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Câmera e coragem: A saga da idosa que desafiou o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, em 2005

Com 80 anos, a aposentada ajudou a prender mais de 30 pessoas e sua história virou livro

Larissa Lopes, com supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 02/02/2021, às 21h00

Foto de capa do livro "Dona Vitória da Paz", de Fábio Gusmão
Foto de capa do livro "Dona Vitória da Paz", de Fábio Gusmão - Divulgação/Amazon

Há 17 anos, da janela de um apartamento conjugado, a alagoana Dona Vitória - nome fictício dado pelo jornal Extra - usava uma câmera parcelada em 12 vezes para denunciar o tráfico de drogas, em Copacabana, no Rio de Janeiro.

Basicamente, a aposentada filmava a rotina de traficantes na Ladeira dos Tabajaras, zona sul do Rio, que anunciavam as mercadorias em voz alta, bem como crianças que também vendiam e consumiam drogas. Além disso, muitos circulavam ainda com armas de grosso calibre.

Em março de 2004, o repórter Fábio Gusmão descobriu a história de Dona Vitória: ele ligava para diversos policiais à procura de fatos que pudessem virar pautas, a chamada “ronda”. Um agente da Coordenadoria de Inteligência da Polícia Civil (Cinpol) contou a Fábio que uma aposentada havia acabado de deixar oito fitas de gravação por lá.

Quando assistiu às imagens, sem escutar o que tinha ao fundo, o jornalista não se surpreendeu com as cenas de tráfico. Mas, quando viu com som alto, escutou a voz de Dona Vitória comentando cada flagrante, com pitadas de revolta e autenticidade. Foi aí que o profissional entendeu a relevância daquelas filmagens.

"Olha aí o futuro do Brasil. Não é possível, minha gente, essas crianças cheirando pó e ninguém fazer nada', dizia a alagoana em uma das filmagens. "Não vou dizer que não tenho medo deles, mas deixar de filmar esses bandidos, isso não vou mesmo”, defendia ela em outra fita.

Conforme reperticudo pelo jornal O Globo, as 22 fitas com 33 horas de filmagens, junto aos comentários, mostraram a insatisfação de forma geral da população carioca frente à criminalidade da época. Dona Vitória empenhou dois anos de trabalho na reunião das provas para a denúncia.

"Olha só tantas metralhadoras, as metralhadoras estão vindo aí. Maldição dessa bandidagem", desabafou a idosa em outra cena. 

Em paralelo à investigação da Cinpol sobre as imagens, o jornalista Fábio reunia dados e informações sobre os traficantes filmados. “Aquele era o mais impressionante relato em vídeo feito sobre a rotina do tráfico e o impacto disso na vida de uma pessoa que não aceitou ficar calada”, contou Gusmão ao O Globo.

Entre aquele dia de março e a publicação da reportagem - que Fábio estava produzindo -, dezoito meses se passaram. Liderada pela policial Marina Magessi, a equipe da Cinpol aconselhou Dona Vitória a mudar de endereço para a garantia de sua segurança.

Contudo, a senhora se recusava a se mudar. Depois de muitas conversas, inclusive com Fábio, ela aceitou a ajuda do Programa de Proteção à Testemunha, do Ministério Público Federal (MPF).

“Quando a conheci, ela me levou logo para a sala de casa, onde tinha a câmera e os livros que serviam de apoio. Fiquei impressionado como ela não sentia medo”, comentou o repórter. Para ele, a reportagem não seria publicada até que a senhora mudasse de casa. 

“Ela tinha se acostumado com os riscos. Mas isso era inegociável para nós. Nunca nem pensamos em publicar a matéria com Dona Vitória morando ali”, disse.

No dia 24 de agosto de 2005, a reportagem foi veiculada pelo jornal Extra, logo depois que a aposentada entrou para o programa de proteção. Paralelamente, agentes da Subsecretaria de Inteligência e do 12º DP (Copacabana) identificaram também policiais militares envolvidos no comércio ilegal de armas com criminosos daquela região. 

Isso foi possível graças a escutas telefônicas, solicitadas depois do recebimento das fitas, que gravaram conversas entre a polícia e os traficantes. E, ainda no dia 24, uma operação prendeu 7 PMs e 13 traficantes. 

Ao final da operação, mais de 30 pessoas foram presas. "Estou de alma lavada", declarou a mulher de 80 anos, na época. A repercussão do caso - e da contribuição de Dona Vitória - foi tão grande que alcançou outros países.

Quem é a corajosa 'Dona Vitória'?

Com origem no interior de Alagoas, “Vitória” nasceu em 1925, e foi vítima de estupro aos 13 anos pelo filho de um fazendeiro da região. O agressor a levou grávida para fora da cidade e a abandonou. Durante meses, ela saiu em busca de comida e emprego, e quando seu filho nasceu a surpresa veio: ele estava morto.

Mais tarde, a mulher arrumou um emprego como empregada doméstica em Recife, Pernambuco, e então se mudou para o Rio de Janeiro. Lá, fez um curso de massoterapia - prática de massagem no corpo - como qualificação. 

Depois de alguns anos de trabalho, ela pôde financiar o tal imóvel em Copacabana, onde viveu 38 anos, até a publicação da matéria. Em 2020, “Vitória” estava morando sozinha em um apartamento próprio, localizado em uma das capitais brasileiras - não revelada. 

Graças à reportagem, o Extra e o jornalista Fábio Gusmão receberam o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos e o Prêmio Tim Lopes de Jornalismo Investigativo, em 2004.

Dois anos depois, em 2006, Fábio publicou o livro "Dona Vitória da Paz", da Editora Planeta, com a história de vida da alagoana. Na capa, o jornalista escreveu: “Ela tinha 80 anos quando desafiou o narcotráfico. Suas armas? Uma filmadora e um bocado de coragem”. 

De acordo com O Globo, os direitos do livro foram vendidos para a produtora Conspiração, que planejava realizar um filme sobre a saga da icônica aposentada. 


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