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Luís Carlos Prestes: O cavaleiro da esperança

Sobrevivente a prisão, exílios e vida clandestina. Conheça a vida de um dos mais influentes comunistas do Brasil

Leonardo Mourão Publicado em 10/08/2019, às 01h00

O cavaleiro da esperança
O cavaleiro da esperança - Reprodução

No início do século passado, os oficiais do Exército brasileiro sentiam-se incomodados com o que consideravam o descaso das forças dominantes do país, principalmente os grandes fazendeiros de Minas e São Paulo que dominavam a política e as grandes decisões nacionais. Esses arrogantes casacas, como eram chamados pelos oficiais, os mantinham longe do poder, pagavam-lhes baixos soldos e não forneciam os armamentos, equipamentos e recursos necessários a um Exército decente. 

Os mais indignados com tais privações eram os jovens tenentes. Na década de 1920, eles se rebelam — com manifestos, tiros e mortes — em várias ocasiões contra os casacas. O movimento, que seria chamado de Tenentismo, eclodiria, entre outros lugares, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Mas sua mais longa e radical manifestação se daria em 1925, no interior do Rio Grande do Sul. Dali, o então capitão Luiz Carlos Prestes dá início a uma marcha que se estenderia por mais de dois anos e percorreria 25 000 km pelo Brasil, quando receberia o nome de Cavaleiro da Esperança.

Mesmo derrotado, o Tenentismo se tornaria um dos mais influentes movimentos políticos do país no século 20. A relevância política de seus integrantes se prolongaria por quase 60 anos, praticamente até o fim do mandato do presidente João Baptista Figueiredo (1979-1985). 

E, entre todos os tenentes, o gaúcho Luiz Carlos Prestes despontaria como o mais amado e controverso personagem político da sua época. E seria, ainda, um dos que mais caro pagariam pela defesa intransigente que fazia das suas ideias políticas. Mesmo se ainda eram vagas, como quando, aos 27 anos, em marcha pelo país perseguido pelo Exército do então presidente Arthur Bernardes, alardeava propostas genéricas como a luta pelo barateamento da vida e melhor bem-estar para o povo. 

Crédito: Reprodução

 

Cinco anos mais tarde, exilado no Uruguai, o Cavaleiro da Esperança aprofundava-se no contato com o comunismo, postura ideológica que manteria até a sua morte, em março de 1990, aos 92 anos de idade, tornando-o o mais conhecido comunista brasileiro. 

O início 

Além da trajetória do homem político, o personagem de Luiz Carlos Prestes é notável. Nascido em 1898 em Porto Alegre, filho mais velho de um pai militar que tivera papel de destaque na proclamação da República, Luiz Carlos ficou órfão aos 10 anos, quando já morava com os pais no Rio de Janeiro. Sua família era de mulheres fortes, cultas e independentes para a época, conforme afirma no livro Luiz Carlos Prestes: Um Comunista Brasileiro a historiadora Anita Leocadia Prestes, sua filha, e em cuja obra grande parte desta reportagem está baseada. 

Sua avó materna, Ermelinda, iria mais de uma vez protestar diretamente às autoridades contra as perseguições políticas a seu neto. A mãe, Leocadia, e suas filhas o acompanharam aos vários países em que se exilou e, quando Prestes esteve preso (de 1936 a 1945), organizaram campanhas internacionais pedindo a sua soltura. 

A determinação obstinada que Prestes demonstraria em toda a sua vida já surgiu na época do Colégio Militar. Ali ele se formou com nota 10 em todas as disciplinas. Sua foto foi colocada no quadro de honra dos melhores alunos, mas retirada quando se tornou comunista. Aceito na Escola Militar de Realengo, também conseguiria as melhores notas da história da instituição, seguido de perto mais tarde pelos ex-presidentes Ernesto Geisel e João Figueiredo.

Formado engenheiro militar em 1920, Prestes começaria a ter contato com os primeiros sinais de descontentamento dos tenentes e aderiu às conspirações. Mas seria no Rio Grande do Sul, para onde fora transferido já como capitão, que ele participaria de um levante armado em solidariedade a tenentes rebeldes paulistas, que após o fracasso de um levante em 1924, estavam cercados no oeste do Paraná. Mesmo com poucos recursos e armas, Luiz Carlos Prestes organizou um grupo de 1,5 mil homens, a Coluna Prestes.

