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Cangaço e liberdade: Os bastidores da intensa saga de Sérgia Ribeiro da Silva, a Dadá

A esposa de Corisco foi a única mulher entre os bandoleiros a portar um fuzil, e viveu décadas após o fim do movimento, trazendo memórias do banditismo sertanejo

André Nogueira Publicado em 11/06/2020, às 08h00 - Atualizado às 08h30

Dadá
Dadá - Wikimedia Commons

Nascida em Belém do São Francisco, Sérgia Ribeiro da Silva foi uma mulher forte que, mesmo sendo contra a própria vontade, entrou para a História de maneira marcante. Migrando de Pernambuco à Bahia aos treze anos, ela foi raptada e violentamente estuprada pelo cangaceiro Corisco, o que deu origem ao arco de Dadá, a mulher portadora de fuzil.

Após o violento estupro cometido pelo Diabo Louro, Sérgia teve uma série de hemorragias e quase morreu por falta de sangue. A defloração forçada, que era mal vista pela sociedade machista da época, a fez ser expulsa de casa, obrigando-a a morar por três anos na casa de parentes de Corisco.

Então, em 1930, uma reviravolta histórica aconteceu: Maria Gomes de Oliveira entrava no bando de Lampião, com o nome de Maria Bonita, passando a ser a primeira mulher deste ato e abrindo certa permissão para a entrada de outras. Com isso, Sérgia decide entrar no movimento, já de conhecimento por conta de seu famoso abusador.

Foto colorizada de Dadá e Corisco / Crédito: Divulgação/Rubens Antonio

 

Aproximando-se de Corisco, o relacionamento anteriormente forçado começara a se desenvolver amorosamente. Na visão do cangaceiro, o nomadismo entusiasmante e o nascimento dos filhos do casal foram responsáveis pelo estreitamento da relação dos dois, o que levou ao casamento.

Dadá foi de grande influência na atuação do violento e sádico Corisco, que tinha em sua palavra uma confiança gigantesca. A cangaceira, conhecida como Suçuarana do Cangaço, muitas vezes colaborou para que o Diabo Louro tivesse misericórdia ou fosse mais objetivo, salvando várias vidas com intervenções às ações do marido.

No total, o casal teve sete filhos, que não eram levados junto ao bando de criminosos, mas enviados a familiares e conhecidos para que fossem criados, com bastante recurso. Já Dadá e Corisco continuaram a vida de bandoleiros, com posição de privilégio: segundo homem no comando, o Diabo Louro mandava na principal secção do grupo.

Esse privilégio permitiu que Dadá, diferentemente das outras mulheres, portasse uma pistola própria, para autodefesa. Mas, isso se aprimorou, levando Sérgia a ser a primeira mulher a portar um fuzil no cangaço, e a única. Também teve uma educação adulta diferenciada, pois seu marido, que sabia ler, escrever e contar, a ensinou tudo isso.

Dadá, Lampião e Maria Bonita / Crédito: Wikimedia Commons

 

Dadá começou a portar e atirar de fuzil depois de um ataque de volantes contra o grupo de Corisco em que o mesmo foi ferido violentamente nas mãos e perdeu sua mobilidade, o que o impediu para sempre de manipular a arma. Começando a proteger e tomar sua posição nos tiroteios, Dadá tornou-se a primeira mulher de participação não defensiva (mas ativa e compromissada) no cangaço nordestino.

Crise

Nos final dos anos 1930, uma campanha federal perseguiu e matou os principais cangaceiros, com o objetivo de acabar com o movimento. Lampião fora morto de decapitado em 1938. Em busca de vingança, Corisco saíra pelo sertão assassinando supostos responsáveis pelo assassinato, porém, cada vez com menos capacidade de ação.

Corisco e Dadá se encontraram numa encruzilhada. Isolados, não tinham muito mais capacidade de agir de maneira criminosa. Com poucas armas, contra as poderosas metralhadoras que as volantes passaram a portar, não havia mais esperança. Muitos cangaceiros aproveitaram dos indultos fornecidos pelo governo e se entregaram à Justiça, mas Corisco relutava.

O casal, decidido largar a vida de crimes, migrou para o Alagoas, mas foram perseguidos por forças de segurança. Em 1940, dispostos a se entregar, mas resistindo a ações de policiais, eles acabaram encurralados pela volante do tenente Zé Rufino, que abriu fogo contra os dois, levando ao ferimento de Dadá na perna.

Dadá / Crédito: Wikimedia Commons

 

Corisco fora atingido no abdômen, e seus intestinos acabaram para fora do corpo. Dez horas depois, na companhia de Dadá, ele morreu. Ela, por sua vez, pegara uma infecção e se tornou inábil de resistir. Cercada por policiais, ela se entregou e foi presa, mas antes foi internada, onde realizou exames e teve a perna amputada por conta da gangrena.

Com a defesa de um pilantra com alta capacidade de convencimento, ela conseguiu na Justiça um indulto em 1942, passando a viver em liberdade. Sozinha e fora do cangaço (àquela época, já extinto), ela se mudou para Salvador, onde se dedicou à defesa da honra de seus antigos companheiros mortos, tentando impedir a bizarra exposição das cabeças dos cangaceiros pelo Instituto Nina Rodrigues.

Os esforços de Dadá só surgiram efeito prático em 1969, quando a instituição aceitou inumar os cadáveres. Porém, sua ação, somada a sua participação única no cangaço, a fizeram uma figura conhecida positivamente como representante de um empoeiramento, o que lhe rendera uma homenagem na Câmara Municipal da capital baiana. Testemunha viva do passado bandoleiro, ela era praticamente uma celebridade até sua morte em 1994.


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