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As memórias de Galisteu sobre o acidente de Senna: “Na minha cabeça, ele iria morrer de velhice”

Apresentadora namorava o piloto e ídolo brasileiro quando ele se envolveu em um acidente fatal no GP de Ímola, há exatos 28 anos

Fabio Previdelli | @fabioprevidelli_ Publicado em 01/05/2022, às 13h16

Ayrton Senna, piloto de Fórmula 1
Ayrton Senna, piloto de Fórmula 1 - Getty images com fundo freepik

Ainda hoje, Ayrton Senna é considerado um dos maiores esportistas brasileiros de todos os tempos. É praticamente impossível encontrar alguém que viu Senna disputar a maior categoria do automobilismo mundial e não se encantar com suas ultrapassagens ousadas. 

A importância de Ayrton se torna muito maior visto o contexto que a sociedade brasileira se encontrava na época. Recém-saídos de uma ditadura militar que amedrontou o país por mais de duas décadas, os brasileiros buscavam uma figura que pudesse simbolizar toda uma nação que tentava redescobrir sua identidade. 

Senna preencheu essa lacuna. Embora o futebol sempre foi a maior paixão nacional, o insucesso da Seleção brasileira, que viveu um jejum de 24 anos desde o tricampeonato mundial no México, em 1970, escancarou ainda mais a busca por um ídolo. Como de costume, o piloto ocupou essa posição mais alta do pódio. 

O piloto brasileiro  Ayrton Senna/ Crédito: Getty Images

Mas tudo mudou naquele 1º de maio de 1994. Após o tricampeonato pela McLaren nas temporadas de 1988, 1990 e 1991, Senna buscava lutar por mais um título da Fórmula 1, e via no Grande Prêmio de Ímola a chance perfeita de voltar a vencer, desta vez realizando seu sonho ao conduzir um carro da Williams. Infelizmente, jamais viu a bandeira quadriculada novamente. 

O final de semana mais triste da história da Fórmula 1

Ayrton faleceu no domingo, dia 1º de maio de 1994. Mas um presságio da tragédia parecia rondar o circuito de Ímola bem antes. Logo na sexta-feira, durante a sessão de qualificação da tarde, Rubens Barrichello, ainda em seu segundo ano na categoria, sofreu um impressionante acidente.

“Foi um final de semana caótico. Não foi só a corrida que foi caótica, foi todo o final de semana, que começou no treino quando o Rubinho bateu feio. O Rubinho era o menino dos olhos do Ayrton. Então, aquela batida do Rubinho mexeu profundamente com ele, e comigo também”, recorda a apresentadora Adriane Galisteu em entrevista exclusiva ao Aventuras na História realizada em 1º de maio de 2020, quando a morte de Senna completou 27 anos. 

Na época do acidente, os dois namoravam há cerca de um ano e meio. “Se você olhar o acidente, acho que o do Rubinho é ainda mais feio que a batida do próprio Ayrton. E o Rubinho acabou indo para o hospital, deu uma baita confusão”, recorda. 

Ayrton Senna e Adriane Galisteu em piscina/ Crédito: Divulgação/Revista Caras

Entretanto, não foi o único momento de tensão daquele Grande Prêmio. O clima ficou ainda pior no dia seguinte. Durante os treinos livres, austríaco Roland Ratzenberger, que corria pela Simtek, bateu violentamente na curva Villeneuve. 

Na volta anterior, Ratzenberger havia danificado a asa dianteira do seu carro e, posteriormente, a mesma se soltou, o fazendo perder o controle da Simtek — o que o fez bater violentamente em um muro.  

Segundo o portal Grande Prêmio, o impacto causou uma fratura basal craniana no piloto, que foi levado às pressas até o Hospital Maggiore de Bolonha. Porém, oito minutos depois veio a notícia: ele estava morto.

“O treino também teve o acidente do Ratzenberger, que acabou falecendo na pista. E como regra, isso é uma questão muito polêmica da época, morreu na pista, não tem mais corrida”, aponta Galisteu, que recorda que diversas vezes se especulou se o austríaco realmente tinha morrido apenas no hospital ou logo após o acidente, ainda dentro do circuito.

