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Bridget Bishop: A bruxa de Salém

Neste dia, em 1692, Bishop era enforcada a mando da Justiça. Sua morte foi só o começo de um trágico episódio

Alexandre Carvalho Publicado em 10/06/2019, às 11h18

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Apontar feiticeiras entre pessoas de diferentes perfis era mais fácil quando ninguém sabia exatamente como eram esses seres. Se O Mágico de Oz, filme de 1939, popularizou a figura de rosto verde, nariz e queixo enormes, na interpretação magistral de Margaret Hamilton, os puritanos de Salem entendiam que qualquer pessoa – feia ou bonita, jovem ou velha – poderia ser uma bruxa.

Mas eles tinham algumas pistas. A feiticeira deveria ter uma marca no corpo indicando seu pacto antinatural com os maus espíritos. Podia ser uma verruga ou uma marca de nascença qualquer. Por isso, os juízes convocavam as parteiras da cidade para examinar o corpo nu das acusadas. Imagine a humilhação desse exame para mulheres puritanas.

Foi por esse teste íntimo e invasivo que passou Bridget Bishop, que teve seu corpo esquadrinhado, com as parteiras procurando mamilos de bruxa ou outros sinais. Acharam alguma carne estranha entre a parte pudenda e o ânus dessa mulher com mais de 60 anos. Talvez o diabo tivesse entrado por lá, pois era o suficiente para que Bishop deixasse a cadeia, onde estivera por seis semanas após sua primeira acusação, e fosse levada a um tribunal formal.

No julgamento para valer, Bishop foi acusada de todo tipo de comportamento mágico e maléfico. Parecia ter uma predileção por se materializar nos quartos e nas camas dos homens da aldeia, mas também faria maçãs voarem, atravessaria portas fechadas e, claro, torturaria as meninas adolescentes, ameaçando-as de morte. Um rasgo no casaco seria uma prova de que seu espectro teria sido apunhalado por um aldeão que tentava se defender.

Julgamentos em Salem / Créditos: Wikimedia Commons

 

Por mais que ela negasse tudo, as acusações se amontoavam e os jurados aceitavam vários testemunhos como provas definitivas. O veredicto não chegou a surpreender: “Por haver praticado bruxaria sobre cinco moças da aldeia em 19 de abril, e em diversos outros dias e lugares, antes e depois, considera-se Bridget Bishop culpada”.

Curiosamente, a ré foi condenada por ter enfeitiçado meninas que nunca vira antes, enquanto as acusações de feitiço sexual contra homens que ela de fato conhecia não contribuíram para a decisão –- o que comprova a força dos testemunhos das adolescentes.

No dia 10 de junho, a senhora Bishop foi conduzida por um percurso de 15 minutos, atravessando o centro da aldeia de Salem. Até que a procissão parou diante de uma plataforma rochosa. Lá em cima, um carrasco colocou um pano sobre sua cabeça e uma corda em torno do seu pescoço. E a empurrou na forca, para que o corpo ficasse suspenso no ar.

Bridget Bishop foi a primeira bruxa de Salem a morrer enforcada, a mando da justiça. Uma morte mais dolorosa do que podemos supor.

Nos enforcamentos que ainda acontecem em algumas partes do mundo, as pessoas caem de alturas significativas e o peso de seu corpo faz com que o pescoço quebre com a pressão da corda amarrada. Significado: uma morte instantânea. Horrível, mas uma morte mais humana – ou pelo menos mais rápida – que a das vítimas de Salem.

No século 17, as bruxas subiam poucos degraus de escada e eram empurradas com as pernas amarradas. Não havia impacto suficiente para quebrar o pescoço. Então, a cabeça se inclinava para trás e as vértebras daquela região do corpo se expandiam, mas os ossos permaneciam intactos. Significado: uma morte demorada.

Levava de dois a três minutos para que as vítimas dos julgamentos de bruxaria perdessem a consciência. Durante esse tempo todo, elas se debatiam, sentindo a asfixia... Ainda vivas, testemunhando a própria morte.