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1001 noites de Napoleão Bonaparte: A vida amorosa do líder francês

Em um período de dois anos, ele propôs casamento a pelo menos meia dúzia de mulheres — todas o rejeitaram

Lira Neto Publicado em 15/08/2019, às 08h00

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A bela e jovem Caroline, de 16 anos, filha de madame Grégoire Colombier, logo notou que aquele soldado miúdo, magricela e de uniforme amarrotado estava caído de amores por ela.

Mas, por ser tímido, envergonhado do sotaque estrangeiro e de seu mau francês, ele não tinha coragem de declarar-se abertamente. Resumia-se a acalentar em segredo uma paixão platônica, enquanto os dois colhiam cerejas no pomar da casa de campo da família dela, em Basseaux.

Caroline não podia saber, mas o rapaz ousava confessar seus sentimentos apenas para o diário, que mantinha trancado em uma gaveta no quartinho que alugara em Valence, a primeira cidade para onde fora mandado a serviço do exército francês.

“Sempre solitário entre os homens, volto para casa, para sonhar na solidão e entregar-me à força de minha melancolia”, escreveu ele. “Na verdade, o que faço neste mundo? Já que terei de morrer, não é mais lógico me matar?”, indagava-se, aos 17 anos, o tenente Napoleão Bonaparte.

Até então, o moço jamais experimentara o calor dos braços de uma mulher. Do primeiro flerte, ainda nos tempos de escola, não guardava boas lembranças. Os colegas de classe não lhe perdoavam as roupas desde sempre desleixadas e, muito menos, os olhares que lançava para a pequena Giacominetta, então sua companhia predileta nos intervalos do colégio.

“Napoleone di mezza calceta, fa l’amore a Giacominetta” (numa livre tradução, Napoleão de meias caídas, é amante de Giacominetta), tripudiavam os meninos, atiçando a ira do garoto, que respondia atirando-lhes pedras e os palavrões mais cabeludos do idioma corso.

O gato de botas

Napoleão nasceu em Ajácio, na Córsega, em 1769, exatamente quando aquela ilha, situada a oeste da Itália e antes pertencente ao estado genovês, acabara de passar ao domínio francês, após malograda tentativa de independência. “Nasci quando minha pátria estava morrendo”, diria ele mais tarde.

Aos 10 anos, o pai o enviou para estudar na França. Lá, teve que aprender a falar o novo idioma e viu-se obrigado a conviver com o povo que passara a dominar sua terra natal. A pele morena e mediterrânea causava estranheza entre os novos colegas. E seu nome, Napoleone, soaria para os ouvidos franceses como um irresistível trocadilho, la-paille-au-nez, ou seja, nariz de palha — o que, é claro, provocava inevitáveis gargalhadas na sala de aula.

Napoleão e Caroline / Crédito: Reprodução

 

Aos 15 anos, o jovem franzino foi admitido como cadete na Escola Militar de Paris, onde se formaria artilheiro em tempo recorde — dez meses, quando o normal seriam três anos.

Isso se deveu ao fato de o rapaz ter renunciado às tentações mundanas da cidade e mergulhado com afinco nos estudos do Tratado de Matemática, do professor Bezout, um cartapácio de quatro volumes, cujo conteúdo era a base do exame final para os aspirantes a oficial da artilharia. Resultado: aos 16 anos, Napoleão já envergava o garboso uniforme de tenente do exército francês.

Sujinho

Um tenente de maus modos, sempre com a gravata amarfanhada e cabelos gordurosos, notariam as moças casadoiras de Paris. Além disso, as botas negras e sujas pareciam grandes demais para aquele par de pernas finas e curtas, o que lhe valeria o apelido de Gato de Botas, dado por uma jovem amiga, a futura escritora Laure Permon.

“Sua pele era amarelada e parecia insalubre, os traços de seu rosto eram angulosos e marcados”, descreveria Permon em suas Memórias. Com tal estampa, não era de se admirar que o jovem oficial ainda não conhecesse os prazeres do amor.

