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Belisário: O último romano

Esquecido pelo mundo e traído pelas pessoas mais próximas, o grande general lutou uma campanha para reconquistar o Império Romano. E quase conseguiu

sexta 4 maio, 2018
O general
O general Foto:Wikimedia Commons

Dono de uma das carreiras militares mais respeitáveis de todos os tempos, Flávio Belisário foi o responsável pela expansão do Império Romano do Oriente em meados do século 6º. Apagado dos livros de história, seu nome já foi temido e celebrado do Oriente Próximo até o norte da Itália. Suas táticas de guerra levaram-no a bater inimigos numericamente superiores. Foi assim contra o poderoso Exército da Pérsia na fronteira oriental e contra os vândalos do norte da África. Mas Belisário também era conhecido por sua sabedoria e lealdade a Justiniano, o imperador do Império Bizantino (como seria chamado o Império Romano do Oriente).

O senso de justiça do general também impressionava os adversários e ajudou-o a ganhar o apoio de povos subjugados. Como soldado romano, Belisário serviu na guarda pessoal do imperador Justino I e depois foi nomeado comandante pelo sucessor, Justiniano I. Era o começo de uma longa e vitoriosa sequência de batalhas, que culminaria com a anexação de um território equivalente a 45% daquele deixado por Justino.

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Na época em que Belisário assumiu o comando, o Exército romano já não desfrutava da mesma força de outros tempos. Tal cenário foi determinante para o estilo de luta de Belisário, que apostava em uma guerra de posições, de contragolpes e cercos intermináveis.

Astúcia

No ano de 530, a posição defensiva do Exército romano na fronteira com a Pérsia também não deixava alternativa. Pouco coesas e enfraquecidas, as tropas bizantinas limitavam-se a defender seus territórios. Mas a astúcia de Belisário revelou-se uma arma poderosa. Tanto que lhe permitiu entrar em terras inimigas e derrotar um exército de 40 mil homens com pouco mais da metade desse contingente. O feito aconteceu na Batalha de Daras e serviu para mudar os ânimos de seus comandados. Agora eles estavam preparados para uma investida maior.

Apesar de uma derrota para os persas no ano seguinte, na Batalha de Calínico, provocada pela insistência de seus homens em continuar lutando contra sua vontade, o moral de Belisário e seu exército não mudou. Tampouco alterou os planos de Justiniano. Uma longa expedição terrestre teria início para retomar as terras conquistadas pelos bárbaros no Ocidente. A marcha começou em 533 pelo norte da África, importante ponto de acesso para as rotas comerciais do Mediterrâneo, dominado pelos vândalos de Gelimer. Os romanos foram quase batidos, mas reconquistaram Cartago.

Os próximos a entrar no caminho do comandante foram os ostrogodos. A ordem do imperador bizantino para invadir a Itália veio em 535. Logo, a Sicília voltava para as mãos dos romanos. No ano seguinte, eles marchavam sobre Nápoles e Roma. Após rechaçar um contra-ataque dos godos, ele investiu contra Ravena, a capital dos ostrogodos. Antes de chegar lá, no entanto, o líder bizantino recebeu uma proposta inusitada: desistir da luta e tornar-se imperador do Ocidente. Aceitar era a forma mais fácil de entrar na cidade sem derramar sangue (uma opção sempre considerada por Belisário) e depois tomá-la em nome de Justiniano. Foi o que ele fez.

Desconfiado e invejoso do sucesso do general, o imperador chamou-o de volta a Constantinopla e enviou-o ao Oriente. Durante esse período, os ostrogodos retomaram o norte da Itália e chegaram a Roma. De volta à Europa, Belisário já não contava com o mesmo prestígio junto a Justiniano, e os reforços para recuperar a antiga capital escassearam. Sua breve passagem pela Itália acabou em fracasso e ele voltou para Constantinopla. Aposentou-se, mas ainda chegou a combater, com sucesso, uma invasão de povos eslavos – hunos, segundo alguns historiadores – em 559.


Cego de amor e de mentira

Belisário alimentava um amor incondicional por sua mulher, Antonina, e uma lealdade irrestrita por Justiniano, apesar do embaraço frequente que lhe causavam o tratamento nem sempre digno do imperador e os adultérios publicamente conhecidos de sua esposa. Em 562, três anos após sua última batalha, o general foi preso sob a acusação, provavelmente falsa, de conspirar contra Justiniano, o que abalou sua reputação.

Cego e na miséria Wikimedia Commons

No ano seguinte, perdoado pelo imperador, Belisário foi libertado e, finalmente, o deixaram viver em paz. Ele morreu em 565. A partir daí, muitas histórias e lendas sobre sua vida surgiram durante os séculos. A mais famosa (e apócrifa) conta que Justiniano mandou cegar os dois olhos de Belisário, para que ele morresse na miséria. Procopius di Cesarea, conselheiro do comandante em 15 anos de front, também ajudou a perpetuar ataques e ofensas ao general e sua mulher. Sua obra mais famosa, História Secreta, é uma vasta narrativa sobre a expansão bizantina, porém recheada de injúrias sobre os soberanos do império.


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Secret History, Procopius di Cesarea, Harvard University Press, 1935 

Beto Gomes


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