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Átila Rohrsetzer, o primeiro agente que pode ser condenado por um crime cometido na ditadura

Antigo diretor da Divisão Central de Informações, Rohrsetzer é acusado pelo assassinato de Lorenzo Ismael Viñas Gigli — vítima da Operação Condor

Fabio Previdelli Publicado em 14/04/2021, às 14h12

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Imagem ilustrativa - Divulgação

No final dos anos 1960, um pacto firmado entre as ditaduras do Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Bolívia e Paraguai visava criar uma rede para troca de informações, presos políticos, técnicas de tortura e métodos para o assassinato de pessoas. 

Mais tarde, em 1975, essa aliança foi oficializada formalmente. Nascia ali a temida e brutal Operação Condor, que contava com o apoio dos Estados Unidos, que designaram o chefe do Departamento de Estado, Henry Kissinger, para comandar as operações no chamado Cone Sul.  

Cartum de Latuff representando a Operação Condor/ Crédito: Divulgação/ Carlos Latuff

 

Com a falsa desculpa de impedir uma 'revolução da esquerda' — assim como acabara de acontecer em Cuba e era tida como uma ameaça contra a hegemonia americana—, os norte-americanos participaram ativamente das mais brutais práticas nesses países, como mostra matéria publicada pela equipe do site do Aventuras na História

Apesar de, anos mais tarde, durante a gestão Dilma Rousseff, o Brasil criar uma Comissão da Verdade para investigar os crimes cometidos durante esse terrível período, nenhum militar foi juridicamente condenado por qualquer uma dessas práticas, como lembra o site do Instituto Vladimir Herzog. Porém, agora, isso pode mudar com julgamento de Átila Rohrsetzer

Quem é Átila Rohrsetzer? 

Hoje, aos 89 anos e já aposentado, Rohrsetzer tem uma vida tranquila no litoral de Santa Catarina, como conta matéria do El País. Porém, bem antes dessa calmaria, a saga de Átila foi marcada por acusações tenebrosas: como tortura, assassinato e ocultação de cadáver.  

Durante os anos 1980, ele atuava como diretor da Divisão Central de Informações (DCI) do Rio Grande do Sul. Por lá, como cita o El País, trabalhava em conjunto com as áreas de segurança e informações do III Exército e também em parceria do Destacamento de Operações de Informações — Centro de Operações de Defesa Interna, mais conhecido como DOI-CODI. 

Pelo que ele é acusado? 

Neste período, a Polícia Federal do Brasil organizou uma operação para prender o ítalo-argentino Lorenzo Ismael Viñas Gigli, com 25 anos na época, durante uma viagem de ônibus que saiu de Paso de Los Libres (Argentina) e chegou em Uruguaiana (Rio Grande do Sul), em 26 de junho de 1980.  

Estudante de Ciências Sociais em Buenos Aires, Gigli ingressou no movimento estudantil em 1969, segundo o Instituto Vladimir Herzog. No ano seguinte, se juntou à Juventude Universitária Peronista (JUP). Já em 1974, pouco depois de se casar com Claudia Olga Ramona Allegrini, acabou sendo preso por nove meses, ficando detido no Presídio Villa Devoto, na capital da Argentina.  

Ficha de Lorenzo / Crédito: Comissão Nacional da Verdade

 

Após ser solto, passou um tempo exilado no México antes de partir para o Brasil. Em 1979, finalmente, voltou à Argentina para lutar ao lado dos Montoneros, uma organização político-militar de esquerda. 

Porém, meses depois, em maio de 1980, acabou afastando-se da militância por conta do nascimento de sua filha. Sabendo que o cerco contra opositores se fechava a cada dia, fez um plano para se mudar para a Itália.  

Para isso, Lorenzo veio primeiro para o Brasil, onde se encontraria com a esposa e a filha no Rio de Janeiro, então, partiriam para a Itália. Porém, esse encontro jamais ocorreu, com Gigli sendo caçado antes. 

