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Bob Marley: 38 anos sem o rei do reggae

Ele revolucionou a música e influenciou corações e mentes de jovens do mundo todo

Sérgio Gwercman Publicado em 11/05/2019, às 18h00

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Getty Images

Protestos pela legalização da maconha. Manifestações em defesa da emancipação do Terceiro Mundo. Campanhas para promover o turismo na Jamaica. Passeatas antirracismo. Em qualquer dessas situações, é só procurar: em algum lugar você encontrará
uma imagem de Bob Marley, com seus longos cabelos e dreadlocks.

Trinta e oito anos após sua morte, o cantor jamaicano é um fenômeno polivalente. Seu rosto estampa de cartazes de protesto a camisetas vendidas aos montes em qualquer parte do planeta. Sua música urbana, denunciando desigualdades entre ricos e pobres, virou indispensável a jovens que viajam para a praia em busca de paz e tranquilidade.

E até o governo jamaicano, que antes fazia de tudo para esconder dos turistas os rastafáris com cabelos compridos, hoje imprime selos lembrando que o país é a terra natal do cantor. Para entender esse fenômeno é preciso escutar suas músicas, é claro. Mas também é preciso buscar em sua história, em sua biografia, os elementos que o transformaram num ídolo de milhões.

Robert Nesta Marley nasceu em 1945, em Nine Mile, um vilarejo rural onde sua família era dona de algumas terras. Cresceu sem conviver com o pai, Norval Marley, um branco
que trabalhava para o governo e engravidou Cedella Nesta quando ela tinha apenas17 anos. Norval casou-se com a menina apenas para abandoná-la um dia após a cerimônia
– antes mesmo que o filho do casal nascesse.

Casa de Marley em Nine Mile / Crédito: Wikimedia Commons

 

Quando Bob tinha 7 anos, Cedella pegou o menino e levou-o para viver num favelão de casebres minúsculos na capital, Kingston. Lá, o menino cresceu nas ruas, meio jogando bola, meio fazendo música numa guitarra improvisada com uma enorme lata de sardinha, uma vara de bambu e fios de cobre. Da mesma forma como ainda vivem
jovens como ele na Jamaica. O país quase não mudou nesse tempo todo.

Se dependesse da mãe, Bob seria um promissor soldador, operário da promissora indústria de autopeças jamaicana. Mas o adolescente estava mais interessado em tocar ska, o ritmo que fazia ferver a ilha (e as mocinhas) do Caribe. Em 1962 veio a primeira gravação em estúdio e pouco depois ele estava compondo e tocando com Bunny Livingston, um amigo de infância, e Peter Tosh. Juntos, eles formaram o grupo The
Wailers, que até conseguiu algum sucesso com músicas como Judge Not — o que de forma alguma pode ser confundido com dinheiro.

E foi a grana, ou a busca por ela, que fez com que Bob deixasse para trás o sonho, a música e a mulher Rita Marley, com quem acabara de se casar, e partisse para os Estados Unidos. Lá Bob apertou porcas e parafusos na linha de montagem da automobilística
Chrysler, foi ajudante de laboratório da química DuPont, dirigiu empilhadeiras no turno da noite num armazém e carregou bandejas como garçom de um restaurante. Mudou
de empregos com a mesma rapidez com que descobriu a falta de vocação para a indústria — trabalho braçal para ele era tocar violão.

Bob Marley em concerto em 1980 / Crédito: Wikimedia Commons

 

A aventura durou a maior parte do ano de 1966. E, enquanto ele tentava vencer na América, algo incrível acontecia em sua terra. A Jamaica recebia a visita de Hailé Selassié, que levou 100 mil pessoas às ruas da capital. Para os rastafáris, Selassié, rei da Etiópia, era Jah, ou seja, Deus. Sua presença foi o clímax de um movimento surgido no início do século 20 e popularizado por Marcus Garvey, um pregador que costumava dizer: “Voltem- se para a África, lá será coroado o rei negro. Ele será o redentor”. A coroação
de Selassié como rei da Etiópia, em 1930, foi interpretada pelos seguidores de Garvey como a confirmação da profecia e assim surgiram os primeiros rastafáris, que não passavam de alguns fiéis isolados em pequenas comunidades de pescadores.

