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A carta do Diabo

Em 1676, uma freira afirmou que o Diabo ditou a ela uma mensagem cifrada, que ficou três séculos e meio sem ser decifrada

terça 7 agosto, 2018
A carta e a freira
A carta e a freira Foto:Reprodução

No dia 11 de agosto de 1676, uma freira de 31 anos foi encontrada jogada no chão de seus aposentos no convento de Palma di Montechiaro, na Sicília. Com o rosto sujo de tinta, ela segurava uma carta com uma mistura de símbolos e letras incompreensíveis e afirmava ter sido possuída por Satã. Ao se recuperar, a irmã explicou que a carta era de autoria do Inimigo que, por meio de uma, possessão forçou-a a escrever, tentou afastá-la de Deus e levá-la para o caminho das trevas.

A freira descrita no relato acima é Maria Crocifissa Della Concezione. Ela entrou para o convento quando tinha apenas 15 anos. A Carta do Diabo que ela segurava tinha 14 linhas escritas com garranchos misteriosos fora de ordem – uma mistura que dificultou ainda mais o trabalho dos que tentaram decifrá-la.

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A freira Maria Crocifissa Della Concezione Reprodução

Trezentos e quarenta e dois anos após o ocorrido, pesquisadores do museu Ludum, na Sicília, conseguiram decodificar partes da carta com o auxílio de um programa que quebra códigos de inteligência encontrado na deep web. O software detectou a presença de uma mistura de palavras em grego, latim, rúnico e árabe.

"É como se a carta tivesse sido escrita em taquigrafia. Nós especulamos que a irmã Maria criou um novo vocabulário usando alfabetos antigos que ela pode ter conhecido", diz Daniele Abate, diretor do museu Ludum, em entrevista à Live Science.

A carta Reprodução / Daniele Abate

As linhas descrevem Deus, Jesus e o Espírito Santo – a Santíssima Trindade – como "pesos mortos", e que Deus não tinha o poder de libertar os mortos. Além disso, outra parte também menciona o Estige (Styx), que na mitologia grega e romana era descrito como um rio que separa o mundo dos mortos e o mundo dos vivos.

A travessia no Styx Reprodução

Após analisar relatos históricos sobre a vida da madre, os pesquisadores sugerem que ela sofria de esquizofrenia ou transtorno bipolar. "A imagem do diabo está frequentemente presente nesses distúrbios. Os registros históricos mostram que toda noite ela gritava e lutava contra o demônio", afirma Abate.

Segundo relatos da abadessa Maria Serafica, a Igreja enxergou o episódio como uma luta da madre contra "inúmeros espíritos malignos". Serafica ainda explicou que o diabo teria forçado a freira a assinar a mensagem, no entanto ela não obedeceu às ordens do satã e escreveu apenas Ohimé ("Oh eu"). 

Vista como vitoriosa contra o mal, a freira foi considerada venerável — digna de estima, mas não formalmente santa — após a morte. 

Thiago Lincolins


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