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Barba Negra: o icônico pirata estrategista, que nada tem a ver com a fama de sanguinário

O mais icônico dos piratas teve sua reputação revista: a fama de louco foi cuidadosamente cultivada por alguém, que, na prática, foi bem pouco violento

Marcelo Vieira Publicado em 15/12/2019, às 09h00

O icônico Barba Negra em obra de 1922
O icônico Barba Negra em obra de 1922 - Wikimedia Commons

No dia 22 de novembro de 1718, logo após o amanhecer, o Adventure, navio com que Barba Negra substituiu o seu lengedário Queen Anne’s Revenge, afundado meses antes, cruzou com duas bem equipadas chalupas, comandadas pelo tenente Robert Maynard, nas proximidades da ilha Ocracoke, no litoral da Carolina do Norte.

Sem interesse em confrontos com as forças da Coroa, Barba Negra sinalizou para que seguissem adiante. Mas, ao saber que ele era a razão da expedição militar, o capitão não recuou e desafiou os homens do rei: “Que se dane minha alma, se eu lhes der trégua ou  receber alguma de vocês!”, teria dito o pirata, conforme registrado no clássico História Geral dos Piratas, de Daniel Defoe.

Ele acabou vitimado por cinco ferimentos de balas e 20 golpes de faca e espada, após uma intensa batalha contra oito homens da Marinha inglesa. Desde então, sobram dúvidas e polêmicas acerca de Barba Negra e da sequência de acontecimentos que levaram à sua morte, das quais a verdadeira identidade do pirata, provavelmente nascido em Bristol, na Inglaterra, no ano de 1680, é uma das menos instigantes.

Sabe-se, por exemplo, que o seu nome era Edward, mas o sobrenome – que era grafado Teach, Thach, Thatch, Titche, dependendo da fonte –, provavelmente foi alterado. Uma prática comum entre os piratas nascidos em famílias com alguma posse, para evitar que recaísse sobre o clã o peso de ter um dos seus membros ligados à prática de crimes.

Dois livros ajudaram a aumentar o debate sobre o que é fato e o que é mito em relação a Barba Negra. O primeiro deles é o do historiador americano Kevin Duffus, Os Últimos Dias do Pirata Barba Negra, lançado em junho de 2013.

Polêmico, Duffus, que se apresenta como uma espécie de Indiana Jones da vida real, devido à sua paixão em solucionar enigmas históricos, usa boa parte de seu texto para endossar a tese de que o ato que resultou na morte de Barba Negra foi ilegal.

No livro, ele explica que a ordem para que o tenente Maynard capturasse, ou matasse, Barba Negra partiu do governador da Virgínia, Alexander Spotwood, que não tinha autoridade legal para ordenar ações na Carolina do Norte ou em qualquer outra das colônias.

Barba Negra em uma de suas muitas representações / Crédito: Divulgação

 

Na época, as colônias não apenas eram independentes umas das outras como obedeciam a diferentes modelos de governo. A Virgínia, por exemplo, era considerada uma colônia da Coroa, extensão do reino e governada pelas leis da Inglaterra. Já a Carolina do Norte, uma das mais pobres, era uma colônia proprietária, isto é, um empreendimento regido unicamente pelos seus lordes proprietários, que assumiam as despesas e ficavam com os lucros advindos de sua exploração.

Duffus vai além e afirma que a estratégia clara por trás do procedimento de Spotwood, com apoio de alguns fazendeiros locais – irritados com a concessão por parte do governador da Carolina do Norte do perdão pedido por Teach –, era a de demonstrar que o governo local era incapaz de proteger os seus colonos, o que resultaria na anulação da carta de cessão e no retorno da colônia às mãos da Coroa Britânica.

Para Duffus, a situação tratou-se de uma tentativa de “golpe de Estado” que fracassou.
Mesmo que se considere a opinião de Duffus exagerada, a polêmica acerca das ações de Spotwood ajuda a lançar luz sobre outro fato potencialmente controverso: a morte de Edward Teach trouxe prejuízos e pode ter sido lamentada em algumas partes da Carolina do Norte.