Pelo menos até certa noite de novembro de 1787, quando uma das muitas prostitutas que borboleteavam nas imediações do famoso Palais Royal foi abordada por ele. O rapaz tinha 18 anos, mãos trêmulas e, a muito custo, depois de uma verdadeira sabatina — onde ela nascera, de onde viera, como perdera a virgindade — convidou-a para deitar-se com ele.

Para uma profissional do ramo, ficou óbvio que aquele primeiro cliente da noite, tão conversador quando desajeitado, tratava-se de um homem inexperiente. “Eu a aborreci depois, com minha insistência para que não fosse embora”, confessaria o próprio Napoleão, em tom acabrunhado, nas páginas de seu diário.

Gigante em combate

Em pouco tempo, nos salões parisienses, um dos assuntos prediletos era o de como aquele rapazote corso conseguira galgar posições tão rapidamente na hierarquia do exército francês. Em 1789, aos 20 anos, enquanto as massas tomavam as ruas de Paris durante a Revolução Francesa, ele pedira licença da corporação e voltara para sua terra natal.

Lá, aproveitara-se da atmosfera libertária que varria todo o país e liderara um movimento que elevou a Córsega, de simples região conquistada, à parte integrante daquela nova França que surgia sob novas cores, o vermelho, azul e branco da bandeira revolucionária.

“Foi ali que ele teve, pela primeira vez, a sensação de provocar acontecimentos, de fazer a História. Sensação totalmente nova, que o embriagou”, observa o historiador Max Gallo, autor da mais consagrada biografia de Napoleão.

De volta a Paris, foi promovido a capitão com apenas 23 anos de idade. Um ano depois, após comandar um ataque bem-sucedido às forças britânicas que dominavam o porto de Toulon, no sul da França, ganhou o posto de general de brigada. Foi a partir daquele combate que a soldadesca começou a reverenciar-lhe a audácia e a coragem.

Napoleão aos 23 anos de idade / Crédito: Wikimedia Commons

 

Contavam, com entusiasmo, sobre como ele ia à frente da tropa, exposto ao fogo inimigo. Mesmo após ter seu cavalo morto em batalha e ser ferido com um golpe de baioneta na coxa, havia continuado a lutar e, com a farda banhada em sangue, incitado seus soldados a seguir adiante.

Hábil estrategista, guerreiro arrojado, o baixinho parecia transformar-se, no ardor do combate, em um gigante de mais de três metros de altura. Sua altura podia estar na média para os cidadãos comuns na época, mas não era nada impressionante para um militar.

Sim, baixinho. Napoleão tinha cerca de 1,68 m, o que era perfeitamente na média para a época. Mas falamos da média dos civis. Essas dimensões o deixavam abaixo da altura mínima exigida para quase todas as posições de cavalaria, a ala mais prestigiada do Exército, que chegava a ser 1,79 m para os cuirassiers, a elite. 

Em um período de dois anos, propôs casamento a pelo menos meia dúzia de mulheres. Todas o rejeitaram. De nada adiantaram as aulas de dança, as lições de postura e os cursos de etiqueta que fez para tentar melhorar seu desempenho social na sofisticada Paris.

Faltava-lhe tato para abordar as eleitas. A sexagenária madame Montausier, dona de um teatro e de um bordel em Paris, foi uma das que o rechaçou.

Outra, a quarentona madame Permon, mãe da jovem Laure Permon, não conseguiu evitar uma gargalhada ao receber a proposta de ser conduzida ao altar pelas mãos de Napoleão, que além da deselegância habitual passara a sofrer também com a sarna, doença adquirida nos campos de batalha de Toulon. “Meu querido, falemos sério. Além do mais, tenho idade suficiente para ser sua mãe”, teria respondido a senhora.

Porém, naquela época, pelo menos uma donzela se apaixonou de verdade pelo general: Bernardine Eugénie Désirée, uma moça de 16 anos, “dona dos mais belos dentes que se pode imaginar”, segundo a descrição do próprio Napoleão.

