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Caso Escadinha: 37 anos da fuga prisional mais impressionante do Brasil

No Réveillon de 1985, a saída histórica de um presídio de segurança máxima libertou um dos fundadores do Comando Vermelho

Wallacy Ferrari Publicado em 26/03/2022, às 09h00

Montagem de Escadinha com helicóptero no presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande
Montagem de Escadinha com helicóptero no presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande - Divulgação / YouTube / TV Globo

A tarde de 31 de dezembro de 1985 tinha tudo para encerrar o ano de maneira amena; assim como todo Réveillon, o clima de reunião familiar chegava nas residências, empresas e até em presídios brasileiros, como no antigo presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande, localizado no Rio de Janeiro.

Atualmente extinto, o complexo penitenciário era considerado de segurança máxima, não apenas na estrutura prisional, mas por ser rodeado de condições naturais que envolviam o cercado de mata densa e impossibilitava a chegada de veículos por terra. Mesmo assim, naquele último dia do ano, era data de visitar os internos e estes, por sua vez, de rever familiares e amigos.

Contudo, o detento José Carlos dos Reis Encina decidiu usar a ocasião a seu favor e pôr em prática um plano meticuloso, recebendo a visita da esposa, mas como informante de uma tentativa de fuga histórica. 

Manchete conta trajetória de fuga na prisão por Escadinha / Crédito: Divulgação / Estado de S. Paulo

Conhecido pelo vulgo Escadinha no morro do Juramento, zona norte da capital fluminense, o traficante foi um dos fundadores do Comando Vermelho, como informou a Folha de S. Paulo, e estava condenado a 30 anos de pena desde o ano anterior, ficando todo o período de 1985 sem apresentar riscos ou desconfiança aos agentes penitenciários — pelo menos, até aquela tarde.

Fuga cinematográfica

Com o auxílio da esposa, Escadinha ficou ciente de que um dos membros da facção criminosa que ele comandava já estava executando seu plano de fuga. José Carlos Gregório, conhecido pelas autoridades fluminenses como "Gordo", havia alugado um helicóptero e estava prestes a sequestrar o Comandante Luiz Pires, que conduzia o FH 1100 na região do presídio.

Em pouco tempo, o companheiro deveria retardar a ação policial e ir para um ponto específico onde havia espaço suficiente para a aproximação do helicóptero. Na época, por se tratar de um presídio isolado de regiões urbanizadas, os detentos tinham um passe que permitiam deixar a estrutura, sempre sendo vigiados por barcos caso tentassem a fuga pela água.

Contudo, ao render o piloto, uma fuga aérea era inesperada e, em poucos instantes, Escadinha conseguiu subir na aeronave junto com a esposa em meio a um clarão. Ao levantar voo, a confirmação da cautela era comprovada: o traficante havia concluído, com êxito, uma das fugas mais audaciosas da história do sistema penitenciário brasileiro.

Ironia do destino

Devolvido para a comunidade onde dominava a comercialização de entorpecentes, ele passou três meses foragido, com pistas da operação de escape sendo descobertas aos poucos pelos depoimentos do condutor do helicóptero e guardas do presídio.

De acordo com o Estadão, ele levou dois tiros em confronto com a Polícia Militar, mas não se rendeu, conseguindo fugir e indo a um hospital, sendo preso após ter sido encontrado internado para tratar os ferimentos, em março de 1986.

Sem a possibilidade de acesso por solo e temendo intervenções de membros de sua organização criminosa, ele acabou retornando ao presídio, ironicamente, por um helicóptero.

Temendo novas tentativas, foi transferido para o Presídio Frei Caneca, onde uma tentativa frustrada de fuga, em 1987, resultou na morte de dois comparsas de Escadinha. Com a persistência, foi mandado para a penitenciária Lemos de Brito e, por lá, ficaria até o último dia de vida.

Em seus anos finais, conseguiu o direito do regime semi-aberto e voltava ao presídio apenas para dormir, usando a liberdade em horário comercial para administrar uma cooperativa de táxi, além de lançar uma coletânea de hip-hop em 1999.

Foi assassinado a tiros de fuzil em 23 de setembro de 2004 por rivais enquanto conduzia seu veículo ao trabalho, sendo enterrado dois dias depois no cemitério do Irajá ao som de "Meu Bom Juiz", canção gravada por Bezerra da Silva em sua homenagem.


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