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Brasil: Como as fake news ajudaram os republicanos a derrubar a monarquia

A falta de comunicação entre os escalões e fake news ajudaram na queda do império da família de Dom Pedro II

M. R. Terci - Coluna Publicado em 03/11/2020, às 15h45

Pintura - Proclamação da República, de Benedito Calixto
Pintura - Proclamação da República, de Benedito Calixto - Wikimedia Commons

As fake news não surgiram com a internet. O major Frederico Solón de Sampaio Ribeiro, governador do Mato Grosso em 1891, é o verdadeiro patrono das notícias falsas na política brasileira. Quem frequentava a Rua do Ouvidor – definida pelo historiador Anfriso Fialho como ‘coração e ouvidos do Rio de Janeiro’ –, no dia 14 de novembro de 1889, já sabia: a monarquia estava com os dias contados.

Era dificílimo diferenciar fatos de boatos. Informações desencontradas e sem nenhum fundamento circulavam livremente e Manoel Deodoro da Fonseca, por sua fidelidade a Dom Pedro II, era talvez seu destinatário mais improvável de todos.

Em 13 de setembro de 1889, Deodoro não era republicano e respondia asperamente ao sobrinho Clodoaldo da Fonseca: “República no Brasil é coisa impossível porque será uma verdadeira desgraça. Os brasileiros estão e estarão muito mal-educados para serem verdadeiros republicanos. O único sustentáculo do Brasil é a monarquia; se mal com ela, pior sem ela”.

Marechal Deodoro da Fonseca, o militar que proclamou a República / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em outra carta, recomendava: “Não te metas em questões republicanas, porquanto República do Brasil e desgraça completa é a mesma coisa; os brasileiros nunca se prepararão para isso, porque sempre lhes faltará educação e respeito”. Inobstante a intensa panfletagem republicana, a ideia da mudança de regime político não ecoava na cabeça de Deodoro e muito menos no país, tanto que na última eleição parlamentar realizada no Império, em 1889, o Partido Republicano só elegera dois deputados.

Assim, os republicanos pensaram em um golpe militar. Precisavam, todavia, de um líder de suficiente prestígio, para levarem a efeito o ato. No dia 14 de novembro de 1889, os republicanos fizeram correr o boato, absolutamente sem fundamento, de que o governo do primeiro-ministro liberal Visconde de Ouro Preto havia expedido ordem de prisão contra o marechal Deodoro. Aturdido com a falsa notícia, Deodoro aceitou participar da quartelada para derrubar o ministério do Visconde.

Dom Pedro II aceitou a demissão do primeiro-ministro e, após um desfile, Deodoro saudou as tropas aos gritos: “Viva Sua Majestade, o Imperador!” Para convencer Deodoro a virar a casaca, os republicanos valeram-se de outra notícia falsa. Enviaram um mensageiro a Deodoro, informando que o novo primeiro-ministro era um político gaúcho com quem o marechal não se dava por terem disputado o amor da mesma mulher na juventude.

D. Pedro II em imagem colorizada / Crédito: Creative Commons

 

De fato, Gaspar Martins havia derrotado Deodoro na disputa do coração de Ana Carolina Fonseca Jacques, a Baronesa do Triunfo. Contudo, Dom Pedro II nem sonhava em indicá-lo ao ministério. Mas isso bastou. O major Frederico Sólon de Sampaio Ribeiro, uma das lideranças do golpe republicano em andamento, era o responsável por espalhar os rumores na Rua do Ouvidor.

Mais tarde, foi também encarregado de entregar a d. Pedro II a ordem para o exílio da família imperial. Para bloquear o caminho do poder a quem lhe havia roubado o coração da amada, Deodoro traiu a longa amizade com o velho imperador e concordou em assinar os primeiros atos que estabeleciam o regime republicano e federativo.


O Colunista M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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