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Casamento aos 10 anos, plano de golpe e traições: a intimidade ardilosa de Carlota Joaquina

Apelidada de "megera de Queluz", a mulher tramou contra o próprio marido, João VI

Vanessa Centamori Publicado em 17/06/2020, às 11h20

Carlota Joaquina
Carlota Joaquina - Wikimedia Commons

Carlota Joaquina era conhecida somente como Carlota e vivia uma infância travessa e brincalhona. Mas a princesa filha do rei espanhol Carlos IV estava predestinada a um futuro de camaleoa, dividida entre dois países — a Espanha, claro, mas também Portugal. Para selar os laços com esse último, ela teve a meninice interrompida, ao se casar aos 10 anos de idade. 

A criança virou esposa em 25 de abril de 1775, do príncipe de Portugal, D. João, que tinha seus 18 anos. Isso soa como — e de fato é — pedofilia. Mas, naquela época, tratava-se de um acordo político: uma aliança para que os países se recuperassem, em um momento de crise e perda de centralidade no cenário europeu. 

Sem química nem amizade

A menina ossuda, mais tarde, ganhou fama de Megera de Queluz, sendo odiada na corte portuguesa. E seu casamento arranjado com o barrigudo D. João foi um fiasco. Para começar, o festejo de bodas, que aconteceu no dia 9 de junho, foi turbulento. Carlota tinha temperamento forte, para se dizer o mínimo. 

Durante a lua de mel, ela teria agredido o marido com uma dentada. Ao longo do casamento com o príncipe de Portugal, a garota também não foi nenhuma esposa submissa. Aos olhadores do povo, ela era uma mulher promíscua que tentava influenciar o cônjuge a favor das ambições da coroa espanhola. 

Seu defeito mais conhecido seria que Carlota era supostamente adúltera, tal como a mãe, Maria Luísa de Parma — a rainha que traía o marido, o Rei Carlos IV de Espanha, com o primeiro-ministro, Manuel Godoy.

D. João VI e Carlota Joaquina / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Em meio às traições no casamento, Carlota e D. João tiveram 9 filhos, sendo o mais famoso dele D.Pedro I, que se tornaria  Imperador do Brasil e Rei de Portugal. A questão é que muito se tinha dúvidas sobre quais dos filhos eram legítimos ou frutos do adultério

No livro D. João VI, de Jorge Pedreira e Fernando Dores Costa, há um parágrafo que põe em dúvida a paternidade de seis dos noves filhos do monarca marido de Carlota Joaquina. "Parece que D. Pedro, D. Isabel Maria eram indubitavelmente seus. D. Ana é talvez o primeiro fruto de João dos Santos [um jardineiro]. D. Maria Francisca é filha de Luiz da Motta Feo", escreveu. 

A obra diz ainda que D. Miguel não era herdeiro legítimo, mas na verdade filho do Marquês de Marialva; D. Maria da Assunção, era por sua vez, fruto de uma relação de Carlota com João dos Santos. E pior: acerca dos outros filhos da princesa, nem se quer se sabia quem era o pai. 

Os planos de Carlota

Por outro lado, a fama de adúltera da Megera de Queluz é tratada de modo diferente no livro Memórias de Carlota Joaquina, a amante do poder, do historiador argentino Marsilio Cassotti. Ele defende que a esposa de D. João era alvo na verdade de uma campanha negativa do governo português e do governo inglês.

Ela teria ficado conhecida como infiel, em uma tentativa de seus rivais de difamá-la. Os rumores surgiram logo após a ambiciosa Carlota ter elaborado um golpe para derrubar o próprio marido. 

O plano surgiu enquanto D. João se tornou príncipe regente. Em 10 de fevereiro de 1792, a doença mental de D.Maria I, apelidada de "a Louca", entregou a regência nas mãos do príncipe. Mais tarde, Carlota Joaquina tentou tomar o poder. 

Retrato de Carlota Joaquina / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Em 1805, enquanto D. João ainda estava em Portugal, o regente descobriu a conspiração tramada por sua esposa. Ela, com o apoio de nobres e eclesiásticos, queria declará-lo incapaz. Acabou não dando certo. 

Além disso, como o país natal de Carlota, a Espanha, estava sob o poder de Napoleão, a família dela foi aprisionada. O plano da mulher astuciosa era, então, governar as colônias espanholas, se transformando na rainha do Rio da Prata. Como já sabemos, o projeto fracassou. 

Embarque para o Brasil e exílio 

Portugal também foi ameaçada pelas tropas napoleônicas e em 1807 a família real foi obrigada a embarcar para o Brasil. Carlota se viu forçada a ir junto de D. João e os filhos até o Rio de Janeiro. Por lá, morou longe dele, em locais mais bucólicos, como Botafogo. Os dois só se encontravam durante solenidades, tamanho o climão. 

Em 1820, devido à Revolução do Porto, eles tiveram que voltar à Portugal, mas nem assim Carlota desistiu do golpe. Em uma manobra chamada Conspiração da Rua Formosa, ela tentou fazer o rei abdicar e destruir a constituição. Após várias tentativas, mais uma vez, o estratagema falhou devido à boa base política de D. João. 

Retrato de Carlota Joaquina, do Museu Imperial de Petrópolis / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Como resultado, Carlota foi mandada para um exílio no Palácio de Ramalhão, no sul de Portugal. Por lá, ela não se aquietou: continuou tramando contra o marido e rival. Tentou se reestabelecer com o filho, o infante Dom Miguel, para derrubar os esforços da Revolução do Porto e restaurar o absolutismo. 

Uma outra tentativa de Carlota, chamada de Vilafrancada, foi derrotada em maio de 1823. Depois, no ano seguinte, houve o evento da Abrilada, resultando na expulsão dela da corte e no exílio de Dom Miguel. 

Nem quando D. João VI morreu, em 1826, a ambição da agora viúva parou. Com o marido morto, ela tentou novamente reivindicar o trono, mas não ganhou grande apoio. Dona Carlota morreu isolada e sem aliados, presa no Palácio de Queluz, até a sua morte, em 7 de janeiro de 1830.


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