O fato é que o Ratzenberger, todo mundo que estava em volta, disse que ele não morreu no hospital, que ele morreu ali na pista. Então isso já ficou meio engasgado para o Ayrton, ele já estava tenso com essa questão do Rubinho e ficou ainda mais com o Ratzenberger”, aponta.

O perigo na largada

A perda teve uma enorme repercussão entre os pilotos, que cogitaram seriamente não correr naquele domingo, 1º de maio. A situação ficou mais dramática após, logo na largada, a Benetton de JJ Lehto não saiu do lugar e o piloto Pedro Lamy, da Lotus, o atingiu em cheio na traseira. O impacto fez com que um pneu se soltasse, atravessasse a cerca que protegia a pista e atingisse 4 espectadores, conforme informou matéria da Folha de S. Paulo. 

“No dia da corrida, no fatídico domingo, ainda teve na largada uma batida muito feia do Pedro Lamy, um piloto português, que bateu feio logo de cara. Então, a vibe daquele final de semana estava estranha. O Ayrton estava tenso”, relembra a apresentadora. 

Galisteu recorda que, momentos antes do início da corrida, a imagem de Ayrton com a mão no aerofólio de seu carro rodou o mundo. Muitos chegaram a dizer, depois do acidente fatal, que ele tivesse previsto a própria morte, algo que Adriane discorda: “Eu acho que ele estava pensando se ele correria ou não”.

Ela recorda, que antes desta cena, chegou a conversar com o piloto sobre a possibilidade dele abandonar a prova. “Eu falei pra ele no telefone: ‘Ayrton, só tem uma pessoa que pode acabar com essa corrida, que é você. Você pode, simplesmente, ter uma dor de barriga, estar indisposto’... “. 

Senna em sua McLaren/ Crédito: Wikimedia Commons

Mas ele jamais iria mentir. Imagina, ele jamais faria isso, mas eu tentei. Eu achava absolutamente provável ele acordar e pensar: ‘Eu não vou, eu não estou com uma sensação boa’, porque a gente estava comentando e vivendo essa vibe ruim daquele final de semana”, explica. 

No entanto, o ídolo brasileiro tinha uma preocupação ainda maior. O Grande Prêmio de Ímola era apenas o terceiro circuito do ano da Fórmula 1, mas Senna já o via como essencial, visto que nas outras duas provas acabou as abandonando antes do fim.

“Ele falou pra mim: ‘Mas se eu não corro, eu não vou pontuar. Desde a primeira corrida, eu ainda não consegui terminar nenhuma e isso é meu sonho. Eu preciso pontuar, senão eu não vou conseguir ser campeão no final do ano’”, diz sobre as expectativas de Senna para aquela temporada. 

Adriane conta que Ayrton, inclusive, tinha uma tabela com cálculos de quantos pontos ele precisaria fazer por corrida para alcançar o tetracampeonato. “Ele sempre iria encontrar uma justificativa para correr. Esse era o grande sonho da vida dele”. 

O acidente fatal

O acidente com Lamy fez com que o safety-car ficasse na pista até o final da quarta volta. Na sexta volta, Senna, que havia conquistado a pole e era o líder da prova, havia alcançado o melhor tempo da corrida.  

No início da volta seguinte, entretanto, ele perdeu o controle do carro, seguiu reto e bateu violentamente contra um muro na curva Tamburello. O impacto foi tão forte que o carro de Senna rodou e quase retornou para a pista.

“Quando eu vi a corrida e vi ele batendo o carro, eu desliguei a televisão imediatamente e fui tomar banho. Pensei: ‘ah, que bom. Ele vai chegar mais cedo em casa’”, diz a apresentadora sobre como enfrentou o acidente em um primeiro momento.

"Eu estava tão acostumada a ver aquilo acontecer que se tornou uma rotina que não me machucava mais. Não era uma coisa que me surpreendia tanto. Eu já tinha visto ele capotar em uma caixa de brita umas cinco vezes, cair de ponta cabeça, levantar e sair”, recorda. 

Eu já tinha visto batidas muito feias, a própria do Rubinho. Na minha cabeça, ele iria morrer de velhice. Ele não ia morrer fazendo aquilo que ele mais gostava de fazer. Então eu não dei a menor bola para aquele acidente”, conta. 

