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Augusto dos Anjos: O poeta estimado pela morte, apadrinhado pela melancolia

O mesmo pessimismo que o fazia detestar a vida e ter pelo amor o mais profundo desprezo, não lhe impediu de lutar pela qualidade de ensino nas escolas públicas

M. R. Terci Publicado em 03/10/2019, às 07h00

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Augusto dos Anjos é diferente. Sua poesia tem um sabor novo, embebido de ancestral literalidade o que, a princípio, pode não agradar ao paladar de muita gente, mas depois de saboreada impregna a nossa razão, como a acre certeza de nossa mortalidade.

Essa sua condição de poeta diferente poderia ter levado Augusto dos Anjos a ser um dos autores mais estudados e discutidos de nossa literatura.  Tal, porém, não se dá. Poucos são os livros de estudo aprofundado e sério de sua obra.

Assim, penetrar com nosso olhar as lonjuras da alma do Poeta da Morte é sem dúvida uma aventura sob a mortalha densa e escura da história, por isso, meus bons, venham comigo, pelos caminhos mais escuros da história, comprovar a singularidade da linguagem e criação estética do mais original dos poetas brasileiros.

Augusto dos Anjos nasceu no bucólico Engenho do Pau D’Arco, na zona rural do município de Sapé, na Paraíba, onde existe hoje a Comunidade Usina Santa Helena que conserva o Memorial Augusto dos Anjos.

Segundo o seu biógrafo, Órris Soares, em Elogio de Augusto dos Anjos, o menino Augusto “Descia do Pau d’Arco, sombrio engenho de açúcar plantado na aba do Rio Una, vindo prestar exame no Lyceu”. Cursou a Faculdade de Direito do Recife onde se bacharelou em 1907, mas nunca advogou. Retornou para João Pessoa onde passou a lecionar português no Lyceu Paraibano e a dar aulas particulares de literatura brasileira.Casou-se em 1910, com Ester Fialho. Com ela teve três filhos, sendo que o primeiro morreu ainda prematuramente, havendo o poeta de lhe dedicar um soneto “ao primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos”.

Em 1910, devido a um desentendimento com o governador, Augusto foi afastado do cargo de professor do Lyceu. Muito embora não se tenha, ainda, a razão exata deste desentendimento, faz sentido supor ter tido origem em algum fato decorrente das medidas de João Lopes Machado, que governou a Paraíba de 1908 a 1912, e que atingiram diretamente a instituição de ensino.

Terrivelmente decepcionado com as políticas educacionais do Estado, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde ministrou literatura em diversos cursinhos. Lecionou Geografia na Escola Normal, depois no Instituto de Educação e no Ginásio Nacional. Em 1911 foi nomeado professor de Geografia, no Colégio Pedro II. Durante esse período, publicou vários poemas em jornais e periódicos.

Augusto dos Anjos / Crédito: Reprodução

 

Em 1912, Augusto dos Anjos publicou EU, com 58 poemas, que chocou pela agressividade do vocabulário e por sua obsessão pela morte. A esse tempo, Augusto declarou-se "Cantor da poesia de tudo que é morto" e durante muito tempo foi ignorado pela crítica, que julgou seu vocabulário mórbido e vulgar.

Em 1913, Augusto dos Anjos mudou-se para Leopoldina, Minas Gerais, onde assumiu a direção do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira, mas continuou também a dar aulas particulares de reforço, no intuito de suprir as muitas deficiências que identificava no ensino público. Em 1914, depois de uma longa gripe, foi acometido de pneumonia.

Augusto faleceu em Minas Gerais, em virtude dessa doença, no dia 12 de novembro de 1914. Fechou os olhos para o mundo, mas continuou vivo, tão vivo quanto no dia em que publicou o Magnum Opus da poesia simbolista. 

O epíteto de Poeta da Morte decorreu de sua poesia violenta, permeada por um profundo pessimismo e angústia moral, sua obra canta a miséria da carne, a efemeridade e em putrefação. Não amava a vida, tampouco tinha apreço pelo amor. Mas isso não lhe impediu de lutar pela qualidade de ensino nas escolas públicas.

Augusto dos Anjos estava no seu direito, melhor dizendo, em sua fatalidade.

Contra todas a chances, a obra de Augusto dos Anjos nasceu em uma época singular dentro da história da literatura brasileira, a chamada Belle Époque. Caracterizado pelo ecletismo, esse período foi como um eclipse dentro da literatura brasileira; não houve originalidade, nem quebra de velhos padrões, apenas reprodução do já existente, sendo imensamente suscetível aos modismos que vinham do estrangeiro.

A presença dessa frivolidade exacerbada e de um otimismo grosseiro em face da realidade, é que tornava a Belle Époque um ambiente tão pouco propício à originalidade, à ousadia e à iconoclastia.

Mesmo assim, veio ao mundo a obra de Augusto.

Inoportuna e extemporânea, não foi valorizada a esse tempo justamente por não ser o eco de sua época. Contudo, a individualidade multifacetada do poeta lhe dava autonomia para remar contra a maré e construir sua originalidade.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.