Isso porque o pirata fornecia a preços mais baixos os produtos que saqueava dos navios mercantes, o que, numa colônia tão pobre, era visto como um benefício (qualquer semelhança com o que ocorre nas periferias das grandes cidades brasileiras não é mera coincidência). Além do mais, uma possível “conversão” do Barba Negra à vida dentro da lei era vista como uma injeção financeira no mercado local, com base na crença de que o pirata já acumulava um grande tesouro, e como um reforço de homens durões e experimentados em combate na defesa da região contra possíveis ataques indígenas.

Essa popularidade em algumas vilas pode ter contado a favor do perdão e do restabelecimento de Barba Negra como um comerciante local, mesmo diante da hostilidade das províncias vizinhas, como a Carolina do Sul, Pensilvânia e a própria Virgínia, que haviam emitido ordens de prisão contra ele.

A boa vontade era tanta que, semanas depois, o próprio Charles Eden presidiu a cerimônia de casamento do capitão com Mary Osmond, sua primeira e única esposa. Para os inimigos de Barba Negra e Eden, rapidamente, a paz entre os dois evoluiu para um acordo que envolvia o repasse de objetos saqueados em troca de proteção.

Com ou sem acordo, a retomada dos saques a bordo do Adventure, ao longo do segundo semestre de 1718, enterrou de vez as possibilidades de um Barba Negra “arrependido” e aceito pelas outras colônias e pelos adversários do governador.

O outro livro que pode ajudar a entender um pouco mais sobre o universo de Barba Negra está longe de ser um lançamento recente. Na verdade, trata-se de fragmentos de Uma Viagem ao Mar do Sul e em Volta do Mundo, publicado pelo capitão Edward Cooke em 1712, encontrados nos destroços do Queen Anne’s Revenge.

Um achado raríssimo em destroços de naufrágio, se considerarmos as condições adversas para sua conservação. Raridade entre os piratas, Barba Negra sabia ler e escrever e, ao topar com o livro que descreve as aventuras de Cooke ao redor da costa da América do Sul, pode tê-lo considerado uma boa leitura para as muitas horas livres no mar.

Curiosamente, o livro de Cooke também conta o episódio do resgate de Alexander Selkirk de uma ilha no Pacífico Sul, na qual ele foi abandonado por quatro anos – uma história que inspiraria o romance Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, escrito no ano seguinte à morte de Barba Negra.

Outra curiosidade literária envolvendo o pirata é a presença de seu segundo em comando, Israel Hands, em outra famosa obra de aventuras: A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson. Na obra, Hands é retratado como primeiro companheiro de
pirataria de Long John Silver, o principal antagonista da história.

Autor de Blackbeard, America’s Most Notorious Pirate, o historiador Angus Konstam acredita que a descoberta não apenas pode ser um indicativo dos hábitos de leitura de Edward Teach como do interesse da própria tripulação, que, muitas vezes, pegava livros  durante os saques que perpetravam nas vilas litorâneas.

A condução

Falar de Barba Negra é, necessariamente, também se referir ao Queen Anne’s Revenge (“Vingança da Rainha Anne”), navio com o qual ele aterrorizou a região durante poucos mas intensos meses. Capturado pelo capitão pirata em novembro de 1717, o navio negreiro francês La Concorde, de 200 toneladas, capacidade para 75 tripulantes e que já contava com 16 canhões, foi reformado para que fossem acrescentados outros 40 canhões.

A rainha Anne em questão era a soberana inglesa durante o período em que Barba Negra serviu a Coroa como corsário, durante a guerra contra Espanha e França, e que se desenrolou principalmente em terras (e nas águas) americanas. O navio, por sua vez, foi capturado quando voltava de mais uma incursão ao porto de escravos de Whydah (Ouida, atualmente), na região onde hoje se situa o Benin, com uma carga de 516 africanos que seriam usados como mão de obra na Martinica, além de 20 libras (9 quilos) de ouro em pó.

Depois da batalha pela conquista do navio, Barba Negra deixou os escravos em terra, levou uma parte da tripulação e liberou os oficiais para partir em um navio menor, que eles renomearam Mauvaise Rencontre (“Mau Encontro”). Antes de voltarem para a Martinica, porém, os franceses recolheram novamente os escravos a bordo.

