Batalha de Ankara: Tamerlão vs Bayazid I

Senhor de um império quase tão vasto quanto o de Gengis Khan, que considerava seu antecessor, em 1402, o conquistador islâmico Tamerlão enfrentou a potência islâmica sob Bayazid I

sexta 20 julho, 2018
Batalha de Ankara: Tamerlão vs Bayazid I
Batalha de Ankara: Tamerlão vs Bayazid I Foto:Reprodução

No fim do século 14, o império bizantino era uma sombra do que fora um dia. Seu fim iria se concretizar com a queda definitiva da capital, Constantinopla, que desde 1394 sofria um bloqueio pelas forças do sultão Bayazid I. Mas, em 1402, o que parecia inevitável foi adiado por meio século. Não pela intervenção dos cristãos, mas pelo confronto do império otomano com Tamerlão, um conquistador das estepes que se julgava herdeiro de Gêngis Khan.

Surpresas, Constantinopla e a cristandade européia viram Bayazid mover suas forças para a Anatólia (a porção asiática da Turquia atual) para enfrentar um irmão de fé – Tamerlão também era muçulmano. Os limites de seus impérios vinham colidindo e a semelhança de suas personalidades, líderes implacáveis, agravava a situação. Durante dois anos, eles trocaram ameaças por emissários. O teor dessas cartas selou o confronto.

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“Tu obtiveras algumas vitórias sobre os cristãos da Europa porque tua espada fora abençoada. Tua obediência aos preceitos do Corão é a única coisa que nos impede de destruir teu país (...) arrepende-te, pois o trovão de nossa ira está suspenso sobre tua cabeça”, advertiu Tamerlão, em 1399. Bayazid, entre outras ameaças, violou o sagrado sigilo do harém: “Se tu não tiveres a coragem de me encontrar em batalha, talvez recebas tuas esposas depois de elas suportarem os enlaces de um estranho”. Era a guerra.

O Flagelo de Deus

Tamerlão (a corruptela de seu nome no Ocidente) era filho de um chefe tártaro – povo das estepes que fora subjugado pelos mongóis. Nascido ao sul de Samarcanda, no Usbequistão, em 1336, ele ficou conhecido como Timur-i-Lenk, Timur, o Manco (um acidente com um cavalo o aleijara). Líder nato, não só uniu os clãs tártaros como, por volta de 1380, já dominava a Transoxiana, região que compreendia partes dos atuais Usbequistão, Tadjiquistão e Casaquistão. Seu objetivo: reconstruir o império mongol.

Em 1394, ele avançou sobre a Pérsia. Em 1396, voltou-se para o Cáucaso, invadindo a Geórgia, Armênia e Azerbaijão. Alcançou Moscou, em 1398. No ano seguinte, chegou a Délhi, onde enfrentou os elefantes do Exército indiano com valas e uma carga de camelos, nos quais ateou fogo. Em 1400, tomou Alepo e Damasco, na Síria, onde usou os paquidermes, e ainda bateu a famosa infantaria mameluca egípcia. A Ásia Central era sua. A personalidade de Tamerlão era tão contrastante quanto sua trajetória de camponês a imperador. Enquanto derramava sangue por onde passava, incentivava a arte em Samarcanda, enviando para lá artistas e arquitetos das cidades invadidas. Suas campanhas eram típicas dos povos montados – o que não podia ser levado era queimado até as cinzas, e seus homens eram livres para massacrar e pilhar. Como Gêngis Khan e Átila antes dele, o tártaro foi chamado, entre outros epítetos, de Flagelo de Deus.

Em 1401, foi a vez de Bagdá ser devastada por suas hordas. Foram quase 100 mil mortos. Ali ficou famosa uma de suas práticas: torres e pirâmides de crânios cimentadas, um aviso a quem resistisse. O fato de o Islã proibir a guerra entre irmãos pouco dizia a ele, que via na divisão entre sunitas e xiitas sua justificativa (ele era xiita). Em 1402, aos 66 anos, Tamerlão partiu de Samarcanda para a Anatólia. Iria enfrentar Bayazid.

Estátua de Tamerlão em Samarcanda, no Uzbequistão Reprodução

O Relâmpago

O surgimento dos otomanos está firmemente ligado à ascensão e queda dos mongóis. Durante o século 13, a Anatólia recebeu povos de origem turca vindos da Ásia Central que fugiam do império mongol. Eram homens com os mesmos dotes, cavaleiros hábeis com o arco, com uma diferença: a fé no Islã. O declínio dos Khans no fim daquele século permitiu o progresso do império otomano.