Para a jovem enamorada, talvez ele parecesse tão atraente quanto sua figura apareceria nos cartazes do filme Désirée, o amor de Napoleão, produção norte-americana de 1954, com Marlon Brando no papel de um Bonaparte devidamente fabricado pelas lentes de Hollywood.

Contudo, para desgosto da jovem e enamorada Désirée, o romance não foi além. O pai dela, François Clary, um negociante de sabão, já havia concedido a mão da primeira filha, Julie, a José Bonaparte, irmão mais velho de Napoleão.

É verdade que o novo candidato a genro oferecia as credenciais de uma carreira militar em plena ascensão. Mas isso era muito pouco para o pai da garota, que almejava algo mais promissor do que ver outra de suas filhas casada com mais um imigrante. “Já basta um Bonaparte em nossa família”, sentenciou François Clary, insensível ás lágrimas copiosas de Désirée.

No altar com Josefina

Elegante, bem vestida e com uma aura de voluptuosidade explícita, Josefina de Beauharnais era a viúva de um visconde, morto na guilhotina durante o período mais sangrento da Revolução Francesa. Ao que consta, também já fizera muitos outros homens perderem a cabeça por ela. Entre eles, logo estaria também Napoleão.

Josefina de Beauharnais / Crédito: Wikimedia Commons

 

Para o general corso, casar-se com aquela dama, uma nobre representante do Antigo Regime, significaria um passo a mais na sua gradual inserção na sociedade parisiense. Aliás, já havia evoluído bastante nesse propósito: em 1795, ao ordenar que seus soldados disparassem contra uma multidão durante um levante, caíra nas graças do homem forte do regime, o conde de Barras.

Não demorou muito e, com 26 anos, Napoleão foi promovido a comandante geral do Exército do Interior. Em breve, suprimiria o u do sobrenome original, Buonaparte, com o objetivo de afrancesar-lhe a pronúncia.

Para a balzaquiana Josefina, pouco importava se o general era seis anos mais novo que ela. Calculou que um casamento com o prestigiado comandante geral poderia significar a garantia de bem estar para seus dois filhos, Eugène, de 14 anos, e Hortense, de 12.

Principalmente naquele instante em que Josefina afundava em dívidas e seu amante declarado, o poderoso conde de Barras, havia trocado-a por outra beldade, Thérésia Tallien, que se tornou célebre por seus relacionamentos amorosos com alguns dos homens mais influentes da França.

Para agrado de Josefina, o antes desleixado Napoleão passara a cuidar da própria aparência, mantendo os cabelos limpos e penteados, as roupas generosamente salpicadas com água de colônia.

Em março de 1796, os dois se casaram, tendo o próprio conde de Barras como padrinho. Na certidão, a noiva aproveitou e suprimiu dois anos à própria idade. Napoleão tratou de acrescentar dois à sua.

Entretanto, o casal mal teve tempo de aproveitar a lua-de-mel: dois dias depois da cerimônia, Barras enviou o general para uma missão de guerra, à frente do comando de um exército despreparado, para dar combate aos austríacos, no norte da Itália.

Enquanto Josefina permanecia em Paris, esbanjando fortunas em festas e recepções luxuosas, o marido enviava-lhe, diretamente do front, uma carta febril atrás da outra: “Beijo seus seios e mais embaixo, muito mais embaixo”, escrevia Napoleão, enquanto os canhões trovejavam ali perto.

A esposa lia as declarações de amor e de desejo, guardava-as no criado mudo e quase nunca as respondia. “Meu marido não me ama. Ele me idolatra. Creio que acabará maluco”, confidenciava ela às amigas e ao novo amante, o capitão Hippolyte Charles, um homem sedutor, de cabelos negros, olhos azuis e que, segundo Josefina, além de experiente nas artes do amor, tinha outra qualidade especial, que também faltaria a Napoleão: ele a fazia sorrir.

A enxaqueca do general

Josefina viu Napoleão regressar à França, em outubro de 1797, na condição de herói nacional. Após um ano de batalhas na campanha da Itália, o estrategista genial fizera os austríacos dobrarem os joelhos em derrotas humilhantes e sucessivas.

