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Autora reflete sobre Antonia Brico: 'Acreditavam que era impossível uma mulher liderar a orquestra sinfônica'

Em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História, a escritora e roteirista Maria Peters, revelou como Brico tornou-se a primeira mulher a fazer sucesso ao conduzir uma orquestra

Victória Gearini Publicado em 21/03/2021, às 07h41

Antonia Brico, regente de uma orquestra sinfônica
Antonia Brico, regente de uma orquestra sinfônica - Wikimedia Commons

Considerada uma mulher pioneira e revolucionária, Antonia Brico se consagrou na história da música, ao se tornar a primeira musicista de sucesso a reger uma orquestra sinfônica. Embora todos os obstáculos e contratempos, a compositora enfrentou o machismo iminente na sociedade do século 20 e conseguiu se consagrar neste ramo da música.

Em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História, a escritora, produtora de cinema, diretora e roteirista holandesa, Maria Peters, revelou fatos pouco conhecidos sobre a renomada maestrina. Os relatos compõem o livro Antonia: uma sinfonia, de sua autoria.

“Há uma tendência contínua na história de esquecer as conquistas e a vida de mulheres importantes. Antonia nasceu na Holanda, mas ninguém em meu país a conhecia, ninguém tinha ouvido falar nela. Mesmo pessoas com grande conhecimento sobre o mundo da música clássica, desconheciam a existência dela. Eu acho que isso deveria mudar”, disse ela.

Mudança para os EUA

Nascida em 26 de junho de 1902, na Holanda, a musicista recebeu o sobrenome Brico de sua mãe biológica, Agnes Brico, uma católica romana. Contudo, a obra de Peters revela que a jovem foi rejeitada pela família, ao descobrirem que ela havia engravidado fora de um casamento. 

Antonia Brico, a grande maestrina / Crédito: Wikimedia Commons

 

Diante do sentimento de solidão, descritos com fatos instigantes na obra de Maria, ela encontrou refúgio no piano, que tornou-se o seu único consolo. 

“Os pais dela não gostavam de sua aspiração pela a música. Eles a desencorajaram, mas na escola, seus professores perceberam seu talento no piano e ajudaram-na até onde puderam. Contudo, eles não encorajaram seu plano de se tornar uma regente, pois acreditavam que era impossível uma mulher liderar uma orquestra sinfônica”, revelou Maria Peters.

A trajetória na música

Embora a sua memorável vocação, a compositora encontrou dificuldade em arrumar um emprego na área que sonhava. Isso porque, em 1926, a admissão de mulheres em conservatórios de música era algo incomum naquele período. 

Já aos 27 anos, a artista graduou-se como a primeira regente feminina da Academia de Música de Berlim.

"Naqueles anos, o mundo musical era uma indústria dominada pelos homens e simplesmente não havia regentes femininas. Ela literalmente teve que implorar por quase todos os shows que ela tão desesperadamente queria fazer. Foi uma das maiores tristezas de Antonia não poder fazer tantos shows quanto seus colegas homens”, ressaltou Maria Peters.

Na Alemanha, ela teve contato com o renomado e atraente maestro Karl Muck, que em um primeiro teve um certo conflito. Contudo, com o passar do tempo, a dupla acabou se apaixonando. 

“Convencido de seu talento, ele a apoiou muito. Durante sua carreira, ela se relacionou com pessoas importantes e muitas vezes ricas, sem hesitar em obter o apoio deles para seus planos. Por mais humilhante que isso possa ter sido para ela, Antonia acreditava que essa era a sua única chance de fazer concertos como regente”, explicou a autora.

Cena do filme Antonia Brico (2018) / Crédito: Divulgação 

 

Em 1930, estreou na famosa Filarmônica de Berlim. De acordo com a escritora, cerca de oito anos depois, a brilhante artista tornou-se a primeira mulher a reger a Filarmônica de Nova York. No entanto, ela nunca chegou a ocupar o cargo de regente-chefe, embora em 1941, a posição tenha sido prometida à ela. 

“No final das contas, a Orquestra Sinfônica de Denver não se atreveu a contratá-la, porque ela era uma mulher", disse Maria Peters.

O ilustre legado 

De acordo com a especialista, Antonia não foi a primeira mulher a conduzir uma orquestra, mas sim a primeira a fazer sucesso. Contudo, muitos músicos relutaram em tocar sob a sua regência. Mais tarde, muitos deles pediram desculpas e assumiram o grave erro que cometeram contra ela.

“Ver uma regente feminina no trabalho deve ter ajudado na aceitação de que as mulheres também são muito capazes de fazer o trabalho”, explicou a escritora. 

Enquanto escrevia o roteiro do filme sobre a artista, e mais tarde o livro, Maria Peters disse que ficou curiosa em saber quais sacrifícios a musicista teve que fazer quando era jovem. 

“Como ela lidou com o preconceito e a oposição? Eu estava interessada na luta que levou ao seu sucesso. Enquanto fazia minha pesquisa, tive grande ajuda do primo de Antonia, Rex Brico, que era jornalista e a conhecia muito bem. Ele me disse que a compositora desistiu de sua vida amorosa em prol de sua carreira. Eu queria que essa parte estivesse na história, porque mostra o conflito entre o que se espera das mulheres (casar e ter filhos) e o que acontece quando mulheres talentosas seguem sua paixão”, revelou a autora e roteirista.  

A produtora de cinema, disse, ainda, que durante a sua pesquisa sobre a vida e obra da homenageada, pôde perceber questões contemporâneas na música que ainda hoje atingem muitos profissionais do gênero feminino. 

“Ainda nos dias de é difícil para as regentes serem totalmente aceitas. Portanto, a mensagem de Antonia ainda é válida: não devemos fazer diferença, seja você um homem ou uma mulher, o que vale é que você seja um bom músico. Isso é tudo que importa, realmente”, concluiu Maria Peters.


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