Matérias » Crimes

Caça às bruxas no Brasil: o linchamento de Fabiane Maria de Jesus

Moradora do Guarujá foi brutalmente assassinada após ser confundida com suspeita de crime que nunca existiu

Fabio Previdelli Publicado em 06/04/2020, às 18h04

Fabiane Maria de Jesus foi brutalmente assassinada após Fake News
Fabiane Maria de Jesus foi brutalmente assassinada após Fake News - Divulgação

No dia 3 de maio, um sábado, uma confusão — somada a uma gritaria — tomou conta do bairro de Morrinhos, no Guarujá, cidade litorânea de São Paulo. Em meio a bagunça, muitas pessoas clamavam por justiça.

O alvo de toda a revolta era Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, que durante duas horas sofreu os mais diversos tipos de agressão: um verdadeiro linchamento a céu aberto. Após a sessão de tortura feita por populares, ela foi levada para o Hospital Santo Amaro, onde ficou constatado que Fabiane sofreu um traumatismo craniano — o que levou a sua internação em estado crítico.

Apesar dos esforços médicos, ela morreu dois dias depois. Além das mãos daqueles que clamavam por justiça, outro fator foi importante para o brutal apedrejamento de Fabiane: as fake news. O caso aconteceu em 2014, há pouco tempo é verdade, mas se nem hoje temos controle das notícias que circulam pelas redes socias, quem dirá em um tempo em que o termo ainda não era tão difuso assim?

A falsa notícia, publicada dias antes em uma página no Facebook chamada Guarujá Alerta, dizia que na região havia uma “mulher que estava raptando crianças para realizar magia negra”. Além da publicação, havia uma suposta imagem de um retrato falado feito da suspeita — atrelado a um crime cometido em 2012 no Rio — e a foto de uma mulher loira, que também não tinha ligação com o caso. Tudo isso seguido de uma frase: “se é boato ou não devemos ficar alerta”.

O fato é de que as duas fotos eram bem diferentes entre si e que nenhuma delas se parecia com Fabiane — que morreu por ser confundida com a suposta sequestradora. Se o linchamento já não fosse bárbaro o suficiente, ele fica ainda mais cruel porque o crime divulgado jamais existiu de fato: a polícia confirmou, posteriormente, que jamais houve quaisquer denúncias sobre os sequestros de crianças no Guarujá.

A vida de Fabiane

Nascida no Rio de Janeiro, Fabiane se encontrou com Jaílson, seu primo, no aniversário de 16 anos dela. Anos depois, eles se reencontraram no Guarujá. Três meses depois, eles estavam namorando e tiveram duas filhas: uma com 19 e outra de 5 anos — idades das garotas atualmente.

Jaílson disse que a mais velha é parecida com ele, mais calada. Já a caçula puxou a mãe. Muito mais solta e comunicativa. “Tive de colocar sozinho o barco para andar”, declarou o viúvo em uma entrevista para o G1.

Ele lembra de Fabiane como uma mulher “boa, extrovertida, alegra, que conversava muito e pegava amizade fácil”. Além de conversadeira, ela também gostava muito de fazer cursos: “hotelaria, tricô, informática, um monte deles”, explica.

Na casa da família, Fabiane já não está mais presente, pelo menos não em bens matérias. Suas roupas e objetos pessoais foram doados e Jaílson já estava namorando quando foi entrevistado — no final de 2018.

Apesar da tentativa de se reerguer, as filhas de Fabiane ainda sentem uma lacuna deixada pela mãe. A mais velha, que viu na internet as fotos da mãe espancada, não comenta sobre o assunto. A mais nova, que tinha apenas um ano quando perdeu a mãe, diz apenas que a matriarca está no céu.

Fabiane foi linchada após ser confundida com suspeita de crime que nunca existiu / Crédito: Divulgação

 

A única recordação de Fabiane é uma Bíblia antiga onde está marcado seu nome e telefone na contracapa. O livro Sagrado foi o mesmo que a dona de casa saiu para buscar no dia em que foi covardemente assassinada.

O crime brutal

Enquanto levava socos, chutes e todos os tipos possíveis de agressão, pessoas que viram a Bíblia nas mãos de Fabiane disseram que o livro era uma publicação de magia negra. Também foi falado que os santinhos, que eram usados como marca páginas, seriam fotos das crianças que ela havia sequestrado.

Não uma versão sobre como as agressões contra Fabiane começaram. Ao que tudo indica, pelo menos é a versão mais vinculada, é que ela encontrou uma criança no meio da rua e lhe ofereceu uma banana. A cena foi presenciada pelos pais da criança, que acharam a dona de casa parecida com a “Bruxa do Guarujá”.

A partir daí, eles avisaram um rapaz que já teria chegado batendo em Fabiane. Todas as informações obtidas pela polícia partem após o linchamento já ter sido iniciado. Mas isso não impediu que cinco homens fossem presos por participarem no bárbaro ato.

Corpo de Fabiane sendo levado por políciais / Crédito: Divulgação

 

Além da reclusão, uma pena máxima de 30 anos cada, também ficou determinado o pagamento de uma indenização à família no valor de 550 mil reais. Apesar da decisão, o pagamento desse valor é visto como “simbólico”, já que dificilmente os condenados terão condições de arcar com essa quantia.


+ Saiba mais sobre criminalidade no Brasil por meio das obras disponíveis na Amazon:

Crimes Que Abalaram O Brasil, de George Flávio (2007) - https://amzn.to/2T3W7M3

Crime, polícia e justiça no Brasil, de Renato Sergio de Lima (2014) - https://amzn.to/3c6MsNA

História dos crimes e da violência no Brasil, de Mary Del Priori (2017) - https://amzn.to/32mSy84

Justiça Infame: Crime, Escravidão e Poder no Brasil Imperia, de Yuri Costa (2019) - https://amzn.to/2v4Uztg

Vale lembrar que os preços e a quantidade disponível dos produtos condizem com os da data da publicação deste post. Além disso, a Aventuras na História pode ganhar uma parcela das vendas ou outro tipo de compensação pelos links nesta página.

Aproveite Frete GRÁTIS, rápido e ilimitado com Amazon Prime: https://amzn.to/2w5nJJp

Amazon Music Unlimited – Experimente 30 dias grátis: https://amzn.to/2yiDA7W