Em pouco tempo, Napoleão foi encarregado de comandar uma nova e ambiciosa expedição militar, desta vez para o Egito. De lá, pretendia alcançar a Índia, então uma colônia sob o domínio da Inglaterra, a nação mais poderosa entre os históricos inimigos da França.

A bela Pauline Fourès / Crédito: Reprodução

 

Mas, para Napoleão, no íntimo, toda a honra conquistada a ferro e fogo na Itália esvaeceu-se bem antes, quando em um dos intervalos da campanha ele constatou que a esposa, Josefina, não o aguardava em Milão, conforme havia combinado. “Depois de quase desmaiar de consternação, o homem que conquistou o norte da Itália caiu doente, com enxaqueca”, conta outro de seus biógrafos, o norte-americano Steven Englund.

"Dono e senhor"

No Egito, já consciente das traições de Josefina, Napoleão decidiu que era hora de dar-lhe o troco. Impressionou-se de imediato com a belíssima Pauline Fourès, 20 anos, que se disfarçara de homem para poder acompanhar o marido, um tenente da cavalaria, na campanha do Egito. 

Sem pudores, Bonaparte simplesmente despachou o tenente para uma outra missão militar e alojou a encantadora Pauline em uma casa bem ao lado do quartel-general. A jovem senhora não resistiu aos assédios do comandante em chefe das tropas. “Foi a primeira mulher com quem ele se comportou como dono e senhor”, atesta Max Gallo.

O general não fazia nenhuma questão de esconder o romance. Os próprios soldados passaram a tratar Pauline como a soberana do Oriente, a Cleópatra loura do general. Ela, por sua vez, sabia que nunca teria direito à exclusividade sobre seu amante.

Ao mesmo tempo, Napoleão manteve um caso com a filha de um xeique, a egípcia Zenab, que logo depois, quando os franceses deixaram o país após uma série de escarnecidas batalhas, teve a cabeça cortada como represália por sua união com o general inimigo.

A campanha do Egito não repetiu os mesmos êxitos obtidos na Itália. Encabeçando a lista dos maiores revezes, a frota de navios com bandeira francesa foi completamente destruída pelos ataques do almirante inglês Horatio Nelson.

Mas, para Napoleão, o pior golpe estava por vir. Repetindo a desfeita anterior, Josefina não cuidou de estar em casa para receber o guerreiro no retorno do campo de batalha. Bonaparte decidiu que o divórcio era a única saída honrosa que lhe cabia.

Desta feita, foi a vez de Josefina cair desmaiada. De joelhos, pediu perdão ao marido, que enfurecido trancou-se no quarto sozinho. Depois de muitas horas de súplica, Napoleão girou a chave na fechadura e deixou-a entrar. Abraçou Josefina e a perdoou. O general implacável, que comandava com pulso firme dezenas de milhares de homens durante os rigores da guerra, capitulou diante das lágrimas da mulher.

O harém do imperador

“Minha única paixão, minha única amante, é a França. É com ela que me deito”, proclamava Napoleão. Em breve, isso seria mais do que uma frase de efeito. Com o apoio do povo que o saudava como herói nas ruas, planejou e executou um golpe de estado que o levou ao poder, em 1799. Instituiu o Consulado, triunvirato exercido por ele e mais dois outros aliados de ocasião.

Não demorou muito e se impôs no lugar de primeiro cônsul. Estabeleceu uma nova constituição, amordaçou jornais, eliminou potenciais adversários. Para completar, determinou que seu poder passaria a ser vitalício. Em 1804, oficializou o que já era uma realidade: restaurou a monarquia e, aos 35 anos, tornou-se imperador da França. Josefina foi coroada imperatriz.

A coroação de Napoleão / Crédito: Wikimedia Commons

 

O todo poderoso Napoleão passara a ter um verdadeiro harém a seus pés. Ao lado de seu escritório, mandara construir uma alcova em que recebia as mais belas mulheres que seus assessores conseguiam encontrar nos salões da corte. Estas eram introduzidas no recinto com a recomendação de que o esperassem já sob os lençóis, completamente despidas.

