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Caso Eloá: o mais longo sequestro em cárcere privado da história de São Paulo

A jovem foi mantida em seu apartamento durante cinco dias por Lindemberg Alves, o ex-namorado de 22 anos

Pamela Malva Publicado em 23/12/2019, às 16h46

Eloá na janela de seu apartamento, durante o sequestro
Eloá na janela de seu apartamento, durante o sequestro - Wikimedia Commons

Em uma tarde tranquila, Eloá Cristina Pimentel fazia um trabalho da escola com mais três colegas, em um apartamento em Santo André, no ABC Paulista. Acompanhada por uma de suas grandes amigas, Nayara Rodrigues da Silva, a menina não poderia imaginar que passaria por tamanho terror durante as próximas 100 horas.

No dia 13 de outubro de 2008, enquanto os jovens se preocupavam com o trabalho curricular, Lindemberg Fernandes Alves, de 22 anos, ex-namorado da jovem de 15, traçava outros planos. Essas três pessoas se tornaram as protagonistas do que ficou conhecido como o mais longo sequestro em cárcere privado de São Paulo.

Tudo começou quando Lindemberg invadiu o apartamento de Eloá motivado pelo final do namoro, segundo foi divulgado pelos veículos jornalísticos na época. O ato “passional”, como foi chamado, logo escalou para algo muito mais preocupante. Inicialmente, dois dos amigos de Eloá foram liberados, enquanto a jovem e Nayara foram mantidas em cativeiro.

A polícia foi chamada e, junto com ela, os moradores ouviram helicópteros e vans de veículos jornalísticos e de redes de televisão. Rapidamente, canais como a Globo, a RedeTV! e a Record tinham câmeras apontadas para a janela do apartamento de Eloá. Lindemberg, durante picos de adrenalina, mantinha as meninas na sala da residência e via sua imagem passando na televisão.

Eloá Pimentel, de 15 anos / Crédito: Reprodução/Facebook

 

Os oficiais responsáveis pelo caso tentaram negociar com o sequestrador e finalmente liberar as vítimas, mas pouca coisa era retirada do jovem de 22 anos. A jornalista Sônia Abrão, da RedeTV!, chegou a entrevistar Lindemberg ao vivo por telefone, intervindo diretamente no caso — atitude que veio a ser criticada mais tarde.

Nesse vai e vem, um dia se passou. Já no dia 14 de outubro, às 22h50, Nayara foi solta e pôde ir para casa. Os jornalistas cobriram sua libertação e filmaram seu rosto assustado, enquanto ela saia do apartamento, pensando na amiga que ainda estava presa.

Eloá, de vez em quando, saía na janela, mostrava que estava viva e bem, apesar das condições, e pedia por calma. As coisas, no entanto, saíram do controle quando, no dia 15, a polícia, sem ter mais como negociar com o sequestrador, mandou Nayara de volta ao local do cárcere.

Cena do documentário Quem matou Eloá? / Crédito: Quem matou Eloá?/Lívia Perez

 

A ideia era que a jovem de 15 anos conseguisse negociar pessoalmente com Lindemberg, além de fazer companhia à amiga que ainda era mantida como vítima. O resultado, como podemos imaginar, não foi o esperado: Nayara voltou a ser uma das sequestradas.

Com os nervos à flor da pele, as negociações frias e muita pressão popular — proveniente da cobertura incessante dos jornalistas —, os policiais do Grupo de Ações Táticas Especiais e da Tropa de Choque da Polícia Militar disseram ter ouvido um disparo de arma de fogo vindo do interior do apartamento. Não pensaram duas vezes: explodiram a porta.

Lá dentro, os oficiais entraram em luta corporal com o sequestrador. Em resposta à atitude da polícia, Lindemberg atirou na direção das duas reféns, acertando ambas as jovens. Nayara levou um tiro no rosto e Eloá foi baleada na cabeça e na virilha.

No final, Nayara deixou o apartamento andando, Eloá foi carregada até o Centro Hospitalar de Santo André e Lindemberg saiu algemado, para seu julgamento. Tudo, o tempo todo, foi acompanhado pelas câmeras incansáveis das redes televisivas.

Lindemberg em seu julgamento / Crédito: Estadão Conteúdo

 

Às 23h30 do dia 18 de outubro, um sábado, Eloá foi dada como morta por morte cerebral, em decorrência dos dois tiros que levou. Assim, a vida da garota de 15 foi tirada por um crime “passional” — terminação que já não é mais tão bem aceita nos tribunais.

O sequestrador foi preso e, em janeiro de 2009, o juiz José Carlos de França Carvalho Neto, da Vara do Júri e Execuções Criminais de Santo André, determinou que Lindemberg iria a júri popular. Anos mais tarde, o julgamento durou 4 dias — de 13 a 16 de fevereiro de 2012.

Lindemberg foi considerado culpado pelos 12 crimes dos quais foi acusado, sendo eles: um homicídio, duas tentativas de homicídio, cinco cárceres privados e quatro disparos de arma de fogo. Sua pena inicial foi de 98 anos e 10 meses, sentenciada pela juíza Milena Dias.

Problematizações

Quando a população soube que Eloá foi morta depois da atitude tomada pelos oficiais, muitas críticas pipocaram. A primeira delas foi direcionada à própria polícia. Muito se foi falado sobre como os responsáveis levaram o caso, tanto em relação às negociações, quanto em relação ao momento da prisão de Lindemberg.

Cena do documentário Quem matou Eloá? que mostra uma entrevista de Nayara / Crédito: Quem matou Eloá?/Lívia Perez

 

Em 27 de outubro de 2008, o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa (Condepe) fez uma denúncia na Ouvidoria das Polícias de São Paulo. No documento, o órgão pediu que  fosse investigado se Lindemberg sofreu agressões desnecessárias durante a operação.

Além disso, a mídia foi uma das maiores criticadas durante os meses seguintes ao caso. O documentário Quem matou Eloá?, lançado em 2015, dirigido por Lívia Perez, ergue a discussão sobre a porcentagem de culpa dos jornalistas na morte da jovem de 15 anos. 

A maior crítica em relação aos veículos jornalísticos diz sobre a espetacularização do caso. Segundo especialistas, a mídia brasileira tratou o caso Eloá como um filme, algo parecido com entretenimento, e não como um caso real, de uma menina que foi morta, depois de cinco dias sendo mantida em cárcere privado pelo ex-namorado.


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