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Calvin Graham tinha apenas 12 anos quando combateu na Segunda Guerra Mundial

Apesar de ter tapeado as autoridades, Graham falhou ao tentar enganar a própria mãe, que tomou uma atitude inesperada

Fabio Previdelli Publicado em 03/09/2019, às 17h00

Foto de Calvin Graham
Foto de Calvin Graham - Reprodução

Durante a Segunda Guerra Mundial não era incomum episódios em que alguns meninos mentiam sobre a idade para se alistar no exército. Somente os garotos de 17 anos — ou os de 16 que tivessem autorização dos pais — poderiam ser recrutados, por isso, muitos deles tentavam se passar por mais velhos. Mas será que um garotinho de apenas 12 anos seria capaz de tamanha façanha?

Pode até parecer loucura, mas foi exatamente isso que Calvin Graham fez. Após o ataque a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, ele sentiu a necessidade de se juntar às forças armadas. Considerado maduro para sua idade, o jovem nascido em Canto, Texas, em 1930, aparentava ser mais velho. 

Para driblar os traços da juventude, praticava incessantemente um tom mais grave em sua voz. Com 11 anos, começou a fazer a barba, esperando que isso o ajudasse a parecer mais adulto. O garoto já tinha pretensões de sair de casa, o pai era extremamente abusivo e sua pequena casa já não comportava muito bem ele e os seis irmãos. Assim, forjou a assinatura de sua mãe e foi ao escritório de recrutamento com outros dois amigos, de 14 e 15 anos.

Calvin Graham participou da Segunda Guerra Mundial quando tinha apenas 12 anos / Crédito: Reprodução


Vestido com as roupas do irmão mais velho, sua única preocupação não era a assinatura falsificada, mas o teste dentário que todos os candidatos eram submetidos. “Temia que ele saberia o quão jovem eu era ao analisar meus dentes, mas enquanto o dentista continuava dizendo que eu tinha 12 anos, eu insistia que tinha 17”, disse.

Com medo de ser barrado, revelou ao doutor que os dois próximos rapazes na fila da inspeção — seus amigos — eram menores de idade, com isso acabou passando. Calvin sempre acreditou que o dentista sabia a verdade, mas como ele próprio diz: “estávamos perdendo a guerra, eles precisariam de algum de nós”.

Para sua família, o jovem usou como pretexto que iria visitar parentes, assim ele largou a escola e partiu rumo a San Diego, onde recebeu treinamento naval. Cada dia que passava, só aumentava sua certeza de que os militares sabiam que ele e outros garotos eram menores de idade — eles frequentemente eram obrigados a correr quilômetros a mais e tinham que carregar pacotes mais pesados que os outros recrutas.

Para sua família, o jovem usou como pretexto que iria visitar parentes, assim ele largou a escola e partiu rumo a San Diego, onde recebeu treinamento naval / Crédito: Reprodução


Apesar de todo o abuso sofrido, o garoto chegou ao USS Dakota do Sul, um navio de guerra que trabalhou ao lado da USS Enterprise, no Pacífico. Apenas alguns meses depois de se juntar aos outros tripulantes, a embarcação foi atacada por oito contratorpedeiros japoneses, recebendo 42 ataques inimigos. Naquela noite, 38 marinheiros foram mortos e outros 60 ficaram feridos, entre eles, Calvin.

O jovem foi atingido por destroços que rasgaram sua mandíbula, o impacto o derrubou por três andares do navio. Mesmo ferido, conseguiu se levantar e, enquanto sangrava, ajudou outros membros da tripulação: “tirei os cintos dos mortos e fiz alguns torniquetes nos soldados feridos, dei-lhes cigarros e os encorajei a noite toda... Foi uma noite longa, mas o acontecimento me envelheceu demais”.

Devido aos diversos ataques, a marinha japonesa acreditava ter afundado o USS Dakota do Sul e se retirou do combate. Como consequência, o navio americano conseguiu retornar silenciosamente ao estaleiro da Marinha do Brooklyn.  Com a chegada ao porto, toda a tripulação sobrevivente foi condecorada por sua bravura.

Apesar de todo o abuso sofrido, o garoto chegou ao USS Dakota do Sul, um navio de guerra que trabalhou ao lado da USS Enterprise, no Pacífico / Crédito: Reprodução


Calvin recebeu uma Estrela de Bronze por se destacar em combate e um Coração Púrpura por seus ferimentos. Ao assistir o noticiário na TV, sua mãe o reconheceu e rapidamente entrou em contato com a Marinha, que foi informada sobre a real idade do garoto.

Os militares rapidamente agiram, suas medalhas foram retiradas e ele foi encaminhado para uma prisão militar do Texas. Durante o encarceramento, conseguiu enviar uma mensagem para sua irmã, que de prontidão escreveu aos jornais locais informando que a Marinha estava aprisionando uma criança veterana de guerra. Diante da repercussão negativa, ele foi liberado e suas honrarias foram retiradas.

Ao voltar para Houston, foi recepcionado como herói, mas o momento de celebridade logo passou. Lutou para voltar para a escola, mas estava muito atrás de outras crianças de sua idade. Casou-se jovem, com apenas 14 anos. Um ano depois já era pai, dois anos após já estava divorciado. Sua vida resumiu-se em vender assinaturas de revistas.

Medalha de Coração Púrpura / Crédito: Reprodução


Quando Jimmy Carter foi eleito, em 1976, Calvin escreveu à Casa Branca sobre sua experiência, na esperança que seu companheiro da Marinha fosse solidário. Ele ouviu falar sobre um programa de dispensa para desertores — já que acreditava se encaixava no programa melhor do que qualquer um.

Dois anos depois o presidente lhe concedeu seu desejo. Calvin foi liberado da obrigação militar e seria recompensado novamente com uma de suas medalhas, a Estrela de Bronze. A medalha de Coração Púrpura só foi concedida à sua família em 1994, dois anos após seu falecimento.