Além das amantes fortuitas, houve também uma longa lista de casos bem mais intensos. Entre eles, o que manteve com uma famosa atriz de teatro, mademoiselle Georges, a quem apelidou de Georgina. A essa altura, Napoleão não era mais apenas um homem. Transformara-se em um mito.

Tanto que, quando o criado do palácio abordou Georgina pela primeira vez, ela ficou chocada, mas logo depois sentiu-se honrada com a proposta de visitar os aposentos íntimos do senhor mais poderoso da Europa, e, por consequência, de todo o mundo. “Mas continue a fazer cara de assustada, ele gostará disso”, sugeriu-lhe o criado.

Josefina sabia dos adultérios do marido, mas suportava em silêncio. Permaneceu assim, mesmo quando Napoleão mostrou-se sinceramente apaixonado por uma condessa polonesa de 32 anos, Maria Waleska, que foi encorajada pelos compatriotas — e pelo próprio marido — a seduzir o imperador francês.

O objetivo era claro: convencer Napoleão a restituir a independência da Polônia em relação aos russos, austríacos e prussianos, que então dividiam entre si as sobras do antigo reino que havia desaparecido desde 1795.

Maria Waleska, em nome da causa polonesa, aceitou. Entregou-se a um arrebatado Napoleão, que praticamente a violentou na primeira noite em que dormiram juntos. Nem assim ela reclamou. Pelo contrário, apaixonou-se por ele. Entregou-lhe o corpo. Depois, a alma. Chegaria a dar-lhe um filho. O que a imperatriz Josefina nunca conseguira fazer.

Até então Napoleão imaginava que a ausência de um herdeiro era decorrente de uma possível esterilidade da parte dele. Com o nascimento do filho bastardo, convenceu-se que poderia, sim, gerar um herdeiro legítimo para seu império.

O divórcio, a partir de então, era mesmo inevitável. “Continuo a amá-la. Mas a política não tem coração, só cabeça”, teria dito à esposa durante o último jantar, segundo registraria o barão de Bausset, autor de um livro de memórias sobre o tempo em que foi um bisbilhoteiro administrador do palácio real.

Maria Waleska e Napoleão / Crédito: Reprodução

 

“A imperatriz, naquela noite, era a imagem da tristeza e do desespero”, escreveria Bausset, que diz ter testemunhado os gritos lancinantes de Josefina, prostrada em um tapete diante do marido, chorando e gemendo, inconsolável.

Com base em documentos da época, a historiadora francesa Evangeline Bruce, autora de Napoleão e Josefina, espécie de biografia da relação amorosa do casal, reconstituiu a última cerimônia pública em que os dois apareceram juntos, na sala do trono.

“Com toda a disciplina de ferro da qual era capaz, Josefina estava determinada a ser lembrada para sempre como a mais encantadora, a mais cativante de todas as imperatrizes”, diz Bruce.

Diante dos súditos, Napoleão anunciou publicamente a separação.“Só Deus sabe o que esta resolução custou ao meu coração. Encontrei coragem para isto apenas na convicção de que minha decisão serve aos melhores interesses da França”, explicou ele, solenemente.

Josefina, por sua vez, esforçou-se para permanecer firme, mesmo na condição de esposa rejeitada: “Com a permissão de meu querido e augusto marido, ao acatar tal decisão, orgulhosamente ofereço a ele a maior prova de afeto e devoção jamais dada a um homem nessa terra por uma mulher”, disse ela, comovida, antes de entregar o resto de seu discurso de despedidas para que um ajudante de ordens terminasse de lê-lo.

O início do fim

Antes mesmo de divorciar-se de Josefina, Napoleão passara a procurar uma noiva de sangue real para dar-lhe um príncipe herdeiro. Encontrou-a na figura da arquiduquesa Maria Luísa, a filha do imperador austríaco, dona de um par de olhos protuberantes, andar desengonçado e lábio proeminente.

