Facebook Aventuras na HistóriaTwitter Aventuras na HistóriaInstagram Aventuras na HistóriaSpotify Aventuras na História
Matérias / Entretenimento

A Cabana do Pai Tomás: Novela de 1969 gerou revolta por 'blackface'

Com ator branco retratando ícone negro, a obra foi alvo de discussão

Wallacy Ferrari Publicado em 18/05/2022, às 17h10 - Atualizado às 20h23

Poster de divulgação de 'A Cabana do Pai Tomás' - Divulgação / TV Globo
Poster de divulgação de 'A Cabana do Pai Tomás' - Divulgação / TV Globo

Em 1969, a TV Globo lançava uma de suas produções mais polêmicas da história; intitulada 'A Cabana do Pai Tomás', o título foi comparado com o clássico da Era de Ouro de Hollywood "...E o Vento Levou" — não apenas por contar com uma trama semelhante, mas por resultar em debates raciais que perduram até os dias atuais.

Sendo a última obra do núcleo de dramaturgia da emissora carioca sob o comando da cubana Glória Magadan, ela é inspirada no romance de mesmo nome da norte-americana Harriet Beecher Stowe que impulsionou o movimento abolicionista nos Estados Unidos. Contudo, a versão brasileira da história acabou gerando desconforto.

A história, que mostra a luta de um líder de escravos plantadores de algodão contra proprietários de terra sulistas enaltece o protagonista Pai Tomás como um dos maiores símbolos negros de esperança e resistência. O único problema foi a escolha de Sérgio Cardoso, um ator branco, para interpretar o protagonista.

Sérgio Cardoso caracterizado em 'A Cabana do Pai Tomás' / Crédito: Divulgação / TV Globo

Blackface 

Passado na época da Guerra da Secessão dos EUA, Cardoso não apenas dava vida a Tomás, como também aos personagens Dimitrius e o ex-presidente Abraham Lincoln.

Contudo, com Tomás, ele se caracterizava com uma pintura em marrom escuro pelo rosto e nas mãos, além de contar com uma peruca e rolhas para espaçar as narinas e deixar o nariz mais grosso, como revelou o portal Notícias da TV.

O ato de 'blackface' irritou a classe artística, ampliando o debate racial na época, inclusive com sugestão do ator, dramaturgo e ativista Plínio Marcos, que se manifestou contrário ao ato e sugeriu o nome do lendário Milton Gonçalves para viver o personagem.

O portal Notícias da TV acrescenta que, tentando reverter a revolta, Cardoso pediu desculpas e acabou piorando a situação com declarações para tentar contornar as acusações de racismo: "Tenho vários amigos de cor que são como meus irmãos. Tenho afilhados pretinhos que amo como se fossem meus filhos", justificou o ator.

No programa 'Na Moral', em 2014,  o diretor da novela, Daniel Filho, relembrou o episódio e a polêmica em torno da produção. "Ele fazia três personagens dentro da mesma novela. A ideia era a utilização do ator em múltiplos papéis e não um ator branco estar substituindo um negro. Por conta de ser uma trama, foi levantada a questão de por que um ator negro não tinha papéis de destaque".

Daniel também falou sobre a novela no livro 'Antes que me Esqueçam': "Dirigi A Cabana do Pai Tomás até tirá-la do buraco. Era muito ruim. O texto era inverossímil, as cenas absurdas".