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Cadáveres jogados ao mar: os assombrosos voos da morte da Argentina

O método ficou conhecido mundo afora devido a brutalidade e o absurdo número de vítimas

Caio Tortamano Publicado em 09/03/2020, às 14h54

Imagem meramente ilustrativa
Imagem meramente ilustrativa - Divulgação

Em seu período mais sangrento, a ditadura militar Argentina ficou conhecida como A Guerra Suja. Durante esse período, que compreende de 1976 a 1983, foram utilizadas as mais atrozes formas de execução, perseguições aos opositores e o uso de torturas.

Um dos métodos mais perversos de execução se dava ao jogar detidos-desaparecidos de aviões em movimento no mar. Os apelidados voos da morte vitimaram cerca de 4.000 pessoas. As execuções ficaram conhecidas quando corpos chegavam às praias da Argentina.

Esses defuntos eram enterrados com a marcação NN (sem nome, em latim), mas, depois, laudos médicos de autópsia indicaram que esses corpos teriam morrido devido ao choque contra objetos duros desde grande altura. Esse fato levou a uma grande questão para as pessoas em volta da descoberta.

Os detalhes do procedimento foram detalhados por Adolfo Scilingo, um ex-repressor da Marinha argentina, em um livro intitulado O Voo. Na obra, Scilingo conta que os episódios foram comunicados aos militares poucos dias depois deles terem subido ao poder no país, e que o procedimento seria realizado sem uniforme.

Em aviões como esse, desaparecidos do regime militar argentino eram jogados / Crédito: Wikimedia Commons

 

Aparentemente, execuções por fuzilamento eram ruins para a imagem do país, e geravam muita repercussão, como foi com Pinochet, no Chile. Além disso, jogar os corpos ainda vivos em alto mar não ia contra nenhum preceito religioso, e eles se preocupavam em não ir contra a figura do Papa.

Foi deixado claro para os membros da marinha que os corpos seriam atirados em pleno ar. Os voos da morte foram amplamente utilizados em outros regimes, como na própria ditadura chilena. Um campo de detenção clandestino que coletava opositores ao governo argentino foi montado perto do aeroporto de onde os aviões saíam, justamente por comodidade.

Em 2004, o corpo de uma das pessoas encontradas nas praias e enterradas como indigentes foi analisada. A partir de minuciosa pesquisa, o DNA dessa pessoa foi dado como compatível ao de uma desaparecida.

Com isso, a Equipe Argentina de Antropologia Forense revisou os livros do cemitério do corpo e descobriram a identidade não somente da pessoa que estavam pesquisando, bem como de outros quatro desaparecidos na ditadura.

Três delas, Esther Ballestrino, María Eugenia Ponce, Azucena Villaflor, eram mães da Praça de Maio, que iam ao local para protestar e pedir para que seus filhos fossem localizados depois de sumirem na ditadura.

Os corpos das mulheres estão enterrados hoje em um memorial em homenagem ao movimento das Mães de Maio / Crédito: Wikimedia Commons

 

As vítimas foram sequestradas entre 8 e 10 de dezembro de 1977, e levadas para a unidade repressora do regime militar, a Escola de Mecânica da Armada. Elas foram torturadas durante 10 dias, levadas até o avião e jogadas em alto mar.

Devido ao enfraquecimento paulatino do regime militar, a guerra nas Ilhas Malvinas e a derrota dos argentinos foi o suficiente para que os militares perdesses força de vez. Depois de uma série de indicações, a primeira eleição geral elegeu Raúl Ricardo Alfonsín e, em 6 de dezembro de 1983, os militares saíram do poder.


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