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Caso Santiago Andrade: a trágica morte ao vivo do cinegrafista brasileiro

O jornalista estava fazendo uma cobertura das manifestações de 2014 no Rio de Janeiro quando o pior aconteceu

Ingredi Brunato Publicado em 26/12/2020, às 13h00 - Atualizado às 18h00

Fotografia de Santiago Andrade
Fotografia de Santiago Andrade - Divulgação

Santiago Andrade foi jornalista por duas décadas de sua vida, a última delas trabalhando na TV Bandeirantes — e de certa forma acabou morrendo em decorrência da profissão. O cinegrafista tinha 50 anos de idade quando estava cobrindo um protesto nas Ruas de Janeiro, onde aconteceu o evento que levaria ao seu fim. 

Era fevereiro de 2014, época das manifestações dos 20 centavos, que depois ganharam outras proporções, tomando o país. O jornalista carioca não viveria para ver esse depois, todavia. Isso porque um rojão jogado por um dos manifestantes acabou atingindo sua cabeça, colocando-o imediatamente em estado grave. 

Ele foi socorrido por colegas de profissão e um membro da Cruz Vermelha que estava próximo do local, sendo levado para o hospital às pressas. Apesar dos esforços dos médicos, infelizmente, não havia muito que desse para fazer por ele. 

Santiago sofreu afundamento do crânio e perdeu parte da orelha esquerda. Quatro dias após o protesto em que foi atingido, morreu no hospital, cercado por sua família. 

Momento do acidente / Crédito: Divulgação/ Band 

 

Quem era o cinegrafista 

O jornalista fez trabalhos de grande relevância ao longo de sua carreira. Alguns exemplos são sua cobertura dos Jogos Pan-americanos de 2007, o massacre de Realengo em 2011 e o Rio+20 (uma conferência da ONU que discutiu sustentabilidade) em 2013. 

Também ganhou dois prêmios jornalísticos por uma reportagem tratando dos problemas de mobilidade urbana enfrentados pelos usuários de transporte público do Rio de Janeiro. 

Repercussão 

A mídia de todo o país reagiu em solidariedade à morte do carioca, dessa forma fazendo com que o caso ganhasse grande cobertura.  O Jornal Nacional, por exemplo, da emissora Globo, homenageou o cinegrafista no fim de uma de suas edições.  

“Não é só a imprensa que está de luto com a morte do nosso colega da TV Bandeirantes Santiago Andrade. É a sociedade. A Rede Globo se solidariza com a família de Santiago, lamenta a sua morte, e se junta a todos que exigem que os culpados sejam identificados, exemplarmente punidos. E que a polícia investigue se, por trás da violência, existe algo mais do que a pura irracionalidade", leu William Bonner

Em seguida, o telão do jornal mostrou a foto de Santiago, sob o som dos aplausos da redação.  

Na época, também ocorreram protestos de jornalistas, exigindo, por exemplo, mais segurança para cinegrafistas que precisassem sair às ruas durante manifestações. Isso porque se o carioca contasse com equipamentos de proteção adequados, como por exemplo um capacete, o rojão provavelmente não seria fatal. 

A própria Dilma Roussef, na época presidente do Brasil, manifestou-se a respeito da trágica morte, dizendo que: “Não é admissível que os protestos democráticos sejam desvirtuados por quem não tem respeito por vidas humanas. A liberdade de manifestação é um princípio fundamental da democracia e jamais pode ser usada para matar, ferir, agredir e ameaçar vidas humanas, nem depredar patrimônio público ou privado". 

Consequências legais 

Fotografia de Caio Silva e Souza / Crédito: Wikimedia Commons

 

As imagens da manifestação gravadas pelo próprio jornalista e outros colegas ajudaram a encontrar os possíveis culpados pelo lançamento do rojão. Fabio Raposo e Caio Silva de Souza foram acusados por homicídio doloso (em que não há intenção de matar), sendo que o primeiro foi responsável por levar o rojão, e o segundo por acendê-lo.

Até a primeira metade de 2020, embora já fizessem seis anos do crime, o julgamento dos dois ainda não havia ocorrido.

Despedida 

Fotografia de faixa em homenagem ao jornalista / Crédito: Wikimedia Commons

 

A filha de Santiago, também jornalista, publicou um emocionante relato em seu Facebook em homenagem ao pai: “Meu nome é Vanessa Andrade, tenho 29 anos e acabo de perder meu pai. Quando decidi ser jornalista, aos 16, ele quase caiu duro. Disse que era profissão ingrata, salário baixo e muita ralação. Mas eu expliquei: vou usar seu sobrenome. Ele riu e disse: então pode!”

“Esta noite eu passei no hospital me despedindo. Só eu e ele. Deitada em seu ombro, tivemos tempo de conversar sobre muitos assuntos, pedi perdão pelas minhas falhas e prometi seguir de cabeça erguida e cuidar da minha mãe e dos meus avós. Ele estava quentinho e sereno. Éramos só nós dois, pai e filha, na despedida mais linda que eu poderia ter. E ele também se despediu.”, contou ela.


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