Na ocasião, Adriane estava na casa de Ayrton, no Algarve, em Portugal. Depois que entrou no banho, Galisteu recorda que a mulher que trabalhava na casa bateu na porta do banheiro a chamando desesperadamente. “Eu achei que ela tinha sido mordida pelo cachorro”.

Depois de abrir a porta, ela pediu para que a apresentadora ligasse a televisão, pois Ayrton havia se machucado. “Quando eu vi aquela cena, voltando e voltando, eu falei: ‘Juracy, que era o nome dela, eu acho que ele quebrou a perna. Porque tá muito parado essa perna. Eu acho que ele desmaiou’”, disse recordando da cena em que a cabeça de Ayrton pende para um lado. 

A Curva Tamburello, onde Senna bateu em 1994/ Crédito: Wikimedia Commons

De longe, uma câmera de TV flagrou Senna mexendo levemente a cabeça. Naquela altura, o mundo todo respirava aliviado imaginando que aquilo seria um sinal de que estava tudo bem com o brasileiro. Mas estavam enganados. O movimento havia sido causado por um profundo dano cerebral, conforme explica o Jornal do Brasil.

Eu tentei encontrar todas as desculpas que você pode imaginar. Na minha cabeça não passa a morte em hipótese alguma. Isso, pra mim, era inconcebível”, aponta Adriane.

A triste notícia

Até aquele momento, o mundo não sabia sobre a real condição de Ayrton. A apresentadora recorda que, em um determinado momento, Antônio Carlos de Almeida Braga, empresário e melhor amigo de Senna, ligou para sua esposa, Luíza, pedindo para que ela buscasse Adriane no Algarve. 

“Enquanto eu estava nesse processo, a Luíza já tinha ido para o Algarve de avião e de lá, pensei que nós encontraríamos os dois [Ayrton e o Braga] em Bolonha, na Itália”, diz.”Então eu fiz a minha mala e separei algumas roupas do Ayrton, como o pijama dele. Na minha cabeça, ele iria ficar alguns dias no hospital. Ele iria ficar internado por alguns dias”. 

Ao chegarem no aeroporto, quando estavam prestes a decolar, a torre de comunicação entrou em contato com o avião em que ela e Luíza estavam. “Parecia cena de filme”, aponta, dizendo que o piloto lhe informou que havia uma ligação para ela atender num determinado ponto do aeroporto. 

Adriane revela que pensou que do outro lado da linha conversaria com Ayrton, pedindo para as duas o esperarem em Portugal. “Eu saí do avião, eu estava normal. E me lembro de todo mundo me olhar com os olhos meio esbugalhados, meio assustados…”. 

“Até aquele momento, a notícia da morte do Ayrton não tinha saído em nenhum lugar”, recorda. “Eu atendi o telefone. Era o Braga. Ele me disse: ‘olha, não adianta vir pra cá. Vocês vão para minha casa em Sintra'. Foi quando eu o questionei. ‘Tem mil pessoas se acotovelando na porta do hospital, não vai funcionar vocês virem para cá’”, respondeu o fiel companheiro de Ayrton.

Equipe de resgate socorrendo Ayrton / Crédito: Getty Images

“Mas me diz como ele está. E o Braga respondeu: ‘Ele está morto’. Foi aí que eu tomei um choque muito grande. Até então, eu achava que esse tumulto de gente era por ele, mas não por… Quando ele falou, eu lembro que na mesma hora fez um silêncio na minha cabeça. Eu não sabia mais para onde eu ia, onde eu estava. Parecia que eu estava em câmera lenta”, recorda.“Essas três horas seguidas, eu não me lembro de quase nada. Aquilo me deu um choque tão grande”. 

Quando chegou em Sintra, Adriane conta o que lhe fez cair a ficha sobre a perda de Senna. “A primeira coisa que eu fiz quando cheguei em casa foi ficar vendo esse acidente atentamente, até eu me convencer de que aquela cabeça que eu achava que era um desmaio, não era um desmaio”.


Relembre a entrevista completa de Adriane Galisteu com a equipe do Aventuras na História: 


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