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Atacada pelas costas: a história de Kathrine Switzer, primeira mulher a correr oficialmente em Boston

Protagonista de um episódio emblemático do esporte feminino, a jovem quase foi arrancada à força de uma maratona, em 1967

Pamela Malva Publicado em 09/01/2021, às 08h00

Retrato de Kathrine Switzer com seus tênis e número de corrida em mãos
Retrato de Kathrine Switzer com seus tênis e número de corrida em mãos - Divulgação/Youtube

O número 261 parecia brilhar no peito de Kathrine Switzer naquele dia 19 de abril de 1967. Com um conjunto de moletom, a jovem esguia chamava atenção dos fotógrafos, que pediam que ela corresse mais devagar para que pudessem registrar o momento.

Parecia irônico uma mulher, naquela época considerada frágil, correndo na conceituada Maratona de Boston. Tida como uma prova masculina, a corrida era um teste de resistência e, na década de 1960, as mulheres não eram conhecidas por sua força.

Aos 20 anos, no entanto, Kathrine não se prendeu às frases sexistas que escutava em todos os lugares e apenas decidiu testar seus limites. Foi assim que, com um empurrão bastante emblemático, ela se tornou a primeira mulher a correr oficialmente em Boston.

Retrato de Kathrine quando ainda jovem / Crédito: Divulgação/Youtube

 

Do contra

Quando uma estudante de jornalismo alta, magra e entusiasmada chegou ao treinamento do time masculino de cross country da universidade, Arnie Briggs não acreditou no que estava vendo. Para o treinador, aquela parecia uma piada.

Estudando na Universidade de Syracuse, contudo, Kathrine não estava de brincadeira quando decidiu que queria correr. Foi seu pai quem a incentivou a ser protagonista da própria vida, quando a jovem ainda estava no ensino médio. E era isso que ela faria.

No ápice da adolescência, a garota contou aos pais que queria ser cheerleader. “Meu pai me olhou nos olhos e disse: ‘Você não quer ser uma cheerleader. Torcedores torcem por outras pessoas. Você quer é que torçam por você. A vida é participar, não assistir’”.

Kathrine ao lado de outros corredores / Crédito: Divulgação/Youtube

 

Contracorrente

Daquele dia em diante, a vida de Kathrine tomou outro rumo. Caminho este que desembocou diretamente nas aulas de Arnie Briggs. Para o treinador, todavia, “mulheres são muito frágeis para uma maratona”.

No total, a Maratona de Boston contava com 42.195 metros de uma pista dominada por homens. As mulheres, de fato, não eram proibidas de participar, mas existia um temor de que, se corresse, a competidora ficaria “com pernas grandes, teria bigode, pelos no peito e seu útero deixaria de funcionar”.

A sorte é que, para Kathrine, nenhuma dessas teorias fazia qualquer sentido. Por isso, ela não aceitou sua pressuposta definição de fragilidade e decidiu correr na prova mesmo assim, por mais que os outros olhassem feio para ela na pista.

Kathrine sendo interrompida por Jock / Crédito: Divulgação/Youtube

 

Momento de glória

Meses de um treinamento intenso se passaram até que a jovem jornalista finalmente se inscrevesse para a maratona. Com o nome K. V. Switzer, ela se tornou a primeira mulher registrada oficialmente na corrida — a norte-americana Roberta Louise já havia corrido antes e estava presente naquele dia em 1967, mas nunca formalmente.

Acompanhada pelo técnico e por seu namorado, Tom Miller, a jovem estudante pisou na linha de largada confiante. Logo nos primeiros três quilômetros da maratona, Kathrine sentia seus tênis contra o chão e, assim, soube que deveria estar ali.

De repente, seu ritmo de corrida foi interrompido. A jovem sentiu um choque contra suas costas e se assustou quando viu Jock Semple, o homem que comandava a prova, tentando arrancar o número de inscrição das costas da corredora.

Sequência de fotos de Arnie e Tom tentando impedir Jock / Crédito: Divulgação/Youtube

 

Momentos de fúria

Profundamente incomodado com a presença de uma mulher em sua maratona, o escocês perseguiu Kathrine por alguns metros. “Caia fora da minha corrida e me dê esse número”, ele gritava, para que todos ao redor pudessem ouvir.

O homem furioso apenas parou de persegui-la quando o namorado de Kathrine lhe deu uma cotovelada, derrubando Jock no chão. Depois daquilo, o organizador da prova — que ganhou uma categoria feminina em 1972 — nunca se desculpou com a jovem.

Para Kathrine, no entanto, foi o empurrão irritado do escocês que a fez correr com ainda mais vontade. “Ninguém acreditava que eu podia fazer aquilo e, de repente, percebi que, se eu não terminasse, as pessoas realmente acreditariam que as mulheres não mereciam estar ali”, contou a corredora.

Fotografias recentes de Kathrine correndo, aos 70 anos, e com seu livro / Crédito: Divulgação/Wikimedia Commons

 

Mudança de hábitos

A jovem estudante terminou a prova em 4h20min. Nascida na Alemanha e fã de J. D. Salinger e T. S. Eliot, ela descobriu que mudou o cenário do esporte feminino. “Não passo um único dia da minha vida sem agradecer a Jock Semple”, conta. “Ele me assustou e me enfureceu, mas também me inspirou”.

Aos 70 anos, depois de centenas de palestras contando sua história, Kathrine voltou a correr na Maratona de Boston. No dia 17 de abril de 2017, ela pisou na pista de largada mais uma vez, com o mesmo número usado em 1967.

“A corrida me deu a capacidade de arriscar, de enfrentar desafios. Cresci de maneira empoderada”, conta. “Quando as pessoas diziam que eu não teria uma oportunidade, eu dizia que criaria a oportunidade. Se não houvesse um time, eu criaria um time.”


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