Durante dois anos e três meses, a Coluna driblou os inúmeros exércitos enviados contra ela. Aquela campanha inédita pelos mais remotos lugares do país tornou Prestes uma figura mítica, a respeito da qual corriam lendas: ele tinha o poder de ficar invisível e o corpo fechado. Os moradores das grandes cidades também vibravam com a figura do Cavaleiro da Esperança. Os jornais lhe dedicavam reportagens e editoriais. Publicações brasileiras e estrangeiras enviavam repórteres para entrevistá-lo. 

Depois do fim da Coluna, Prestes e a família seguem para a Argentina, onde ele continua a ser procurado por jornalistas e por políticos interessados em atraí-lo para a oposição ao então presidente Washington Luís. Emissários do PCB (Partido Comunista Brasileiro) chegam a convidá-lo a concorrer à Presidência da República pelo partido.

Mas sua relação com o PCB tinha altos e baixos. Os comunistas brasileiros temiam, escreve Anita Leocadia, que o peso político de Prestes pudesse ter demasiada influência sobre o partido e o acusavam de ser um pequeno-burguês, algo que hoje se traduziria como coxinha. Por outro lado, a proximidade com o comunismo provocou o rompimento com os antigos tenentistas. Prestes se viu isolado.

Mas sua sorte mudaria em pouco tempo. Obrigado a sair da Argentina, após um golpe militar, Luiz Carlos muda-se para o Uruguai, com a mãe, Leocadia, e as quatro irmãs. Com um emprego mal remunerado, sem poder voltar ao Brasil, onde os comunistas eram perseguidos, Prestes é convidado a mudar-se para a então União Soviética, em 1930, e vai para Moscou. O Partido Comunista da União Soviética o acolheria, o que daria um novo status àquele que se tornaria, em pouco tempo, o mais relevante comunista brasileiro.

A companheira

Apenas em 1934, o PCB, pressionado pelos soviéticos, concordou em receber Luiz Carlos Prestes em suas fileiras no Brasil. Declarado desertor do Exército pelo então presidente Getúlio Vargas, Prestes deveria entrar no país com passaporte falso. Para acompanhá-lo e montar o álibi de que ele viajava em lua de mel, o partido soviético designou a jovem comunista alemã Olga Benario para acompanhá-lo. Os dois deveriam seguir da França, de navio, até os Estados Unidos e de lá para o Brasil. Em meio ao Atlântico, Luiz e Olga se apaixonaram e tornaram-se de fato marido e mulher.

Prestes e Olga / Crédito: Reprodução

 

Mas o tempo tornava a se fechar no país. No início de 1935, forma-se a Aliança Nacional Libertadora (ANL), que congregava tenentes decepcionados com o governo, socialistas e comunistas. Prestes, vivendo na clandestinidade no Rio de Janeiro, é aclamado presidente de honra do movimento. A ANL, em novembro do mesmo ano, tenta um golpe para depor Vargas, que fracassa. Em retaliação, o presidente deflagra uma violenta onda de prisões. 

Prestes é procurado por toda a parte no Rio de Janeiro e é preso, no dia 5 de março de 1936, em companhia de Olga. Levados para a Delegacia de Ordem Política e Social, Prestes e Olga se veem pela última vez. Ele fica sabendo que a esposa está grávida por um bilhete que Olga consegue lhe enviar clandestinamente. Mais tarde, pela leitura de um jornal, toma conhecimento da deportação dela para a Alemanha nazista por ordem de Getúlio Vargas. Olga Benario seria assassinada em abril de 1942 em uma câmara de gás em Bernburg, na Alemanha. Prestes só saberia disso três anos depois, em julho de 1945, quando um repórter lhe entregou um telegrama confirmando a morte da mulher.

E 1945 foi um ano de grandes acontecimentos. Apesar de ter sido condenado a 30 anos de prisão, Prestes é libertado no mesmo ano. Em uma rara distensão política para os comunistas, o PCB é legalizado e em poucos meses passa de mil membros para mais de 200 mil filiados. E mais um acontecimento de profundo caráter emocional o aguardava. Em 28 de outubro, véspera da queda de Getúlio Vargas, Luiz Carlos se encontraria pela primeira vez com sua filha Anita, então com 9 anos, que vinha do exílio no México.

