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Canções de Ninar da Babilônia são encontradas em placa cuneiforme

Datada de 500 a.C., placa com inscrições rituais servia para fazer bebês dormirem

Joseane Pereira Publicado em 30/04/2019, às 15h00

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- Reprodução

Algo curioso encontra-se em exposição no Museu Peabody da Universidade de Harvard: uma placa cerâmica de escrita cuneiforme, contendo instruções rituais para fazer bebês dormirem. Encontrado em Nippur, ao sul de Bagdá, e esculpido entre 500 a.C. e 300 a.C., o artefato revela muito sobre as práticas domésticas do antigos babilônios.

O Império Babilônico foi um dos mais conhecidos da região da Mesopotâmia, no Oriente Médio. Durante o governo do rei expansionista Nabucodonosor, que durou de 604 a.C. a 562 a.C., a cidade contou com grandes melhorias na arquitetura e luxuosos palácios para os funcionários públicos, e também com a produção de grandes obras científicas e literárias — incluindo, como sabemos agora, técnicas que auxiliavam os pais a colocarem seus bebês para dormir.

O que diziam as canções

Segundo especialistas que traduziram os escritos da placa de cerâmica, as canções sugeriam que os bebês que ficassem "calmos como a água", que "pegassem no sono como um filhote de gazela sonolento" e que "cochilassem como um pastor acenando com a cabeça no meio do dia". O texto, provavelmente sussurrado aos bebês pelos seus pais cuidadosos, também contém conselhos extras para acalmar a criança, como a sugestão de que os pais esfreguem poeira de uma rua, porta ou túmulo na cabeça da criança inquieta.

"A placa contém textos sobre paz e tranquilidade, assim como uma canção de ninar moderna", diz Eckart Frahm, professor de línguas e civilizações do Oriente Próximo da Universidade de Yale. Para os estudiosos, as canções de ninar cuneiformes — únicas descobertas até hoje — surgiram através da transmissão oral de tradições milenares.

Representações em pedra do demônio Kusarikku / Crédito: Reprodução

 

Os rituais cantados também tinham o objetivo de afastar Kusarikku, um demônio mitológico com formato de bisão que, se irritado, poderia "fazer coisas terríveis que nenhum deus faria", explica Frahm. Ou seja, cantar para os bebês também era uma maneira de proteger a família e a casa de perigos sobrenaturais.

Para o pesquisador, não existia um limite claro entre magia e ciência na sociedade babilônica. O que poderia ser um ritual de cura ou pacificação também se enquadrava na medicina formal, e por isso canções de ninar, práticas rituais e instruções sobre oferendas ficavam ao lado de textos científicos e literários, nas bibliotecas públicas e particulares.