A partir de 1360, com a submissão dos Bálcãs pelos otomanos, estes tomaram como tributo jovens cristãos levados como escravos e doutrinados no Corão e nas armas. Sérvios, búlgaros, albaneses e bósnios fizeram parte do que Murad I chamou de Yengi cheri, janízaros, ou novos soldados. Milícias altamente treinadas de infantaria, terríveis no campo de batalha e que livravam os muçulmanos da carga de lutar contra irmãos de fé. Bayazid contava com cerca de 40 mil janízaros. Os soldados escravos sempre existiram, mas um dos primeiros líderes a “recrutá-los” maciçamente foi o califa al-Mutasim, em meados do século 9º. Jovens não-muçulmanos eram trazidos – geralmente da Ásia Central – e treinados sistematicamente. Esses escravos foram chamados de mamelucos e alcançaram tamanho status que, a partir do século 11, exerceriam o poder de fato no Islã. Em 1260, um exército mameluco egípcio infligiu a primeira derrota campal a uma horda mongol. Foi na Batalha de Ain Jalut, próxima a Jerusalém Wikimedia Commons

Bayazid I era bisneto do principal chefe a unir clãs na fronteira com os cristãos, Otaman (daí o nome de seu povo). Os otomanos possuíam o status de ghazi, aqueles que praticavam a guerra santa (Tamerlão também receberia essa distinção) e, na segunda metade do século 14, tomaram de assalto os Bálcãs. Murad I, pai de Bayazid, chegou a formar um exército de jovens cristãos convertidos ao Islã, os janízaros.

Chamado de Ilderim, o Relâmpago, Bayazid assumiu o comando com a morte do pai na batalha do Kosovo, em 1389. Na ocasião, estrangulou o próprio irmão Iacub para evitar oposição. Logo depois, os califas (sucessores de Maomé) do Egito o declararam sultão (aquele que detém o poder). Imbuído da nova posição, ele tomou a Bulgária em 1393 e, no ano seguinte, iniciou o bloqueio a Constantinopla.

Em 1396, o rei Sigismundo da Hungria tentou detê-lo. Com um exército de 100 mil homens, os cruzados alardearam que, se o céu caísse, poderiam segurá-lo com suas lanças. Mas foi o sultão quem caiu sobre eles e massacrou-os em Nicópolis (Bulgária). Bayazid disse, então, que tomaria a Europa e alimentaria seu cavalo no altar de São Pedro, em Roma. Ele forçou posições na Macedônia grega (Grécia) e seguiu pressionando Constantinopla, até que o confronto com Tamerlão se tornou inevitável.

Batalha de Ancara

Com a intenção de lutar no coração da Anatólia, Tamerlão desviou sua rota pela Armênia e seguiu até Ancara, onde seu exército se posicionou. Bayazid, que o aguardava mais a leste, em Sivas, retornou furioso com seus soldados. No dia 20 de julho de 1402, as forças encontraram-se. O tártaro levara seus elefantes, que formaram uma longa linha, mas estes tinham mais uma função psicológica, infundir terror, que propriamente de combate. As formas de luta dos dois exércitos equivaliam-se e tornaram a batalha bastante renhida.

Após dispararem lanças e flechas, cada exército liberava uma carga de cavalaria. Tanto Tamerlão quanto Bayazid mostraram-se líderes atuantes em campo, mas pesou o fato de emires turco-otomanos que haviam perdido poder sob o jugo do sultão unirem-se ao tártaro. Os janízaros, em menor número, lutaram bravamente, mas foram encurralados pela cavalaria mongol. O sultão estava vencido.

Bayazid, então, teria sido levado para a tenda de Tamerlão para um jantar, no qual, entre as servas, estavam suas esposas. Depois, teria sido exposto pela cidade dentro de uma jaula. Lenda ou não, fato é que Bayazid morreria meses depois. O tártaro, ainda sob o ímpeto da conquista, tomou Esmirna (no leste da Turquia) dos cavaleiros de Rodes, mas fez acordos com os reis cristãos e poupou Constantinopla. Em 1404, retornou a Samarcanda, onde se preparou para uma nova campanha.

Pretendia tomar Pequim da dinastia Ming e restaurar o poder criado por Kublai Khan, neto de Gêngis. Viajando durante o inverno, Tamerlão morreu de febre no trajeto, aos 69 anos. Hoje, é um herói no Usbequistão. Com o fim da União Soviética nos anos 1990, a estátua de Karl Marx, em uma das principais praças de Samarcanda, foi substituída pela do tártaro. Um dos locais mais visitados da cidade é o mausoléu ricamente adornado onde estariam seus restos mortais.

A fúria conquistadora de Tamerlão, porém, não era seguida de dotes administrativos e seu império não resistiu a sua morte. Os otomanos, por sua vez, teriam outro destino. Após a derrota em Ancara, seus enfraquecidos líderes travaram sangrentas lutas internas, mas conseguiram se reerguer. Em 1453, 50 anos após a morte de Bayazid, seu bisneto Maomé II tomou, enfim, Constantinopla. Ela seria a capital do império otomano até 1922.

Bayazid I (1354-1403)

O sultão Bayazid I Wikimedia Commons

Quem foi: Sultão e bisneto do fundador do império otomano
Contingente na Batalha de Ancara: cerca de 90 mil homens
Baixas: cerca de 40 mil mortos e feridos
Após: Preso, ele morreria meses depois. Um de seus bisnetos, Maomé II, tomaria Constantinopla em 1453

Tamerlão (1336-1405)

Tamerlão, conquistador e líder tártaro I Wikimedia Commons

Quem foi: Líder tártaro. Considerava-se herdeiro de Gêngis Khan
Contingente na Batalha de Ancara: cerca de 150 mil homens
Baixas: cerca de 20 mil mortos e feridos
Após: Morreria três anos depois ao tentar reaver as conquistas mongóis na China

Saiba mais

Tamerlane: Sword of Islam, Conqueror of the World, Justin Marozzi

Douglas Portari


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