Mas, se a Segunda Guerra Mundial, que custara a vida da sua mulher e mãe de sua filha, havia acabado, começava a Guerra Fria, (1945-1991), período de tensão entre a então União Soviética e os países ocidentais, sobretudo os Estados Unidos. A época inauguraria uma intensa perseguição aos comunistas em todo o mundo ocidental, e o PCB não escaparia dela. Em 1947, o partido novamente é colocado na ilegalidade e todos os mandatos de seus políticos são cassados. Privados da imunidade parlamentar, os comunistas voltaram para a clandestinidade. 

Nova vida

Iniciava-se um duro período para Prestes. Conforme revelou para Anita Leocadia, os dez anos que se seguiram à volta da ilegalidade do PCB foram piores do que os nove anos em que esteve preso. Impedido de circular livremente, por estar vivendo clandestinamente, Luiz Carlos Prestes perde espaço dentro do PCB, que passa a ser controlado pelo secretário de organização do partido, Diógenes de Arruda Câmara. Sua personalidade disciplinada e a rigidez de seu caráter fazem com que Prestes se submeta a seguir as determinações políticas do Secretariado Nacional, embora raramente concorde com elas.

As atitudes de Câmara, explica Anita Leocadia, também fez se afastarem do PCB intelectuais e expoentes da cultura, como Cândido Portinari, Oscar Niemeyer, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Monteiro Lobato e Carlos Scliar, que eram simpatizantes da organização e sobretudo de Prestes. 

Mesmo que não fosse essa a sua intenção, Diógenes Arruda contribuiu para amenizar as agruras de Prestes quando resolveu encaminhar uma jovem militante, Maria do Carmo Ribeiro, filha de um antigo dirigente do PCB, para cuidar do aparelho (como os comunistas chamavam os locais usados como refúgio na vida clandestina) onde vivia Prestes. Em 1953, Luiz Carlos e Maria do Carmo se casam. Prestes, que se mantinha isolado desde a morte de Olga Benario, dizia sempre gostar de crianças, e do seu casamento com Maria do Carmo nasceram sete filhos.

Getúlio Vargas e Prestes / Crédito: Reprodução

 

O suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, trouxe uma profunda transformação na política brasileira. O país começava a se modernizar em um processo que se aceleraria exponencialmente no mandato de Juscelino Kubitschek (1956-1961). As novas estruturas econômicas que surgiram no período fizeram com que o PCB mergulhasse em uma profunda discussão interna a respeito da sua estratégia política, com o surgimento de divergências importantes.

O regime liberal de Juscelino permitiu que Prestes voltasse a se apresentar publicamente. Seu prestígio, inclusive internacional, ainda era grande. Prestes foi convidado para importantes viagens para fora do Brasil. Encontrou-se com Mao Tsé-tung nas comemorações do 10º aniversário da Revolução Chinesa; representou o PCB em um congresso internacional em Moscou; foi a Cuba em 1961 e 1963, sendo recebido por Fidel Castro.

O partido

Mas em casa, ou seja, no partido, as coisas não iam bem. No ambiente político conturbado que se abria no país com a sedução provocada pela revolução cubana, setores do partido e de outras organizações da esquerda começavam a rachar, dividir-se, dentro do PCB. Surgiram o Partido Comunista do Brasil, a Organização Revolucionária Marxista-Política Operária (Polop) e a Ação Popular (AP). Propunham a derrubada pelas armas do governo burguês e a implantação da ditadura do proletariado ou de um governo voltado ao interesse dos trabalhadores do campo, como fazia Francisco Julião, que lançava as ligas camponesas.

Luiz Carlos Prestes propunha a substituição do governo de João Goulart, que assumira a presidência no lugar de Jânio Quadros, que renunciara em 1961, por um governo nacionalista e democrático. Nada de ditadura do proletariado. Ele acreditava que, antes do triunfo da revolução socialista, o Brasil obrigatoriamente deveria passar por uma etapa nacional e democrática.

O acirramento das tensões políticas levaria João Goulart a ser deposto e obrigaria o PCB a, mais uma vez, refugiar-se na clandestinidade. As ditaduras militares que se seguiriam de 1964 a 1985 perseguiram, torturaram e mataram militantes de esquerda, em especial aqueles que haviam aderido à luta armada.

