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Batalha de Antietam: Robert E. Lee x George B. McClellan

A vitória do Norte na Batalha, em 1862, causou a morte de 6.500 soldados e mudou o rumo da Guerra Civil Americana. O conflito opôs dois generais que já haviam lutado juntos

Douglas Portari Publicado em 18/06/2019, às 10h00

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Reprodução

Não foram poucos os casos de famílias e amigos divididos pela cruel Guerra Civil Americana (1861-1865). Ou ainda de antigos companheiros de armas, como os generais Robert Edward Lee e George Brinton McClellan. Dois homens de trajetórias parecidas. Formados na Academia Militar de West Point, oficiais veteranos da Guerra do México (1846-1848), engenheiros. Mas comandantes de temperamentos muito diferentes e, por fim, em lados opostos.

Lee, aos 55 anos, comandava os confederados do Exército do Norte da Virgínia. McClellan, 20 anos mais jovem, estava à frente do recém-reorganizado — e principal efetivo da União — Exército do Potomac. O confronto entre as duas forças aconteceu no Estado de Maryland, a apenas 110 quilômetros da capital do país, Washington, e fazia parte da primeira grande investida sulista em territórios do Norte.

A Batalha de Antietam, ou Sharpsburg, como foi chamada no Sul, ocorreu em 17 de setembro de 1862 e ficou marcada como o dia mais sangrento da história americana. Além da carnificina, o episódio teve repercussões políticas que mudariam o curso da guerra, como o anúncio do presidente Abraham Lincoln da Proclamação de Emancipação, que libertava os escravizados dos Estados rebelados e seria assinada em janeiro de 1863.

O confederado

Nascido em 1807 na Virgínia, onde seu pai, militar, fora governador, Lee fazia parte da aristocracia local. Em 1829, ao se formar em West Point, foi o segundo melhor aluno de sua turma, obtendo a patente de segundo-tenente de engenharia. Começava a carreira de mais de 30 anos no Exército.

Robert Edward Lee / Crédito: Reprodução

 

Durante a Guerra do México, ele seria promovido várias vezes por operações de reconhecimento e engenharia para o general Winfield Scott. Por brevês (no Exército americano, promoções temporárias de posto), chegou a coronel. Com o fim da guerra, voltou ao posto original de capitão. Em 1855, foi promovido a tenente-coronel e enviado ao Texas pelo então secretário de Guerra Jefferson Davis.

Em 1861, quando os Estados do Sul começaram a se rebelar, o comandante do Exército americano, Winfield Scott, trouxe Lee de volta à Virgínia. Quando seu Estado natal aderiu à causa sulista, Lee pediu exoneração, mesmo com a oferta do posto de comando logo abaixo de Scott. Na Virgínia, acabou por assumir o papel de general de brigada e assessor militar do agora presidente confederado Jefferson Davis.

Tido como homem afável, Lee não era um defensor da escravatura, mas possuía escravos e não aderiu à causa abolicionista. Como militar, ainda não era famoso, mas seu arrojo e competência logo seriam reconhecidos. Em junho de 1862, ele rechaçou a investida de McClellan à capital confederada, Richmond; e, em agosto, com a vitória na segunda Batalha de Bull Run, iniciou a campanha rumo ao Norte.

O ianque

Filho de um conceituado médico da Pensilvânia, McClellan nasceu em 1826. Um dos mais novos cadetes de West Point, aceito aos 15 anos, formou-se em 1846, como segundo melhor de sua turma. Serviu na Guerra do México como segundo-tenente de engenharia, mas chegaria a capitão (por brevês) por sua competência na construção de pontes e missões de reconhecimento.

Nesse período, trabalhou lado a lado com o então coronel Lee. Com o fim da guerra, tornou-se instrutor em West Point por três anos (algo que Lee também fizera), sendo enviado depois para a Europa como pesquisador militar, onde acompanhou a Guerra da Criméia (1853-1856).

George Brinton McClellan / Créditos: Reprodução

 

Em 1857, deixou o Exército no posto de capitão. Como civil e engenheiro-chefe da Estrada de Ferro Illinois Central, iria conhecer um advogado chamado Abraham Lincoln. Quando a guerra começou, em 1961, McClellan foi sondado por ambos os lados por seu expertise. Mesmo não sendo um abolicionista, ficou com a União.

Cativante e competente, McClellan ganhou a confiança do agora presidente Lincoln. Em 1861, como major-general, só estava abaixo do comandante Scott (chegou a sucedê-lo por poucos meses), e foi responsável pela criação e treinamento do Exército do Potomac. Mas o ianque não era unanimidade e seu excesso de zelo e falta de arrojo iriam lhe custar caro.

Novo encontro

Embalado pelas vitórias na Virgínia, Lee invadiu Maryland no início de setembro. Pretendia aproveitar o temporário desbaratamento do inimigo, ocupar um terreno cuja safra ainda não havia sido colhida e, em caso de vitória, fazer a Europa reconhecer a causa rebelde, talvez, até forçar o Norte a aceitar a paz. Mas McClellan surpreendeu-o, reorganizando seu exército em questão de dias, em vez de semanas.

O general sulista, que havia dividido sua força — 40 mil soldados — em dois exércitos, posicionou-se defensivamente em um campo em Sharpsburg. Lá aguardaria a volta do general Thomas ‘Stonewall’ Jackson, enviado para bater uma guarnição de 12 mil homens em Harpers Ferry para tomar a estratégica cidade na confluência dos Rios Potomac e Shenandoah, entre Maryland, Virgínia e Virgínia Ocidental.

Stonewall chegou a Sharpsburg em 15 de setembro, mesmo dia em que McClellan postou seus 86 mil homens na margem leste do riacho Antietam. O general ianque, que sempre superestimava as forças inimigas, tinha uma superioridade de dois para um, mas pecaria uma vez mais por falta de iniciativa. Planejava atacar em pinça, minar os flancos de Lee, e só depois avançar pelo centro.

No alvorecer de 17 de setembro, a batalha teve início. Durante 12 horas o exército confederado manteve-se a duras penas. No início da tarde, o general da União Ambrose Burnside conseguiu tomar uma ponte (que hoje leva seu nome) no flanco direito, mas não avançou. O centro do exército de McClellan nunca entrou em combate e a batalha terminaria no fim da tarde sem que as posições se alterassem.

Como saldo, quase 23 mil baixas. Na noite seguinte, Lee faria sua retirada para o Sul, de volta para a Virgínia. Como McClellan meses antes, ele também fora rechaçado, mas, para o general ianque, o que poderia ter sido a vitória que acabaria com a guerra, teve gosto de derrota. Lee voltou para sua terra natal para reorganizar seu exército, McClellan foi para casa aposentar sua espada. Criticado pelo congresso e às turras com Lincoln, foi apeado do comando. Antietam, porém, deu ao presidente força para afirmar que o Norte lutava não só pela unificação do país, mas pela liberdade dos negros também. Ao custo do dia mais sangrento da história americana.


Para saber mais

Landscape Turned Red: The Battle of Antietam, Stephen W. Sears, Mariner Books, 1993