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Casamento com a prima, traições e fome insana: a peculiar saga do rei George IV

O monarca foi conhecido não só pela fartura dos seus banquetes, mas também por ser arrogante e mulherengo

Vanessa Centamori Publicado em 16/06/2020, às 08h00 - Atualizado às 17h00

Rei George IV
Rei George IV - Wikimedia Commons

Certa vez, em 1783, logo após completar seus 21 anos, um poderoso príncipe se apaixonou por uma plebéia. Soa até como um conto de fadas. Mas, não se engane: George, herdeiro do trono do Reino Unido, estava longe de ser um príncipe encantado. Muito pelo contrário — quando ele encontrou a mulher simples pela qual se apaixonou, sua fama era de homem vulgar e mulherengo. 

Maria Fitzherbert era uma mulher comum e sem título, duas vezes viúva e pronta para se entregar a mais uma paixão. O príncipe, com seu berço real, podia-lhe ofertar um futuro e tanto junto à monarquia. Só que a reputação do rapaz tinha se corrompido bastante, desde que ele tinha mudado da corte do pai, George III, para se instalar em Brighton. 

O príncipe George vivia sob uma dieta bastante restritiva, mas ao se mudar virou um famoso comilão — o fato dele ser acima do peso se tornou seu principal atributo. Por oito meses, as garfadas do futuro monarca eram dadas nos deliciosos pratos da mais alta cozinha, administrados pelo chef Antoine Carême. Resultado: o príncipe ficou rechonchudo, aos costumes da culinária francesa. 

Maria Fitzherbert / Crédito: Wikimedia Commons 

 

O trauma do primeiro amor 

De alguma forma, apesar dos conhecidos defeitos do príncipe, a plebéia Maria Fitzherbert se casou com o arrogante George em 15 de dezembro de 1785. No entanto, juridicamente, a cerimônia valeu de absolutamente nada — não havia o consentimento do rei George III.

A permissão do monarca era obrigatória devido ao Decreto de Casamentos Reais. Sem isso, o casório foi invalidado. Detalhe que caso o casamento realmente funcionasse, o príncipe não poderia ser rei devido a outro decreto, que tirava da linha de sucessão qualquer príncipe que se casasse com um católico.

Em suma, tratava-se de um amor impossível. E, realmente, não deu certo. Chateado, o Príncipe de Gales continuou sua vida de comilança extravagante e seus gastos exorbitantes. Enquanto isso, o rei George III sofria com a doença porfiria, que resulta em lesões de pele e manifestações neurológicas. A saúde mental do monarca desceu ladeira abaixo em 1788. 

Casamento entre George IV e a prima, Carolina de Brunsvique / Crédito: Divulgação 

 

Tentativa de regência e casamento com a prima 

O pai do Príncipe de Gales ficou demente, mas realizou algumas de suas funções. Tudo piorou de vez e o parlamento conseguiu apresentar um Projeto de Lei da Regência, mas o monarca se recuperou antes dele ser aprovado.

Em meio ao caos político, George III sofria com os gastos elevados do filho. O príncipe  passava o tempo mobiliando residências em Londres e Brighton, além de gastar em diversão e estábulos (ele era fascinado por cavalos). 

Em resposta, o rei obrigou então que George se casasse com a própria prima, Carolina de Brunsvique. Era uma manobra para juntar fortunas familiares e o reino não ir à falência. O matrimônio, como esperado, foi um fracasso em termos afetivos.  

Ao conhecer o primo pela primeira vez, Caroline comentou que ele era "muito gordo e não tão bonito quanto no retrato". Além disso, George ficou bêbado na cerimônia de casamento deles, em 1795.

Em uma carta de 25 de abril, ele disse que a etiqueta dela teria a impedido de ser "mais alegre e divertida". "Se você deseja mais da minha empresa, deve perceber que o modo natural de obtê-la é tornar minha casa não desagradável para mim", escreveu o recém-casado, insatisfeito. 

A Condessa de Jérsei, que era amante de George IV / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Amantes 

Com tamanha falta de química, a relação entre George e a prima foi um desastre. Ele teve várias amantes e, por consequência, diversos filhos ilegítimos. Entre os numerosos affairs do príncipe estava a atriz Mary Robinson, uma mulher divorciada chamada Grace Elliot e a Condessa de Jérsei, uma moça chamada Frances Villiers. 

Apesar de trair a prima, a união de George com Carolina de Brunsvique também gerou o nascimento de uma filha, Carlota de Gales, nascida em 1796. Alguns anos depois, Carlota faleceu tragicamente, enquanto lutava para dar à luz um bebê. 

Regência e reinado 

No final da década de 1810, a saúde mental do rei George III se agravou novamente. E assim, em 5 de fevereiro de 1811, o príncipe George foi nomeado regente. O pai dele nunca melhorou e morreu em janeiro de 1820. 

O filho, ainda obeso, e agora com 57 anos, assumiu o trono no mesmo ano. A coroação ocorreu um ano depois, na Abadia de Westminster, em 19 de julho de 1821. Dizia a lenda que todas as manhãs o rei George IV tinha que ser amarrado em seu cinto e espartilho de osso. 

A gordura do monarca e as suntuosidades de seus apetrechos faziam esse processo levar o total de três horas angustiantes. Em sua própria coroação, ele teria desmaiado devido ao aperto do seu look pomposo.

Rei George IV, em pintura de Thomas Gainsborough / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Declínio 

Durante seu reinado, o alcoolismo e os banquetes de comida começaram a afetar a saúde do rei. George IV sofria de várias doenças relacionadas ao peso e excesso de alimentos, como gota e arteriosclerose. Aos poucos, ele foi se afastando de suas tarefas públicas. 

Deitar na cama virou um doloroso escrutínio. O movimento fazia o rei vítima do sobrepeso quase se asfixiar em seus últimos meses de vida. Seus membros inchados também causavam dor em excesso e acumulavam líquido, dificultando sua vestimenta.

A gota dificultava que ele assinasse documentos. Além disso, resultou em catarata, deixando o rei praticamente cego. Seu sofrimento teve fim somente com a morte, que ocorreu em Windsor, no dia 26 de junho de 1830. 

O monarca foi sepultado com um medalhão de diamantes, um símbolo de amor, cuja outra metade idêntica tinha sido dada por ele para sua amada impossível, a plebéia Maria Fitzherbert. Ela também foi enterrada, inclusive, com essa outra parte do medalhão. O objeto póstumo foi a leilão em 2017. 


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