Prestes viveu escondido no Rio de Janeiro até 1971, quando exilou-se na União Soviética. Voltaria em 1979, mas suas divergências com a linha seguida pelo PCB provocaram seu afastamento da secretaria-geral e seu rompimento com o partido. Prestes ainda participaria dos movimentos políticos dos anos seguintes, pela Anistia e pelas eleições diretas e pelas liberdades democráticas. Nelas era recebido com carinho e deferência. Mas sua estrela já não brilhava como antes. Morreu em 1990, no Rio de Janeiro, aos 92 anos.

A coluna Prestes

Nunca houve na História do Brasil uma mobilização rebelde como a Coluna Prestes. Durante dois anos e três meses, o capitão Luiz Carlos Prestes esteve à frente de um grupo de militares rebelados do Exército Brasileiro que percorreu, algumas vezes a cavalo outras a pé, 25 000 quilômetros por 13 estados. O trajeto — tão extenso quanto uma viagem de ida e volta de Brasília ao Alasca — raramente foi feito por estradas. 

A caravana, chamada pelos rebeldes de Coluna Invencível, caminhava em ziguezagues e idas e voltas, abrindo picadas em matas fechadas, por dentro de rios, no meio da caatinga e do agreste. E quase sempre à noite. O cuidado era para evitar as tropas regulares do Exército que desde o início da Coluna — em dezembro de 1925, ao partir de São Luís Gonzaga, na região das Missões gaúcha, até quando essa abandonou a luta e se refugiou na Bolívia, em fevereiro de 1927 — mobilizou dezenas de milhares de soldados, canhões, metralhadoras pesadas, policiais militares estaduais, jagunços de coronéis nordestinos e até os cangaceiros comandados por Lampião.

Diante de um aparato desses, seus integrantes — que no auge da sua força contou com 1 500 homens armados com fuzis e pistolas — evitavam ao máximo o confronto direto. Priorizavam a guerra de movimentos, contra a estratégia do pesado Exército de tentar cercá-los e atraí-los para a luta aberta.

Os rebeldes tinham a seu favor uma organização semelhante a uma estrutura guerrilheira. Inspirados pela experiência dos gaúchos, àquela época envolvidos em várias escaramuças políticas, organizaram a tropa em pequenos grupos de até oito integrantes que preparavam sua alimentação e seu alojamento de maneira autônoma, deixando ágil a logística e o deslocamento. Da experiência guerreira gaúcha, também adotaram as potreadas — grupos que saíam, à vanguarda, requisitando cavalos e explorando o terreno. 

Com as potreadas, a Coluna sempre esteve à frente do Exército  no conhecimento das melhores rotas para fugas e emboscadas. Prestes e os seus homens resistiram a todas as investidas inimigas derrotando 18 generais enviados contra eles pelo presidente Arthur Bernardes. Saíram do interior do Rio Grande do Sul até próximo a Teresina, no Piauí, que por pouco não invadiram.

Com o fim do mandato de Bernardes, contra o qual a Coluna se mobilizara, o movimento se esvaziou politicamente. Os revoltosos retiraram-se para a Bolívia. Ali chegaram 620 homens, em andrajos, feridos e enfraquecidos. Mas não haviam sido derrotados, como afirmou à época o advogado Moreira Lima, que havia aderido ao movimento: “Não vencemos, mas não fomos vencidos”. Várias batalhas foram travadas com mortes, crueldades e fuzilamentos de ambos os lados. 

Em seu livro Luiz Carlos Prestes — Um Comunista Brasileiro, Anita Leocadia afirma que Prestes sempre tratou com mão de ferro os integrantes que saqueavam ou desrespeitavam os moradores das cidades pelas quais passaram. “Em alguns casos de maior gravidade, chegou-se ao fuzilamento dos culpados”, escreve a autora. Diz, ainda, que autoridades do governo semeavam o pânico entre os moradores com notícias falsas de que estes seriam brutalizados pelo movimento. A questão, no entanto, é polêmica.

Em 1994, a jornalista e autora Eliane Brum descreveu em seu livro Coluna Prestes — O Avesso da Lenda relatos de antigos moradores de pequenas cidades por onde a coluna passou sobre violências, como saques, estupros, assassinatos e destruição de casas por parte dos integrantes da Coluna.