja apresentada pelas escrituras de forma livre, nunca vinculada a pai, marido ou filhos.

Para além da questão patrimonial, Ristine defende que a discípula foi influente e crucial na vida de Jesus, além de ter rompido as barreiras sociais do seu tempo no momento em que decidiu seguir seu mestre espiritual. Naquela época, pai, marido, filho, irmão tinham a obrigação de cuidar da filha, esposa, mãe e irmã. E, quando uma mulher ficava viúva, se não tinha filhos, o cunhado deveria cuidar dela. Nesse cenário, a pesquisadora a vê como um modelo de liderança para as mulheres. Uma revolucionária, portanto.

Muito ainda se saberá sobre Maria Madalena, visto que até hoje só foram escavados 15% da antiga Magdala. Contudo, já é possível desfazer o nó que acabou embaraçando três personagens bíblicos num só. Segundo Restine, no ano 591, o papa Gregório Magno teria se referido a Maria como a junção da pecadora, que unge os pés de Jesus, da mulher de Magdala, liberta de sete demônios, e de Maria de Betânia, irmã de Marta e Lázaro. Três mulheres diferentes, segundo a Igreja do Oriente. Mas não no entender de Magno.

Liderança espiritual

Há ainda as versões dos textos apócrifos gnósticos, que descrevem os acontecimentos transcorridos após a ressurreição de Cristo. Muitos enxergam neles a prova de que Maria Madalena e Jesus teriam sido amantes.

A passagem que sugere o suposto vínculo carnal consta do Evangelho de Felipe, segundo o qual “Jesus beijava Maria Madalena...”. “Há aí um buraco no pergaminho. Muitos sugerem, ‘na boca’, o que era também uma forma de transmitir conhecimento. No entanto, não se pode deixar de considerar que o amor erótico também era usado para exemplificar e expressar as experiências místicas”, analisa a pesquisadora do Nemes, que descarta a possibilidade de uma relação homem e mulher no sentido sexual, mas reafirma a união espiritual entre discípula e mestre.

Na visão de Ivone Brandão de Oliveira, além da realização espiritual na prática da cristandade e na devoção ao Filho de Deus, Maria Madalena foi também uma guerreira. “Enfrentou as forças religiosas que planejaram a morte de Jesus e o Império Romano, que via nele uma ameaça à sua política dominadora”, afirma. “De fato, poderia alegar-se que a contribuição das mulheres, tanto durante quanto depois da crucificação, demonstrou maior tenacidade de propósito e coragem, se bem que não necessariamente maior fé que os discípulos”, complementa Wilma.

Maria Madalena por Carlo Dolci / Crédito: Getty Images

 

Os Evangelhos Apócrifos ainda apresentam Madalena como líder dos apóstolos. Segundo esses relatos, ela tinha maior poder de compreensão. No Evangelho de Maria, um dos textos descobertos em 1945, na aldeia egípcia de Nag Hammadi, atribuído a Maria Madalena, ela é a portadora da gnose – sabedoria espiritual – e, por isso, detém autoridade inquestionável sobre os demais discípulos. Daí a razão pela qual Pedro se sentiria ameaçado em sua liderança e os discípulos questionavam os ensinamentos que haviam sido revelados somente a ela. Aparece, então, a figura da mulher como pivô dos ciúmes entre os seguidores do Messias.

A ameaça do feminino

Para o historiador britânico Michael Haag, autor do livro Maria Madalena – Da Bíblia ao Código da Vinci: Companheira de Jesus, Deusa, Prostituta, Ícone Feminista (Editora Zahar), as sucessivas deturpações que a imagem de Madalena sofreu ao longo da História são proporcionais à força do seu legado e à ameaça daí desdobrada.

“A imagem dela como uma prostituta arrependida é uma criação deliberada da Igreja, feita para minimizar o poder e o mistério que ela ganhou através de seu relacionamento espiritualmente íntimo com Jesus. Sua comunhão direta com o divino ameaçou a estrutura apostólica”, dispara.

Teria sido ela, então, vítima? Haag diz que sim. Vítima da intimidade espiritual com Jesus, seu canal para a comunhão com o sagrado. E, depois, vítima do cristianismo institucionalizado, que até hoje restringe a autoridade feminina em sua liturgia. Curiosamente, a posição de Maria Madalena aos olhos de Cristo ilumina a face inclusiva do Salvador, aberto à participação feminina na disseminação do evangelho.

“Ele reconheceu, de fato, a igualdade dos sexos, concedendo com naturalidade o discipulado às mulheres”, frisa Wilma. E acrescenta: “O comportamento com as mulheres que Jesus encontra na vida pública, em sua simplicidade, é novo, revolucionário e até subversivo, se considerados os costumes dominantes em sua época e em seu ambiente”.

Muito se especula sobre a vida de Maria Madalena até sua morte. Segundo a Igreja Ortodoxa do Oriente, depois de Pentecostes, ela rumou para Éfeso, onde passou a viver com Maria, mãe de Jesus, e com o apóstolo João, e lá morreu. Já a Legenda Áurea, compêndio hagiográfico do século 13, organizado pelo frei dominicano Jacoppo de Varazze, propõe que ela teria terminado seus dias na França. “Nesse relato, Maria Madalena se torna uma anacoreta, que vive 30 anos na gruta de Sainte-Baume, Provença, dedicando-se à penitência e contemplação”, diz Wilma.

O best-seller O Código Da Vinci, de Dan Brown, baseado na obra O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, dos jornalistas ingleses Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, e publicada em 1982, vai além. O livro popularizou a lenda de que Madalena foi esposa de Jesus e os dois deixaram descendentes. Perseguida após a morte de Cristo, teria fugido para o sul da França, onde seus filhos teriam se casado com famílias nobres, dando origem à Dinastia Merovíngia.

Essa teoria, contudo, ruiu por falta de evidências, embora tenha atiçado a imaginação de milhares de pessoas no mundo todo e, por tabela, trazido a figura de Maria Madalena de volta aos holofotes. Pecadora, adúltera, arrependida, prostituta, discípula, líder espiritual, revolucionária, esposa, vítima, santa. Qual delas prevalecerá? Quem sabe as escavações em Magdala nos tragam, no futuro próximo, essa resposta.


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