Com o Vingança devidamente aparelhado, Edward Teach deu o seu mais audacioso golpe: o bloqueio do porto de Charleston na Carolina do Sul. Durante uma semana, a frota do pirata, composta de quatro navios e 400 homens, se posicionou de maneira a capturar os navios que entravam ou saíam da cidade, saqueando-os.

Um dos pedidos do pirata para liberar o porto e os reféns tomados foi uma caixa de medicamentos, entregue alguns dias depois. Os dias de terror do infame navio, no entanto, não se prolongaram. No início de junho de 1718, ele encalhou e afundou na costa de Beaufort, na Carolina do Norte. Os restos da embarcação foram localizados quase 250 anos depois, em 1996.

Desde então, os pesquisadores encontraram, entre outros objetos, canhões, âncoras, barris de mosquete, instrumentos de navegação, pepitas de ouro, louça de estanho, um copo quebrado, parte de uma espada e, claro, os fragmentos do livro de Cooke.

Terror calculado

Uma das estratégias de Barba Negra para alcançar a fama – que ainda perdura, três séculos depois – foi a de parecer, de fato, temível. Ciente da importância da sua imagem para infundir terror em suas potenciais vítimas, ele não economizava na pirotecnia: muitas vezes, apresentava-se em batalha com fitas multicoloridas presas à sua barba longa e selvagem.

Algumas histórias contam que ele também prendia espoletas de queima lenta à barba e ao enorme chapéu que usava, permitindo que, no decorrer da luta, ele estivesse permanentemente cercado de fumaça, criando uma impressão de perpétua névoa ao seu redor e assustando os oponentes, que o comparavam a um demônio recém-saído do inferno.

No entanto, é pouco provável que isso seja verdade, considerando o alto risco de queimaduras no rosto que essa estratégia representaria. Possivelmente mais próxima da realidade está uma das representações mais conhecidas de Barba Negra, na qual ele aparece todo vestido de preto, com várias pistolas cruzadas presas ao peitoral.

Independentemente das proporções de mito e realidade, o fato é que essa fama, com o tempo, mostrou-se um excelente negócio: diante da abordagem de Barba Negra e de seus homens, as vítimas desistiam sem sequer lutar, numa excelente relação custo-benefício para o capitão pirata e sua relativamente reduzida tropa, causando menos danos aos navios capturados.

A baixa letalidade, segundo alguns historiadores, pode ser comprovada pela ausência de registros de mortes atribuídas diretamente a Barba Negra. Para a escritora Sarah Witfford, autora da série Aventuras de Adam Fletcher e descendente de uma família que vive há séculos na costa da Carolina do Norte, a imagem de um Barba Negra sanguinário faz muito mais sentido na mitologia hollywoodiana acerca dos piratas do que nas evidências de sua atuação na região.

Com sua reputação cuidadosamente construída, Edward Teach pode ter se tornado o pirata mais icônico de todos. Mas nem de longe foi um dos que mais lucraram com suas pilhagens. Para citar somente dois, Henry Avery, que capturou um navio com centenas de libras de ouro em 1695, e “Black Bart” Roberts, responsável pelo saque de centenas de
navios, mais ou menos na mesma época em que Barba Negra estava na ativa, tiveram resultados muito melhores do que ele.

Então, se existe algum tesouro que pertenceu a Edward Teach, ele se resume aos itens retirados dos restos do Queen Anne ’s Revenge, muitos deles de valor incalculável, mas não há qualquer evidência de que o pirata possa ter tido tempo e condições de acumular a quantidade de ouro e joias que os mitos fazem crer. E certamente não enterrou num baú na praia.

Por outro lado, apesar de seu desempenho financeiro relativamente modesto, o talento de Barba Negra para enfrentar batalhas e construir sua imagem de vilão terrível fez dele, se não mais bem-sucedido, certamente o mais famoso de todos os piratas que ainda povoam o nosso imaginário.


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Piratas no Brasil: As incríveis histórias dos ladrões dos mares que pilharam nosso litoral, Jean Marcel Carvalho França (2014)

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Barbarossa: o Almirante do Sultão, Pirata e Construtor de um Império, Ernle Bradford (2013)

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