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Aviadoras da Guarda Taman: As bruxas da Segunda Guerra Mundial

Formado apenas por mulheres, o 46º Regimento de Bombardeio da Guarda Taman derrotou inúmeros alemães na Crimeia

Beto Gomes e Joseane Pereira Publicado em 05/08/2019, às 21h00

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É inverno de 1943, e na costa do Mar Negro se arrasta uma noite fria. Em um acampamento russo, aviadoras do 46º Regimento de Bombardeio da Guarda Taman preparam-se para uma missão.

É a décima e última de uma noite que acumula 14 horas de voo e nenhuma de sono, em um pedaço da Crimeia que abriga algumas das batalhas mais violentas da Segunda Guerra. A investida alemã na vastidão da Rússia arrastava-se havia mais de dois anos. 

O objetivo das aviadoras naquela noite era apenas desviar a atenção e abrir caminho para as tropas da marinha soviética, incumbidas de desembarcar na costa e atacar por terra o exército alemão.

Crédito: Reprodução

 

Ao chegar à zona de combate, a tenente e comandante russa Nina Raspopova assistiu a tudo de sua cabine. Muitos de seus compatriotas foram descobertos e eliminados, e marinheiros sucumbiram nas águas gélidas do Mar Negro. E para ela, a noite apenas começava.

Nina fazia parte de um grupo especial de bombardeio, composto exclusivamente por mulheres durante o período em que esteve em operação, de maio de 1942 a maio de 1945. Formado por voluntárias que se alistaram logo no início da guerra, o 46º Regimento de Bombardeio da Guarda Taman operava sempre à noite, atacando posições alemãs como pontes, depósitos de combustível e munição, tropas e veículos de suporte.

Muitas delas jamais haviam tido o treinamento necessário, enfrentando ceticismo e preconceito dos homens e tendo que provar sua competência. Mas para isso, foi só questão de tempo.

Durante suas 1,1 mil noites de combate, as aviadoras do 46º realizaram mais de 24 mil ataques. Somavam um contingente superior a 200 mulheres, incluindo pessoal de terra, apoio e manutenção, das quais 30 morreram ao longo dos três anos em que o regimento atuou. As ações concentraram-se na Crimeia, mas a atuação do esquadrão espalhou-se por boa parte do front Leste e, durante a retirada alemã, empurraram os invasores de Varsóvia e viram in loco a vitória em Berlim.

Ao longo desse tempo, provocaram estragos importantes nas forças do Reich, conquistaram respeito e foram condecoradas. Temidas do outro lado do front, seu desempenho a eficiência de seus ataques lhes renderam o apelido de Bruxas da Noite (Nachthexen, em alemão), dado pelos próprios inimigos. Mas elas também pagaram um preço alto.

As Bruxas da Noite, Segunda Guerra Mundial / Crédito: Reprodução

 

Rotina estafante

A rotina das aviadoras era extremamente estressante. Por causa de seu tipo de missão, instalavam-se em regiões próximas do front, um desafio constante. Abrigos antiaéreos não existiam; elas erguiam pequenos aeroportos improvisados e muitas vezes passavam a noite inteira dentro das cabines, saindo vez por outra apenas para tomar chá.

O cotidiano ficava mais estafante quando, não raro, faziam reconhecimento e abastecimento de tropas durante o dia. Às vezes, piloto e navegadora caíam no sono durante o voo. Isso quando o medo, outro camarada inseparável, as deixava pregar os olhos.

A piloto Larisa Rozanova descreve a situação no livro In The Sky Above the Front (No Céu sobre o Front), editado por Kazimiera Jean Cottam: “Você acordava no meio do vôo e não sabia onde estava, tampouco o que estava acontecendo”.

A veterana Maria Smirnova também tem suas lembranças transcritas em A Dance with Death (Uma Dança com a Morte), de Anne Noggle:

“Nós enfrentávamos riscos todas as noites. Mas não interprete mal minhas palavras e pense que encarávamos a morte aberta e bravamente – isso não é verdade. Nós nunca nos acostumamos com o medo. Antes de cada missão e quando nos aproximávamos do alvo, eu me tornava um concentrado de nervosismo e tensão.

Meu corpo inteiro era tomado pelo temor de ser morta. Nós tínhamos que atravessar o fogo das baterias antiaéreas e escapar do foco dos canhões de luz que miravam o céu. Mergulhávamos e saíamos de lado para não ser atingidas. Tudo isso afetava meu sono enormemente.

Quando retornávamos de nossas missões, eu não conseguia cair no sono. Tossia na cama e tinha ataques de pânico. O medo era algo sempre inseparável de nossos vôos, mas nós sabíamos que tínhamos que fazer isso para libertar nossa Terra Mãe”.

Maria Smirnova em 1944 / Crédito: Reprodução

 

Meses depois, e em grande parte graças à ajuda das Bruxas da Noite, a região da Crimeia acabou livre dos invasores. Mas eles deixaram para trás um saldo de 15 mil civis mortos, 14 mil deportados e uma lista de atrocidades apresentada anos depois no Tribunal de Nuremberg.

Exército de saias

O 46º Regimento de Bombardeio da Guarda era um dos três grupos inicialmente formados por mulheres – porém o único exclusivamente feminino. Concebidos e criados por Marina Raskova, aviadora que antes da Segunda Guerra já recebera o título de Heroína da União Soviética, os três regimentos lutaram em diversas partes do front Leste.

Aviadoras como Liliia Litviak, do 586º Regimento de Caça, foram destacadas para sobrevoar Stalingrado e ajudaram o Exército Vermelho a impor a primeira derrota aos nazistas. O segundo grupo, o 587º Regimento de Bombardeio, comandando pela própria Raskova, teve um desempenho notável a bordo de seus aviões.

O 587º despejou 980 mil toneladas de bombas nos alemães em mais de 1000 missões. Os três regimentos de mulheres combativas receberam as mais altas honrarias do exército russo e 24 aviadoras receberam o título de Herói da União Soviética. Mas, vistas pelos inimigos, elas eram consideradas apenas bruxas.


Saiba mais:

Women in Air War: The Eastern Front of World War II, Kazimiera Jean Cottam (org.), New Military Publishing, 1997

Wings, Women and War: Soviet Airwomen in World War II Combat, Reina Pennington e John Erickson, University Press of Kansas, 2002