Napoleão não se importou. “Não é preciso que uma esposa seja uma mulher bonita. Já em relação a uma amante, é o contrário. Uma amante feia é uma monstruosidade. Faltaria a ela seu principal, ou melhor, seu único dever”, havia escrito, anos antes, em uma carta ao irmão José.

O casamento de Napoleão e Maria Luísa / Crédito: Reprodução

 

A união de Napoleão e Maria Luísa, celebrada em 1810, selaria um armistício entre adversários ferrenhos, Áustria e a França. Um ano depois, nascia François Charles Joseph Bonaparte, a quem por direito deveria caber o título de Napoleão II.

A chegada do menino fez Maria Luísa passar a reinar também sobre o coração do marido. “Tenho um filho. Sou um homem feliz”, escreveu Napoleão. Em carta aos parentes da Áustria, ela se mostrava igualmente contente: “Meu amor cresce a cada dia. Quando lembro da ternura que este homem me dedica, mal posso conter as lágrimas”.

Tudo parecia correr bem até que, em 1812, após um desastre militar sem precedentes frente aos russos, Napoleão viu seu idílio – e seu império – começar a ruir. Obrigado a bater em retirada na guerra que empreendera contra as tropas do czar e acossado pelo rigoroso inverno da Rússia, abriu o flanco para que seus inimigos aproveitassem a situação adversa.

Em 1813, Inglaterra, Prússia, Rússia e Áustria uniram-se e puseram por terra a hegemonia francesa na Europa. Na Paris sitiada, Maria Luíza foi obrigada a abandonar a cidade. “Impediram-me de encontrá-lo. Disseram que, se preciso, usarão a força para deter-me”, escreveu ela, desesperada, ao marido.

Enfim chegara o dia do guerreiro, até então invencível, provar o sabor amargo da derrota. Para ele, melhor pôr fim à própria vida do que suportar o estigma do fracasso. “A morte não é nada. Mas viver vencido e sem glória é morrer todos os dias”, sempre dissera. Tomou da pena e escreveu uma carta de despedida, antes de ingerir uma dose letal de veneno: “Você é quem eu mais amo no mundo. Minhas desgraças só me pesam pelo mal que fazem a você. Um beijo para nosso reizinho. Adeus, minha querida Luísa”.

O último desejo

Um acesso involuntário de vômito o manteve vivo. Assim, um alquebrado Napoleão foi obrigado a partir para o exílio na ilha de Elba, próxima a sua terra natal, a Córsega. Mais uma vez, não foi permitido que Maria Luísa o acompanhasse. Um ano depois, ele tentou retomar o trono e seus antigos domínios.

Durante cerca de 100 dias, ainda conseguiu manter seu objetivo. Chegou a invadir a Bélgica, mas foi derrotado por uma aliança anglo-prussiana na célebre batalha de Waterloo, em 1815. Forçado a abdicar pela segunda vez, amargou novo e definitivo exílio em Santa Helena, uma ilhota inóspita, quase perdida no meio do Atlântico.

Napoleão, que nascera em uma ilha, morreria naquela outra, em 5 de maio de 1821. Aos 52 anos, o velho general estava doente, obeso e deprimido. Como um de seus últimos pedidos, solicitou que, antes de lhe descerem à sepultura, durante a autópsia, arrancassem-lhe o coração e o enviassem a Maria Luísa.

No entanto, o administrador de Santa Helena, sir Hudson Lowe, não permitiu que o desejo do moribundo fosse cumprido. As ordens eram as de que Napoleão Bonaparte — vivo ou morto, o corpo inteiro ou qualquer parte dele — jamais deixasse a ilha.

Maria Luísa não recebeu o coração do marido. Em vez disso, tratou de preencher o próprio. Ao saber da morte de Napoleão, casou-se em segredo com o ajudante-de-ordens Adam Albert Graf von Neipperg, seu amante austríaco.


Saiba mais

Napoleão — Uma Biografia Política, Steven Englund, 2005
Napoleão, Max Gallo, 2004
Napoleão e Josefina, Record, 1996