Mas o que aconteceu com ele? 

Os últimos relatos que se tem de Lorenzo, partiram de Silvia Noemi Tolchinsky, que esteve presa com ele no centro clandestino de detenção do Campo de Mayo, comandado pelo Exército Argentino, que ficava na região metropolitana de Buenos Aires.  

Segundo os relatos, ele ficou preso com grilhões e sofria constantes torturas. Depois de 90 dias, desapareceu do cativeiro sem deixar rastros. Uma das hipóteses mais plausíveis é que Lorenzo tenha sido vítima dos chamados voos da morte, prática comum dos militares argentinos em ações da Operação Condor.  

Ela consistia, basicamente, em levar prisioneiros em voos de avião ou de helicóptero até o alto mar, muitas vezes esse local era o Rio da Prata. Lá, já mortos, feridos ou ainda vivos, eram arremessados nas águas.  

Somente após 14 anos, Claudia recebeu notícias sobre o que aconteceu com seu marido. Conforme explica em entrevista à jornalista Mar Centenera, do El País, Gigli ficou quatro dias sob posse dos militares brasileiros, onde passou por sessões de interrogação e tortura antes de ser entregue aos argentinos. “Só consegui ler uma vez o relato [de Tolchinsky]. Ela escutou os gritos dele enquanto o torturavam. Viu ele acorrentado pelos punhos e tornozelos, estava todo gangrenado”. 

O julgamento e a possível pena 

Em 2007, a Justiça italiana aceitou um processo principal para investigar crimes cometidos contra cidadãos ítalo latino-americanos — o que inclui o desaparecimento de Lorenzo —, entre os anos de 1973 e 1980, no chamado Cone Sul.  

Ao todo, 146 pessoas foram denunciadas, sendo que 33 delas tornaram-se réus — o que inclui quatro brasileiros: além do já citado Rohsetzer, estão Carlos Alberto Ponzi (chefe da Agência do Serviço Nacional de Informações (SNI) em Porto Alegre); João Osvaldo Leivas Job (secretário de Segurança do Rio Grande do Sul, na época); e Marco Aurélio da Silva Reis (então diretor do Departamento de Ordem Política e Social, o Dops). 

Ambos foram acusados do assassinato de Gigli no âmbito da operação transnacional clandestina. Porém, como PonziJob e Silva Reis morreram durante o processo, apenas Átila se tornou réu de fato.  

Além de Lorenzo, a Comissão Nacional da Verdade o cita por crimes cometidos contra, pelo menos, outras oito pessoas, sendo duas delas ítalo-argentinos: além de GilgiHoracio Domingo Campiglia Pedamonti também foi uma de suas vítimas.  

Lorenzo Ismael Viñas Gigli e Horacio Domingo Campiglia Pedamonti/ Crédito: Divulgação

 

A participação de Átila Rohrsetzer na tortura e prisão de Lorenzo já havia sido reconhecida pelo Estado brasileiro em 2005, em sessão da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) e, posteriormente, em 2009, na 2ª edição do Dossiê Ditadura: mortos e desaparecidos políticos no Brasil (1964-1985), da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República. 

Com o julgamento na Itália, caso seja condenado, Átila poderá pegar prisão perpétua. Porém, como explica matéria do El País, “como o réu não se apresentou para ser julgado e o Brasil dificilmente extraditaria um cidadão próprio por causa de um crime praticado aqui mesmo, o resultado é simbólico”. 

Mesmo assim, a decisão seria histórica, já que Rohrsetzer, além de ser o primeiro brasileiro a ser levado ao banco dos réus por crimes relacionados à ditadura, também poderá ser o primeiro condenado por práticas feitas durante este período.  

“Esse caso pode significar a primeira condenação de um brasileiro por crimes praticados durante o regime militar em última instância, o valor disso é imenso”, diz o coordenador de Memória, Verdade e Justiça do Instituto Vladimir Herzog, Lucas Paolo Vilalta, em entrevista ao El País.


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