Quando Bob voltou, Rita estava convertida ao rastafarianismo e ele também abraçou a religião. Com os 700 dólares que trouxe dos Estados Unidos, abriu uma loja de discos e voltou a cantar com os amigos do The Wailers.A banda tocava em Kingston e chegou a se arriscar na Europa (principalmente em Londres, onde havia uma grande comunidade jamaicana). Em 1970, durante uma dessas viagens, a gravadora Island Records lhes ofereceu um contrato. Eles aceitaram na hora.

Fizeram um ótimo negócio. “Chris [Blackwell, dono da Island] deu a Marley dinheiro e liberdade musical como ele nunca havia tido”, afirma o jornalista Ed Ward, autor História Ilustrada do Rock, publicada pela revista Rolling Stone. Os discos lançados pela Island
transformaram Bob numa estrela mundial. A maioria dos hits que Bob emplacou vem dessa época. Em 1974, Tosh e Bunny deixaram a banda.

Bob Marley & The Wailers ao Vivo no Crystal Palace Park, em Londres / Crédito: Wikimedia Commons

 

O sucesso deu-lhe fama e fortuna, mas suas opiniões políticas não arrefeceram. Juntando influências, Bob Marley foi construindo uma visão de mundo radical e própria. Escutava a esquerda, os movimentos negros americanos e os rastas mais velhos. Às vezes suas opiniões soam maniqueístas, especialmente ao falar das relações entre a elite de seu país (a minoria branca) e os miseráveis (a maioria negra). “Os ricos são assaltantes, ladrões puros. Os inteligentes e inocentes são pores e são esmagados e brutalizados”, dizia o cantor. Justo ele, que havia virado um milionário e vivia numa mansão comprada pela gravadora Island na área mais nobre de Kingston. O primeiro-
ministro morava na rua de cima.

A Island House, como a casa ficou conhecida, foi a meca do reggae durante quase uma década. Não bastasse servir de moradia para o maior nome do gênero, ainda reunia uma legião de amigos e músicos que gravitavam ao redor de Bob. Bunny “Wailer” vivia lá. Peter Tosh aparecia às vezes. Quando estava na Jamaica, Blackwell acampava na casa
da rua Hope. Inicialmente, os rastas mais antigos torceram o nariz para tanto luxo. Logo também eles começaram a passar horas, às vezes dias, no local, dividindo os jardins com algumas das mulheres mais bonitas da cidade. “Era uma comuna hippie não-dogmática,
com abundância de comida, erva, crianças, música e sexo informal”, escreve Timothy White em Queimando Tudo, a mais completa biografia do cantor.

Estátua de Bob Marley em Kingston / Crédito: Wikimedia Commons

 

Bob era capaz de conciliar a vida rastafári numa mansão tão bem quanto encarava a presença de suas amantes sob o mesmo teto que Rita Marley. O que ele queria mesmo era estar perto de Jah – cantar, fumar maconha e se aproximar da natureza. Bob tornarase um fervoroso rastafári.

No auge do sucesso surgiu a notícia de que ele tinha câncer. Pior: o tratamento recomendado ia de encontro aos preceitos do rastafarianismo e o cantor entregaria o caso para Jah. Houve pouca comoção, porque quase ninguém ficou sabendo do verdadeiro motivo da frágil saúde do jamaicano. Quando a gravidade da doença chegou aos ouvidos da imprensa, a vida de Bob já tinha data marcada para terminar. Aos 36 anos ele virou mito. Saiu da vida para enfeitar camisetas, cartazes em passeatas e campanhas de turismo. Não é para qualquer um.