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Arte Degenerada: Por que Hitler tentou dar fim ao modernismo?

Em 20 de março de 1935, uma exposição foi aberta pelos nazistas para ridicularizar o modernismo

Fabio Marton Publicado em 04/08/2019, às 09h00

Detalhe de Crucifixão de Emil Nolde
Detalhe de Crucifixão de Emil Nolde - Wikimedia Commons

Entre as muitas coisas que os nazistas queriam ver varridas do mundo estava o modernismo – para eles, era mais uma das conspirações de judeus e comunistas para acabar com o corpo e espírito dos alemães. Mas esse era um capricho pessoal do ditador. O ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, era um fã de arte moderna. Dizia que o expressionismo era feroz e bem germânico. 

Mas Hitler havia sido rejeitado da Escola de Artes de Viena em 1908. Suas pinturas foram consideradas convencionais demais. Faltava a ele o necessário para ser visto como gênio, a ousadia e distorção dos quadros que acabariam chamados de Entartete Kunst - Arte Degenerada. Em 1933, Hitler ascende ao poder. Com ajuda do ideólogo Alfred Rosenberg, que explica como o modernismo era judeu e não ariano, as obras modernistas (elitistas, incompreensíveis) passaram contrariar o dever de edificar o povo alemão.

Artistas modernos perderam seus cargos em museus e universidades e foram proibidos de exibir ou vender sua arte – e, às vezes, até mesmo produzi-la privadamente. Em 1937, deu-se o passo adiante e passou-se a confiscar quadros modernistas de coleções públicas e privadas. O butim totalizaria 5 mil obras, e parte disso seria exibida na Die Ausstellung Entartete Kunst – Exposição da Arte Degenerada, de julho a novembro de 1937.

Era uma mostra didática, com três salas dedicadas a Ofensa à Religião, Insulto aos Soldados, Mulheres e lavradores alemães e Artistas Judeus (claro). Era uma exibição intencionalmente bagunçada, com quadros expostos da pior forma possível, iluminação inadequada e slogans ofensivos. 

Nazistas eram loucos, mas não rasgavam dinheiro. Após a exposição, os quadros com valor no mercado internacional foram leiloados na Suíça. Alguns foram discretamente confiscados por oficiais nazistas – o líder da aeronáutica Hermann Göring tomou para si 14 deles. As obras que não foram vendidas ou embolsadas acabaram, de fato, queimadas.

Não parou por aí. Em outro prédio, funcionava a Exposição da Grande Arte Alemã, os quadros que Hitler aprovou pessoalmente, todos realistas e acadêmicos, mostrando pessoas loiras e nuas idealizados. A exposição degenerada foi um imenso sucesso, atraindo mais de 2 milhões de visitantes. A outra pegou poeira. Ironicamente, muitos artistas alemães só passaram a ser conhecidos no exterior pela infame exibição de 1937.

Confira abaixo alguns dos quadros.

O cartaz

Crédito: Wikimedia Commons

O cartaz usou de uma escultura que parecia feita sob encomenda para ser odiada pelos nazistas: O Novo Homem, do judeu Otto Freundlich, que morreria num campo de extermínio. Era inspirada nos moais, mas os nazistas viram ali a apologia das raças inferiores – tanto pior com esse nome. A escultura se perdeu, provavelmente destruída.

O antissemita rejeitado

Os Três Reis Magos, Emil Nolde, 1913 / Crédito: Wikimedia Commons

Emil Nolde era um ferrenho antissemita e fã do Partido Nazista

Crucifixão, 1912, Emil Nolde / Crédito: Reprodução

Goebbels apreciava a obra de Emil Nolde. Mas Hitler não queria saber de modernismo, viesse de onde viesse, e então o artista foi parar na mostra - e foi perseguido. Além disso, seus quadros pareciam ofender a religião. Pura hipocrisia populista: em privado, Hitler e Goebbels várias vezes se manifestaram contra o cristianismo.

Saudades da guerra

Aleijados da Guerra, Otto Dix, 1920 / Crédito: Reprodução

Poucas coisas poderiam soar tão ofensivas aos nazistas, grupo formado por veteranos da Grande Guerra, quanto este quadro de Otto Dix, no qual foi vista uma chacota com os feridos. Em verdade, Dix era um herói de guerra retratando seus traumas. Às vezes, de forma bem gráfica:

Ferido de Guerra, Otto Dix, 1922 / Crédito: Reprodução

 

Outros quadros de Dix batiam de frente com a moral sexual caseira e utilitária defendida pelos nazistas:

Casal, Otto Dix, 1926 / Crédito: Reprodução

Alvo óbvio

O Rabino, Marc Chagall, 1926 / Crédito: Wikimedia Commons

Marc Chagall era russo e vivia na França, enquanto a exposição era dedicada a artistas alemães. Mas os nazistas não puderam resistir a exibir o modernista mais decididamente judeu do mundo.

Estraga-prazeres

Casal de Dançarinos, Ernst Ludwig Kirchner, 1914 /
Crédito: Wikimedia Commons

Kirchner era um dos artistas ativos quando Hitler foi barrado na academia. A vida boêmia dos artistas – e seu estilo musical favorito, o jazz – eram tidos por antigermânico e ridicularizado. 

O pornógrafo

Duas Mulheres, 1915, Egon Schiele / Crédito: Reprodução

O regime nazista mandava homens gays para campos de concentração, mas ignorava as lésbicas. Egon Schiele, porém, o Pintor do Sexo, seria condenado pelo conjunto da obra.

Estranho amor

Os Imigrantes, Oskar Kokoschka, 1917 / Crédito: Wikimedia Commons

Descendente de tchecos, Kokoschka foi um dos primeiros a serem declarados degenerados. As razões mostravam mais um lado da ideologia nazista: ele fez uma boneca sexual para relembrar uma amante, foi considerado insano e dispensado da guerra. 

Vingança irônica

Poder Cego, 1938, Rudolf Schlichter /
Crédito: Reprodução

Rudolf Schlichter foi um expressionista cujas obras foram capturadas e expostas pelos nazistas. Sua resposta veio um ano depois: convertendo-se ao surrealismo, ele pintou um quadro com técnica, proporções e, de certa forma, até tema classicista, como os nazistas gostavam. Mas o quadro é um comentário óbvio sobre a monstruosidade do nazismo, com demônios comendo as entranhas do guerreiro.

Selo de aprovação nazista

Mas então, o que Hitler considerava boa arte? Isto: 

Os quatro elementos, Adolf Ziegler / Crédito: Reprodução

O xará Adolf Ziegler era o favorito de Hitler. Pintava de forma realista, desenhando arianos perfeitos como acima. E foi chamado para colaborar com a perseguição aos modernistas, sendo um dos organizadores da mostra. 

Velho Casarão, Adolf Hitler, 1914

 

Quanto a Hitler, em pessoa, uma de suas maiores fraquezas sempre foi desenhar a forma humana. Seus quadros eram geralmente vazios ou com bonequinhos inexpressivos. Ele gostava muito de arquitetura e paisagens - e nem de longe atingia o fotorrealismo renascentista de seu xará e ídolo.